Sobre todos os dragões

Aqui ou lá

Aqui ou lá

Hoje tivemos uma noticia boa e má. Ganhamos um sofá. Boa porque, afinal, ganhamos um sofá. Má porque, afinal, tínhamos de ir pegar o sofá e trazê-lo pra casa. Sofás podem ser pesados. Sofás podem não caber no elevador. Sofás podem não caber no carro. Resultado: sofá nas costas, nas escadas, nas ruas e na madrugada. O sofá agora está na sala, e eu me pergunto o que falta para nós. Temos uma mesa ligeiramente grande demais, uma TV certamente exagerada (obtusa e não exatamente nova), alguns armários antigos e pouco práticos, com um conjunto de decoração oitentista, ou setentista, sessentista, expressionista, cubista, não importa.  Esses móveis ajudam a transformar o apartamento em algo mais próximo com uma casa. Eu tenho um plano, que quero fazer pra consolidar a minha imagem de lar. Penso em por uma placa: “HIC SVNT DRACONES”, que quer dizer, a grosso modo, “Daqui em diante há dragões.” É uma marcação comum em mapas antigos, geralmente nas bordas, alertando sobre terras selvagens e o fim do mundo. Queria colocar um anúncio como aquele nos umbrais do Oráculo de delfos (“Conhece-te a ti mesmo”) ou mesmo a porta do Inferno da Divina Comédia (“Abandonai toda a esperança, vós que entrais”). Meu dilema é: devo colocar o alerta na porta do lado de dentro ou do lado de fora?

Dragões são uma das figuras mitológicas mais interessantes do mundo. Existem em várias culturas, até na bíblia, desde muito antes do ser humano saber o que eram dinossauros. Répteis gigantes não são tão fáceis de visualizar como mamíferos. Enquanto há mamíferos de grande porte, são raros os répteis que ultrapassam tamanhos pequenos. Ainda assim existe essa noção, de poderosos lagartos gigantes como nossos monstros primordiais. Os dragões europeus são aqueles que acumulam riqueza em uma caverna e que devem ser derrotados pelos campeões do reino. Os asiáticos são bem diferentes, são sábios, e trazem consigo mágica e sabedoria. Mas os dragões são, assim como a maioria dos monstros, um símbolo do desconhecido que extrapola nossa razão.

Qual a relação que eu devo ter com o desconhecido? Terror? Respeito? Encantamento?

Então fica minha dúvida: onde está o verdadeiro desconhecido? Lá fora, nas esquinas e ladeiras da cidade, ou nos corações destes que aqui habitam? O coração das trevas, nos termos de Joseph Conrad, se manifesta nos corações dos homens que vivem em sociedade, agindo egoísticamente em uma relação de conflitos e poder? Ou no indivíduo abjeto, misterioso, que funciona seguindo preceitos morais próprios, a despeito da opinião alheia. Quem amedronta mais, a coletividade ou o coração do homem só?

Voltando ao meu dilema: onde colocar a placa? O que devo temer mais, o universo lá fora ou o mistério da minha alma? Já decidi. Vou encomendar duas placas, e todos saberão que estamos em um mundo dominado por dragões, todos, em todos os lugares, sempre.

3 Respostas para “Sobre todos os dragões”


  1. 1 amandafg Maio 16, 2009 às 12:55 pm

    Hum. Assim dá até vontade de mudar a frase da minha tatuagem….

  2. 2 amandafg Maio 16, 2009 às 12:55 pm

    ah, isso foi um elogio :)

  3. 3 Agatha Maio 16, 2009 às 1:06 pm

    Eu diria que o verdadeiro desconhecido pode estar até dentro de nós, haha. Não sei, mas o mistério das almas pode ser tão complexo quanto o universo, quem sabe.

    Bom descobrir o que era sua mensagem pessoal no msn, preciso estudar latim ou ter uma noção básica disso para saciar algumas indagações minhas ;P


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