Meu mundo infinito

O blog BldgBlog postou recentemente uma entrevista com Simon Sellars, autor do livro Micronations: The lonely planet guide to home-made nations, que trata sobre, pasmem, micronações.Enquanto o tema pode parecer estranho pra alguns, pra mim é até bem corriqueiro. Micronações são uma realidade pra mim há pouco mais de 7 anos. Convidado por um amigo, acabei entrando em uma micronação virtual chamada Reunião, um país fictício na internet. Na época, com 16 anos, pra mim aquilo era o hobby perfeito: a representação lúdica da burocracia e do poderio Estatal, mesclado ao charme do erre-pê-gê. Brincar de conduzir uma nação. Eventualmente, por intermédio da minha irmã, conheci as micronações de facto, se é que isso realmente existe. Micro-países, pequenos pedaços de terra cujos donos simplesmente declaram independência e começam a viver como soberanos, exercendo inclusive funções tipicamente estatais como emitir selos, certificados de nacionalidade, casamento, etc. Foi neste meio que conheci minha hoje querida Nação Dene do Rio Buffalo. Uma nação indígena de QUASE mil pessoas, sendo que delas, somente pouco mais que cem moram na reserva. Mas perto de algumas micronações “de verdade”, os Dene são uma superpotência. Sealand, por exemplo, não tem mais que dez habitantes. Se trata de uma plataforma localizada na foz do tâmisa que, após abandonada, foi tomada por alguém que se achou no direito de se proclamar soberano de um pedaço artificial de chão no meio de lugar nenhum. Principe Roy de Sealand. Hoje Sealand está a venda, após anos servindo somente como depositório de servidores de internet abarrotados de gentilezas como pornografia infantil: como um caso raro de micronação reconhecida diplomaticamente – pela Rússia, por acidente, dizem – possui soberania pra fazer o que quiser com seu território (!) até cedê-lo pra pedófilos ou hackers em geral fazerem suas estripulias.Quando eu tinha mais ou menos uns seis anos eu comprei uma revista do Didi que iniciou um processo que só se consolidou por volta de uns seis anos mais tarde: Quando eu fazia a quinta série finalmente aprendi a jogar esse tal de erre-pê-gê, o jogo de interpretar. Sempre me pareceu deveras crível e útil o exercício e atividade de imaginar em minha cabeça um mundo diferente, regido por outras variáveis em um status quo inédito. Por mais que exista um grande mundo por aí, o que me impede de imaginar que um outro seja plausível?

J.R.R. Tolkien – sim, o dos hobbits – disse certa vez que essa vontade de se abstrair em realidades diferentes era nada mais que um impulso de emancipação: libertação da realidade e de seus grilhões. Pro resto do mundo que, diferentemente de JRR, considera que imaginar outro mundo é se esconder em uma fuga covarde de uma realidade intolerável, o termo geralmente empregado é, ironicamente, escapismo.

Toda a sociedade é regida por leis escritas e não-escritas. Adágios, regulamentos, aforismas, princípios, normas. Enquanto o termo escapismo possui uma conotação intenramente depreciativa, talvez o seu significado não seja tão tenebroso quanto se prega: não é uma questão de se afastar do mundo, mas descobrir que em algum lugar, você possui um mundo que, esse sim, é verdadeiramente e incontestavelmente seu, longe de todas essas restrições impostas contra sua liberdade.

Quando eu era BEM pequeno – BEM menor que Bella, por exemplo, o que quer dizer muita coisa pra quem nos conhece pessoalmente – eu e Bella vivíamos disputando torneio de introspecção. Passávamos muito tempo juntos, obviamente, e entre nossas brincadeiras favoritas tinhamos uma a qual não sei se já teve nome. Funcionava assim: um dos dois dizia um objeto, e então o outro era desafiado a criar um mundo para esse objeto. Por exemplo: Pasta de dentes. Como seria um carro de pasta de dentes? Teria grossas listas nas laterais, piscaria luzes tricolores, faria espuma em dia de chuva, e seria abastecido no supermercado. E uma casa? Provavelmente ela teria uma aparência de glacê (sabe como fica pasta quando endurece, né?), a porta da frente seria uma grande tampa circular. A casa teria vários pavimentos interligados por corrimões infinitos, formando uma cadeia entrelaçada de riscos coloridos. Isso tudo numa limpeza impecável.

Dia desses passou na Globo a minissérie A Pedra do Reino, onde o protagonista queria ser o grande herdeiro de Dom Sebastião, ser o Imperador do Brasil. Nada mais justo. Às vezes você vê tanta injustiça ao seu redor, tanto absurdo, tanta irracionalidade, que pulsa dentro de você uma luz de razão e criação. Um pulso eletromagnético que desativa todas as suas convicções sobre como as coisas são e te convencem francamente que, sejam como sejam, elas não deveriam ser assim. Nesse instante você começa a construir, pedaço por pedaço, um mundo na sua consciência. Com pequenos detalhes pitorescos, com imensas estruturas voltadas para realizar sua vontade, com uma combinação improvável de acontecimentos que culminaria na realização do seu sonho: um mundo diferente, belo, seja em estética ou em justiça. Um mundo brilhante e infinito

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