J.R.R. Tolkien – sim, o dos hobbits – disse certa vez que essa vontade de se abstrair em realidades diferentes era nada mais que um impulso de emancipação: libertação da realidade e de seus grilhões. Pro resto do mundo que, diferentemente de JRR, considera que imaginar outro mundo é se esconder em uma fuga covarde de uma realidade intolerável, o termo geralmente empregado é, ironicamente, escapismo.
Toda a sociedade é regida por leis escritas e não-escritas. Adágios, regulamentos, aforismas, princípios, normas. Enquanto o termo escapismo possui uma conotação intenramente depreciativa, talvez o seu significado não seja tão tenebroso quanto se prega: não é uma questão de se afastar do mundo, mas descobrir que em algum lugar, você possui um mundo que, esse sim, é verdadeiramente e incontestavelmente seu, longe de todas essas restrições impostas contra sua liberdade.
Quando eu era BEM pequeno – BEM menor que Bella, por exemplo, o que quer dizer muita coisa pra quem nos conhece pessoalmente – eu e Bella vivíamos disputando torneio de introspecção. Passávamos muito tempo juntos, obviamente, e entre nossas brincadeiras favoritas tinhamos uma a qual não sei se já teve nome. Funcionava assim: um dos dois dizia um objeto, e então o outro era desafiado a criar um mundo para esse objeto. Por exemplo: Pasta de dentes. Como seria um carro de pasta de dentes? Teria grossas listas nas laterais, piscaria luzes tricolores, faria espuma em dia de chuva, e seria abastecido no supermercado. E uma casa? Provavelmente ela teria uma aparência de glacê (sabe como fica pasta quando endurece, né?), a porta da frente seria uma grande tampa circular. A casa teria vários pavimentos interligados por corrimões infinitos, formando uma cadeia entrelaçada de riscos coloridos. Isso tudo numa limpeza impecável.
Dia desses passou na Globo a minissérie A Pedra do Reino, onde o protagonista queria ser o grande herdeiro de Dom Sebastião, ser o Imperador do Brasil. Nada mais justo. Às vezes você vê tanta injustiça ao seu redor, tanto absurdo, tanta irracionalidade, que pulsa dentro de você uma luz de razão e criação. Um pulso eletromagnético que desativa todas as suas convicções sobre como as coisas são e te convencem francamente que, sejam como sejam, elas não deveriam ser assim. Nesse instante você começa a construir, pedaço por pedaço, um mundo na sua consciência. Com pequenos detalhes pitorescos, com imensas estruturas voltadas para realizar sua vontade, com uma combinação improvável de acontecimentos que culminaria na realização do seu sonho: um mundo diferente, belo, seja em estética ou em justiça. Um mundo brilhante e infinito





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