Ao visualizar pela primeira vez o trabalho de Noriyoshi Ohrai feito para a promoção do Retorno do Jedi no Japão, George Lucas certamente chorou. Se não chorou, foi devido ao fato de que o ser mais próximo de um deus a caminhar atualmente no planeta terra simplesmente não concebe a sua real condição.
Líderes inspiram. Não-líderes seguem os que os inspiram, e isso é perfeitamente humano. Sob a visão dos formadores de opinião que toda a sociedade anda com seus passos lentos, seja no ocidente ou oriente, cristandade ou mundo muçulmano, xintoista, ateísta ou o que for. Vários homens se mostraram especialmente habilidosos nessa tarefa: dirigir espíritos e vontades aos destinos mais distantes, de Alexandre, que venceu Gaugamela e quase conquistou a ásia, a John Kennedy que nos convenceu que deveríamos ir para a lua não por ser mais fácil, mas por ser mais difícil.
São homens grandes, e terão sempre seu lugar na história. Mas não se comparam a George Lucas. Nem a J. R. R. Tolkien. C. S. Lewis. Shakespeare. Enquanto aqueles lideraram no nosso esforço de guerra – também chamado atualmente de jornada de trabalho – cotidiano, na política e nos rumos da nossa sociedade, os outros reinaram onde não há herdeiros imperiais, presidentes ou tiranos. Onde ninguém pode ser eleito, só aclamado. O imaginário popular. Se você duvida da potência do legado desses senhores, empenhe algum tempo procurando pela internet materiais produzidos por fãs. Vai encontrar filmes, livros, mundos criados simplesmente da inspiração de algumas palavras. O processo dessa criação popular – em que o imaginário popular suplementa uma visão “sugerida” por um autor – ocorre de tal forma que em pouco tempo o Criador passa a ser sumo-sacerdote de um credo, ao passo que dúzias de fontes reverberam novas interpretações e novas histórias esclarecendo ou enriquecendo o mesmo mundo. Entre apócrifos e oficiais, a nova bíblia possui em seus genes a herança do sonho coletivo. Nós sonhamos juntos, e por isso existe. Nossa projeção não pode ser limitada: pergunte a George Lucas quem atira primeiro e ele vai te dizer que mesmo tendo criado o mundo e seus personagens, já não sabe mais.
George não é nada perto de brilhante – ao contrário de Tolkien, que era genial pra dizer o mínimo – e isso ninguém contesta. Suas cabeçadas e desrespeito pela própria obra o tornaram lendário. Mas foi a sua imaginação que moldou uma imensa parte da cultura popular contemporânea, difícil até de precisar. Foi a sua história de um garoto que se deixou levar pelo seu lado mau e sua tragédia espacial que semeou tantos frutos. Ao ver essa pintura George Lucas deve se dar conta da excelência estética que seu sonho assumiu sob o domínio de outras pessoas, que o seu mundo adquiriu uma riqueza indelével na história da humanidade, que sua marca será lembrada não só como um incômodo adolescente, mas como arte e contribuição genuina pra construção cultural que é nossa sociedade. Nesse ponto, George deveria ter vislumbrado o tamanho da sua criação e chorado em gratidão. Se não o fez, foi por se achar pequeno e querer ser ainda maior, até atingir esse limite da razão e satisfação pessoal. De qualquer forma, ele não presta contas a ninguém, caminhando em seu Rancho Skywalker, resmungando coisas cotidianas e brincando de desenhar mais detalhes de um mundo já praticamente ilimitado.






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