Arquivo para Abril, 2009

Sobre Hegel e o Batman

Na Filosofia da História de Hegel ele discorre sobre os vários tipos de historiador, de relator da História. Há aquele que participa diretamente do momento histórico, há o que analisa a questão fora de seu tempo e há o que observa a razão filosófica – nos termos de Hegel, o caminhar do Espírito. Neil Gaiman comenta algo parecido, ao falar da importância de sua obra e do seu papel como escritor da derradeira edição da história do Vigilante de Gotham:

But to your question, people used talk to me about The Sandman back when I was writing it, and my answer was that I was too close to it to know what I was doing and feeling. Decades later, I could look back and go, “Whoa, we did it!”

I remember George Harrison complaining that he had no idea what The Beatles meant to the ’60s. So the truth is, I have no idea. I look at it and say, “Andy did me proud,” but I do wonder if they’ll think I went mad at the end. Whether it works or not, I don’t know or care, but it makes me very happy. I know that if Batman ever reads it, he will know that he was my first love.

A análise da história (e História) com certeza demanda alguma isenção, algum afastamento. Mas mesmo além do exame racional, há um conteúdo passional, emotivo esperançoso. Paixão pelas sensações do momento, e esperança que elas fiquem, como uma tatuagem, impregnadas, indeléveis. Alguns filmes, momentos, sentimentos, envelhecem bem, adquirindo novos sabores e tonalidades à distância. E, mesmo ao final da curva, ainda podemos olhar de soslaio e reconhecer nossos primeiros amores. E isso é muito legal.

Worst Intersections in America

O barulho do trânsito, ao contrário do que acontece com a maioria das pessoas, me relaxa. Não sei se é a irregularidade, o inesperado, os berros estridentes das buzinas intermitentes, os motores de diversas potências, regulados ou não, que desorganizam uma faixa sonora pintando uma impressão vívida do caos nos tímpanos humanos. Esse caos me seduz. Gosto de observar o fluxo das pessoas em vários horários. Já sentei com uma cadeira de praia – essas são as mais confortáveis, pode confiar – ao lado de uma estrada numa segunda-feira pela manhã, para ver as pessoas se arrastarem de volta ao trabalho. Às sextas elas escorregam, deslizam para o conforto dos seus lares. Menos quando é antes de um feriadão, aí elas rasgam, esguicham, irrompem pra casa. Ou pra onde quer que elas queiram ir, afinal. Todo mundo está sempre em trânsito, em curso. Continue lendo ‘Worst Intersections in America’

Sobre a terra e o céu

O site da revista The American Scholar traz um artigo que serve de alerta contra os perigos da educação de elite, aquela educação de alto nível e reputação exemplar. Não trata-se de uma insurreição contra as classes mais abastadas. Trata-se, simplesmente, de um reconhecimento que o conhecimento científico ou filosófico não é superior nem autosuficiente. Há um mundo lá fora. Um mundo que a Academia não pode ignorar.

One of the great errors of an elite education, then, is that it teaches you to think that measures of intelligence and academic achievement are measures of value in some moral or metaphysical sense. But they’re not. Graduates of elite schools are not more valuable than stupid people, or talentless people, or even lazy people. Their pain does not hurt more. Their souls do not weigh more. If I were religious, I would say, God does not love them more.

O narcisismo intelectual não está mais à espreita, ele já nos silenciou.

Sobre mitos e homens

A mitologia sempre existiu, quando e aonde existiu, como bússola moral. Os mitos mais que contos da carochinha, são nosso horizonte, pra onde olhamos quando buscamos soluções e são fruto daquilo que nós nos acostumamos a achar correto. É por isso que nossos heróis simbolizam o melhor de nós, eles incorporam os atributos mais valiosos para uma cultura. De certa forma, somos nós que tornamos os deuses divinos. Continue lendo ‘Sobre mitos e homens’