Arquivo para Janeiro, 2009

Sobre pinguins e guarda-chuvas

Pedro Doria colocou em seu blog um conto curioso, atribuído a Jonathan Goldenstein, pra começar bem o ano:

Muito antes de se mudar para Gotham City, antes de ficar gordo, obsessivo, o sádico no qual se tornou em seus últimos anos, o Pingüim era um poeta grã-fino que morava em Londres. Ele escrevia contos complexos e dava excelentes festas nas quais ia ficando cada vez mais encantador conforme bebia. Usava um monóculo, cartola e carregava sempre um guarda-chuvas.

Uma noite, em uma de suas festas, após horas de muito absinto, o Pingüim correu para o terraço de seu prédio, abriu seu grande guarda-chuvas, e lançou-se no ar. Conforme flutuava rumo ao chão, recitava versos de Blake; falava de agarrar sua vida pelas tripas do estômago para então poder virá-la ao avesso. Era um louco. E estava cheio de vida.

Desde aquela noite, ele tomou por hábito pular de prédios cada vez mais altos com seu guarda-chuvas. E com o tempo foi ficando bom nisso. Aprendeu, por exemplo, que se balançasse os pés e contorcesse as costas, poderia prolongar o vôo enquanto fazia piruetas por vários e vários minutos.

Foi após alguns meses que o Pingüim começou a ouvir de outra entusiasta. Ela também, lhe disseram, era vista flutuando por Londres pendurada num guarda-chuvas. Em todo lugar ao qual ia ele ouvia dela, de como era inacreditável que nunca tivessem sido apresentados. Então, por fim, alguém que conhecia a ambos decidiu dar uma festa para que se conhecessem. No dia, o Pingüim chegou à sala do anfitrião, viu Mary Poppins sentada ao divã, ergueu sua cartola e inclinou-se com elegância – era assim seu estilo, naquele tempo.

Ele havia preparado algumas coisas para fazer, outras para falar, quando se encontrasse com Mary Poppins. Ele pensou em levantar seu guarda-chuvas e desafiá-la a um duelo. E então ela levantaria o dela, que talvez fosse rosa, e entrariam num embate sala afora, derrubando móveis, talvez até levantando um vento, ofegantes, nariz tocando nariz.

Mas aconteceu de o Pingüim ficar nervoso, muito quieto, tímido até. Sua cartola repentinamente pareceu desengonçada à cabeça. Seu monóculo, sentiu-o pequeno demais em seu rosto, e o aperto que ele imprimia para manter a peça no lugar começou a dar-lhe uma dor de cabeça. Pela primeira vez em sua vida, o Pingüim se sentiu ridículo.

‘Imagino que os dois tenham uma quantidade infinita de assuntos sobre os quais conversar’, disse o anfitrião, conforme os sentava um ao lado do outro à mesa de jantar.

O Pingüim fez um sim inseguro. E após três ou quatro minutos, ficou evidente que nem ele, nem Mary Poppins, tinham qualquer assunto em comum que não o de vôos de guarda-chuvas; o se emaranhar em árvores, as dores nos ombros, o medo de que um pé-de-vento os virasse.

Todos à mesa observavam a ambos sem conversar, o que fez de toda situação ainda mais desconfortável.

Na tentativa de levar a conversa adiante, Mary Poppins perguntou ao Pingüim se ele gostava de cantar. ‘Apenas quando bêbado’, ele respondeu.

Então ela perguntou se ele gostava de crianças.

‘Sim’, ele disse, ‘crianças ao vinho.’

O Pingüim perguntou a Mary Poppins, na seqüência o que ela fazia para que as pessoas não vissem por debaixo de sua saia. Ela sorriu educada e virou-se para o homem à esquerda, perguntando-lhe se a comida estava boa.

O homem à esquerda vestia uma capa aristocrática. Mary, um quê altinha por conta do xerez, observou que se ele espalhasse a capa talvez pudesse deslizar pelo ar como um morcego. O homem à esquerda sorriu simpático e sugeriu que após o jantar, talvez, pudessem ir ao terraço para tentar. E assim o fizeram.

Inferno de luz

Quando o sol se descortinou, o inferno se revelou vertical. A sombra sob a copa de uma árvore estava a alguns centímetros, ou mesmo milímetros, da luminosidade incandescente que alimentava a grama, tostava a areia e ressecava tudo e qualquer criatura composta de carbono e água que se atrevesse a aparecer. O sol era o Hades, e a sombra, o Elísio. Sua posição horizontal discernia seu estado de espírito, sua condição física e mesmo seus sonhos. Na sombra, uma rede, praia, água de coco. No sol, a sombra. Mas o inferno estava lá, como se empilhasse camadas e camadas de fogo e enxofre sobre as costas de quem desafiasse o diabo. Invisível, como sempre em sua eterna desídia, o demônio pesava sobre os ombros humanos seus cascos podres – ou garras retorcidas, como preferir – e sibilava com sua língua bífida mentiras deslavadas – ou verdades inconvenientes, talvez – nas mentes dos fracos. Entre hordas iluminadas e transeuntes atordoados estava um jovem, no sentido mais intrínseco da palavra. Recém-adulto, pós-adolescente, naquele intermezzo que separa a experiência da curiosidade. Calças jeans, camiseta branca, cabelos desgrenhados e um heróico par de óculos escuros. Todo o seu corpo transpirava e ardia na brasa causticante, menos os olhos, protegidos e serenos, em espera. O rapaz aguardava no sol. Ao seu lado havia duas cadeiras protegidas da ira solar. Uma estava ocupada por uma senhora idosa, quase centenária, e a outra estava temporariamente vazia. Seria ocupada em breve, assim que o senhor, aparentemente marido da senhora idosa, se desse conta da sua idade e desistisse de tentar ficar em pé, torturando seu corpo desgastado. O rapaz, que estava sentado, se ergueu como cortesia, antes mesmo de ser requisitado, sob negativas veementes do casal: isso não seria necessário. Viver não é necessário, nem por isso deixamos de achar certo viver. Tomar sol é bom mesmo, faz bem à saúde. Partes do nosso corpo se ativam quando nos colocamos sob o sol, partes que nós sequer lembramos. Escondidos em cavernas, satisfeitos em nossas comodidades de home delivery, é bom notar, às vezes, que parte da nossa verve está presa ao sol. Ao inferno, ao diabo, que nos maltrata mas nos dá fôlego e nos faz germinar. Assim nos completamos. Não faltava mais muito tempo pro ônibus chegar. Era naquela época em que já tínhamos aposentado relógios, de pulso ou de bolso, e usávamos celulares como relógio, guardados nos bolsos, para saber o tamanho do nosso atraso ou da nossa ansiedade. O garoto já tinha olhado o relógio-celular trocentas vezes em um nervosismo visível. O mostrador digital não possuia mais os ponteiros e o tique taque, mas trazia uma batida implícita nos segundos, acentuada pelo calor e o rigor imposto pelo sol. Tique, taque, tique, taque, gotas de suor e o mormaço claustrofóbico do sol inclemente eram enervantes. Após duas dúzias de consultas ao relógio, surgiu a dúvida: seria aquele mesmo o horário acertado? Dentro do bolso traseiro da calça estava uma carta amarrotada pelo uso excessivo, que continha um horário circulado em uma caneta vermelha. Aquela era a hora mesmo, aquele era o dia. O dia do encontro, afinal. A carta era breve, mas bem escrita e, acima de tudo, visceral. Desabafos, inseguranças, medos e desejos, todos agrupados formando uma imagem clara e lúcida de simpatia, alguém com os mesmos dissabores e esperanças, do outro lado da distância geográfica, numa sinergia de espíritos. Tudo estava certo com linhas certas, assim como a hora era perfeita, no meio da tarde lacinante de verão, com o sol ameaçando devorar tudo e todos que demonstrassem o mínimo de fraqueza. Naquele dia ele mostrou sua força e se apresentou diante da possibilidade do futuro. Mostrou a verdadeira vitória, entrentou não só o calor, o sol, mas a incerteza, a utopia, a ilusão, a covardia, a paranóia, a solidão. Todos em um só movimento, corajoso. Em uma de suas mãos, uma rosa, já ressecada, balançava nervosamente. As gotas de água borrifadas pelo florista já não passavam de lembrança distante do conforto. O casal de idosos sorriu ao ver a flor. “Bonito, não se vê mais dessas coisas hoje em dia, os jovens não tem mais amor, só volúpia”. O comentário lhe escapou, pois naquele instante um ônibus infinitamente imaginado apareceu em uma trajetória infinitamente prevista, da forma que sua criatividade já tinha antevisto e ensaiado centenas de vezes, por todos aqueles minutos infinitos. Ele se arrumou timidamente, e abriu um sorriso imenso, do tamanho do universo inteiro, repleto de satisfação. Manteve o sorriso enquanto viu cada passageiro do ônibus descer, um por um, menos aquela que ele desejava mais. Ao final da lenta procissão, perguntou ao motorista se não havia mais passageiros, recebendo resposta negativa. Virou-se, entregou a rosa ao casal sentado ao seu lado, e partiu nos braços do sol infernal, com olhos protegidos na escuridão, longe da luz maligna e zombeteira. Naquela tarde, as sombras não foram capazes de esconder o que estava à vista de todos, até as estrelas, sobre o homem só impera o peso ingrato, indócil, do mundo que poderia – e talvez até deveria – ser diferente.

“Sete coisas que iniciam meu ano” – ou, o retrato da noite de sexta

Como disse certa vez Fernando Pessoa, “a Internet vive de memes”. Se o poeta lusitano tem razão, quem sou eu para discordar. Se não temeu não tenho nada mais construtivo pra fazer mesmo. Seguindo o rastro colorido (hmmm) de Tati e Amanda, entro no jogo dos Sete. A regra é clara, Galvão, são sete coisas em cada categoria, se você não entendeu pode procurar um especialista em atraso cognitivo. Então, curioso para saber se ainda tenho leitores depois de meses de atualizações aleatórias, LEEEET THE GAAAAMES BEGIN!

1. Sete coisas que faço bem:

Be cool

Be cool

* encher cumbucas de gelo,

* escrever,

*esquecer (só coisas que eu não devia),

* teorizar sobre modelagem,

* enxergar padrões nas coisas e pessoas – e.g. generalizar,

* sustentar posicionamentos contraditórios por esporte,

* achar coisas absurdas na internet.

2. Sete coisas que não faço e não sei fazer:

Esse sou eu. Ou era.

Esse sou eu. Ou era.

* me vestir conforme a moda cristã-ocidental reacionária conservadora, (ou seja, me visto mal pra cacete)

* dar conta da vida alheia,

* puxar conversa com desconhecidas,

* desenhar,

* contar piadas,

* assobiar,

* jogar FPS.

3. Sete coisas que me atraem no sexo oposto:

*.*

*.*

* beleza cotidiana e o mais natural possível (mantenham o plástico nas suas barbies :P ),

* sorriso,

* aroma,

* voz melodiosa,

* nerdisse,

* inteligência e sagacidade – com bom timing de comédia, por favor,

* genes potencialmentes melhores que os meus.

4. Sete coisas que digo com frequência:

Told you.

Told you.

* É a idade, chega pra todo mundo.

* Bizarro…

* Santa delicadeza, Batman.

* Discreto como um bando de trolls dançando Riverdance num teto de zinco

* Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

* Tudo, menos cearense.

* HOLY COW!

* :P

5. Sete atores/atrizes que eu gosto:

Will you marry me?

Will you marry me?

* Christian Bale

* Hugh Laurie

* Harrison Ford

* Anne Hathaway

* Tina Fey

* Angelina Jolie

* Scarlett Johansson

6. Sete atores/atrizes que eu detesto:

- Então, você vai ali e fica com cara de bunda

- Então, você vem, para e fica com cara de bunda

* HAYDEN CHRISTENSEN, ROT IN HELL.

* Mark Wahlberg e sua cara enrugada,

* Boys Maromba em geral,

* Coelhinhas da Playboy em geral,

* Rappers em geral,

* RODRIGO SANTORO, ROT IN HELL.

* HAYDEN CHRISTENSEN, ROT IN HELL.

7. Sete filmes que eu adoro:

Evry prayers accepted, evry wishes resigned

Ev'ry prayers accepted, ev'ry wishes resigned

*Before Sunrise/Before Sunset

* Dead Poets Society

* Big Fish

* Waking Life

* Eternal Sunshine of a Spotless Mind

* Blade Runner

*MONTY PYTHON AND THE HOLY GRAIL

8. Sete bandas/artistas que eu adoro, nesse momento:

Meus cabelos, quanta diferença...

Meus cabelos, quanta diferença...

* MUSE,

* Snow Patrol,

* Dire Straits,

* Marisa Monte,

* Michael Jackson,

* Franz Ferdinand,

* Jamiroquai.

9.Sete livros favoritos:

Ah, a alegria...

Ah, a alegria...

* Apanhador no Campo de Centeio,

* A Insustentável Leveza do Ser,

* O Senhor dos Anéis,

* O Mundo assombrado pelos Demônios,

* Dilbert – The Joy of work,

* Cem anos de Solidão,

* A Peste.

10. Sete constatações inúteis:

Agente somos inútel

Agente somos inútel

* Listas podem ser EXTREMAMENTE demoradas.

* Nunca li Machado de Assis e não me envergonho disso.

* Mulheres são imprevisíveis.

* HQs deveriam ser contabilizadas cientificamente como literatura.

* Um outro projeto de Mestrado é posssível.

* Você já leu algo que eu escrevi? Dizem que é legal (autopromoção mode #on).

* Um dos meus textos favoritos vai virar uma graphic novel e ninguém mais sabe(ia) disso.

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Após sete horas, consegui elaborar as listas, e, assim como Holly Fogaça, não tenho amigos da internet pra repassar pragas. por enquanto. Ano que vem, quem sabe. Talvez no próximo meme. Talvez no próximo ano. Acabamos com isso ano que vem. Ou Sábado à noite, se não houver nada melhor para fazer :P