Regras

O mundo tem regras. Por exemplo: eu sempre estou escrevendo. Se não aqui, em outro lugar. É uma regra pessoal minha – quase tão inexorável quanto a Regra dos Nomes, mas essa fica pra outra ocasião. Jogo de time inglês só dá 1×0, no máximo, 2×0 é goleada. Desde Jobim (não o ministro), começa a chover em março até fechar o verão. A política potiguar é um jogo de zerinho-ou-um entre meia dúzia de famílias amigas – e tem sido assim por mais de 20 anos, tornando nosso estado mais fraco em alternância de poder que a própria Ditadura.  Quando chove um cadinho, a cidade inunda, estressando todo mundo. Quando chove muito a cidade inunda, para e tira o dia de folga, deixando o povo relax. Quando Lula vai dar uma entrevista, fatalmente vai dizer algo engraçado, independente de ser correto/errado, verdadeiro/falso. Eu sempre espirro três vezes em sequência. Todos os filmes da Marvel tem uma pontinha do Mr. Excelsior, Stan Lee. A solução mais prática pro Shiryu é ficar cego, não importa o problema. Pro povo de DBZ é morrer, pros emos é chorar. São todas verdades universais e *inquestionáveis*.

Regras me interessam, mas provavelmente pelos motivos errados. Alunos de Direito tendem a se interessar por leis – regras em sua forma mais óbvia. Regras destas que estabelecem o padrão de comportamento de todos nós através da coerção: não mate ninguém, não profane túmulos, não altere bancos de dados públicos, são todas regras. São todas chatas. Pelos exemplos que eu dei no começo fica claro que eu prefiro as regras não escritas da casualidade cotidiana. Probabilidades, Lógica. Estatística. Daquelas que nascem pedindo pra morrer, feito o tabu: é só enunciar que ele começa a encontrar seu fim. Como não são fruto de vontade superior – até que se prove, pelo menos – estas regras podem se formar e serem vencidas ao léu, sem garantias a ninguém. Nos casos mais espalhafatosos fica extremamente fácil se abandonar as premissas: dizer que não vai rolar mesmo. Não é todo dia que o São Paulo vai meter 5×2 no Corinthians, tá certo. Ainda bem, seria um tédio e uma hora a gente cansava de tanta piada. Mas a regra do 1×0 inglês é muito forte e frequente, e bem mais difícil de ser derrubada.

Essas regras, que não são imposições – só se for do Éter misterioso – de vontade soberana, só são coercitivas pelo infinito do acaso. São temperamentais e instáveis. E é bom que saibamos exatamente a dimensão disso. Saber que há chances em tudo e tudo pode dar errado. Que nada é garantido, nem nossos comportamentos mais fundamentais ou nossas crenças mais arraigadas. Tudo pode mudar um dia, já que a a mudança é o status mais comum na natureza. Regras – leis, costumes ou estatísticas – são uma tentativa de congelar o presente em uma fotografia com o propósito de mostrá-la ao futuro como uma boa sugestão.
Mas serão sempre passado esperando contraponto. Sempre, e essa é a regra do próprio futuro.

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