Arquivo para Dezembro, 2008

Pássaros

Existia, em algum lugar do pacífico, provavelmente perto da Micronésia, ou Polinésia, ou mesmo perto do Japão, uma ilha muito peculiar. De todas as ilhas peculiares esta não guardava semelhança alguma, possuia uma característica singular que a destacava das demais: era habitada somente por pássaros. E quando se fala habitada deve se tomar no mais lato dos sensos, posto que não havia, nessa ilha, qualquer outro animal ou sequer vegetação. Na ilha nada florescia, só os benditos pássaros. O fenômeno curioso foi identificado ainda à época da célebre viagem de Charles Darwin com seu um pouco menos lendário Beagle, mas fora devidamente eclipsada pela descoberta de Galápagos. Enquanto aquela era um ecossistema riquíssimo, uma espécie de circo dos horrores biogenéticos, essa pequena ilha era somente um deserto com o acaso dos pássaros. A primeira dúvida que surge dessa análise empírica – que havia pássaros de fato naquela localidade – é extremamente prática: como assim? Eles podem ter vindo voando, é verdade, mas o que comiam? Do que viviam? Como chegaram lá? Como assim? Ocorre que a simples chegada do homem de certa forma maculou seu ambiente de pesquisa: pouco depois dos navegadores europeus aportarem na ilha os pássarmos começaram a rarear, até finalmente sumir. Questiona-se para onde eles foram, mas tudo o que é sabido é que se danaram a seguir rumo ao poente, e não forma mais vistos. Simbolicamente, parecia que as aves do paraíso renunciaram a seu reino lendário diante da desecração humana. Nossos costumes, nossa vida. Na verdade, não é o caso de se culpar os costumes, pouco importava: o mero fato de existirmos naquele rincão tão poderoso – misteriosamente poderoso, frise-se – já bastou para que aqueles pássaros começassem a debandar. O acervo bibliográfico da base de pesquisa na vizinhança destacou o fenômeno pouco usual dessa migração sui generis. Diante de uma situação tão singular, não havia outra alternativa: monitorar os pássaros com alguma inveja, já que esses haviam descoberto uma espécie de rota de fuga, um caminho que os levava ao infinito, além da mente humana. Para muitos de nós os pássaros eram os deuses que nos levariam para casa. Para mim, sempre foram uma ilusão. Os pássaros se foram completamente, nosso Estado nada apurou sobre a questão. Diz-se que não existiu tal agrupamento de pássaros em uma ílha mínima. Na contenda entre realidade e abstração, os pássaros assumiram o risco de abandonar a existência e transformarem-se  no mítico. Os passaros se vão e só restamos nós, e não sabemos exatamente o que fazer com isso.

Da ausencia das musas

Repasso adiante uma reflexao interessante, retirado daqui:

da ausência das musas

A musa da minha adolescência foi Lidia Brondi, de quem já falei aqui. Mas depois que ela abandonou a carreira artística (provando que tinha mesmo vocação para musa) fiquei órfão de mulheres com algo a mais. Não falo de minhas namoradas, que foram e sempre serão musas eternas. Falo das musas geracionais. Onde estão? Para onde foram?
Quando assisti Benjamin pela primeira vez, vibrei: Cleo Pires prometia preencher o vazio deixado pelas grandes musas. Tinha o ar blasé e a sensualidade que faltava a todas as outras. Mas depois deixou de desprezar os holofotes, aceitou o convite para a novela das oito e se rendeu à fama e ao falso glamour. Seu crime: ter perdido o ar melancólico carregado de mistério e promessas sexuais. Não pode ser musa quem faz propaganda de celular, ora essa.
Musas estão em falta. Diante do festival de mulheres gostosas e perfeitas que pululam na mídia e na publicidade, as musas ficaram ofuscadas. O charme deu espaço ao fio-dental. E não se mede mais a beleza de uma mulher pelo olhar oblíquo e dissimulado que pode conter seus olhos de ressaca.
Minhas musas tinham olheiras de quem passa madrugadas escrevendo ou fazendo amor. As beldades de hoje são monumentos talhados nas academias de ginástica e despertam em nós os instintos mais primitivos (gracias Bob Jeff). Mas, antíteses da musa que são, têm a profundidade de um aquário.
E, porque são fúteis e nunca ficam tristes, não podem ser musas. Porque as musas não são apenas bonitas, mas possuem um certo encanto que não está apenas no plano do visível. A musa pode até ser uma assassina, mas nunca poderá ser apática ou ter a temperatura do chá que é servido na ABL. Ela tem de ter lábios e olhos quentes, ainda que o coração seja frio como um filme de Godard.
Musas devem ter, por exemplo, um jeito de olhar como o da soprano russa Anna Netrebko (essa beleza da foto acima). Não entendo porra nenhuma de canto lírico. Não importa. Deixe a ópera para lá diante dessas fotos.

Em um mundo sem musas, ainda há ilusoes? Em um mundo sem ilusoes, ainda há o real?

Sobre a liberdade

“Não sabia que a liberdade não é uma recompensa, nem uma condecoração que se comemora com champagne. Nem, aliás, um presente, uma caixa de chocolates de dar água na boca. Oh, não, é um encargo, pelo contrário, e uma corrida de fundo, bem solitária, bem extenuante. Nada de champagne, nada de amigos que ergam sua taça, olhando-nos com ternura. Sozinhos numa sala sombria, sozinhos no banco dos réus, perante os juízes, e sozinhos para decidir, perante nós mesmos ou perante o julgamento dos outros. No final de toda liberdade, há uma sentença. É por isso que a liberdade é um fardo pesado, sobretudo quando se está com febre, cansado ou sem amor.”
– Albert Camus

Ele sempre está certo.