Arquivo para Agosto, 2009

Gravidade

A primeira foi uma senhora de meia-idade, recém-viúva, que aguardava pacientemente que a atendente no mercado lhe fatiasse um pedaço considerável de presunto, para preparar sanduíches para as vizinhas, de quem ela francamente nunca gostou muito, mas que eram suas únicas companhias desde que toda a família tinha se mudado para o interior. Após semanas sem contato algum da família, ela, que tinha casado jovem, encontrou-se numa situação singular de descrédito e distração. Nada parecia fazer diferença, não havia quaisquer obrigações, nem necessidade de trabalhar. A pensão do finado cobria todos seus gastos. Em poucos meses decorou todas as vitrines da cidade. Só lhe restou o presunto em uma reunião enfadonha. E assim ela foi a primeira a subir.

O segundo foi um garoto franzino, naquela fase indecisa da pós-infância e pré-juventude. Ainda vestia um uniforme de futebol sujo de barro e grama, e ofegava violentamente quando se meteu dentro do quartinho dos fundos de casa. Sentou num canto entre uma cadeira de praia e uma estante velha de livros de gosto duvidoso, daqueles que você guarda mas não tem coragem de exibir na sala de estar. Seus punhos ainda doíam e ardiam em uma sensação de dormência típica de quando o corpo é usado para o qual não fora projetado. No treino na escola um garoto fez graça de seu porte físico, e o resto seguiu a inspiração jocosa do comediante. Como crianças – nessas horas não passam disso, crianças – podem ser más. Tomado pela fúria o jovem-garoto se engalfinhou ferozmente com seu oponente, diante dos risos empolgados de uma platéia sedenta pela decadência, pelo vexatória. Sedenta por imperfeição e fraqueza. Naquele dia o garoto-jovem socou titãs, anjos e deuses, possuído pela vontade sincera de ser deixado em paz, simplesmente e somente isso. Mas, poucas horas após ser trazido para casa por seu pai, inconsolável e destruído pela vergonha, aquele doce rebento também encontrou seu caminho de elevação.

A terceira foi uma bela garota com olhos profundos, cabelos mais claros que a praia e mais escuros que o sol, que descobriu, como todos descobrem em algum momento, que amar alguém é correr riscos. E o preço do risco que dá errado é a dor, lacinante e irracional, psicológica e inequívoca, onipresente e sedativa, da existência incompleta. Após se apaixonar por um jovem interessante, e ter acreditado que algo era possível, se descobriu sozinha, simplesmente assim. Não importa o motivo. Ele nunca importa. O que importa é o rombo, o esfacelamento, os cacos que sobram que não conseguem montar um quebra-cabeça. Falta uma peça-chave, um coração que una tudo em um retrato harmônico e sensível de vida pensante. Como se satisfazer com um corpo, quando pode-se ter um coração? A moça perdeu o coração e a esperança, e tinha estado, por semanas, em uma catatonia absorta. Como assim? Mas naquele dia, ela fechou os olhos e pensou em outro mundo maior, melhor, e sem dor. E, ao imaginar as nuvens roçando sua pele com a maciez do vento da manhã, lentamente começou a flutuar. Imaginou um amor perfeito, compreensível, atencioso, e, antes de mais nada, que não a deixasse jamais. Aquele deveria ser o mundo real, o mundo em que a felicidade fosse possível e concreta, onde poderíamos ser tudo o que estivemos destinados esse tempo todo.

Assim, um por um, a cidade toda se desvencilhou do solo. As pessoas não esboçavam reação, só sentiam o mundo lhes escapar das suas mãos e dos seus pés. O mundo lhes fugia, não era mais corpóreo, simplesmente não estava mais lá. O mundo as deixou sós, cada uma isolada em si, todas em uma constelação de estrelas opacas, que, como na noite prateada, brilham num silêncio ensurdecedor uma sensação de vazio. Cada criança, homem ou mulher, um por um, perdeu seu contato com o chão. Parecia que a terra não era mais de ninguém, todos os seus passageiros resolveram mudar de condução para uma condução de condição mais agradável. Um a um, cada um aceitou seu destino e cansou de lutar. E no dia do armistício a cidade subiu aos céus, sem qualquer gravidade, além da tristeza no coração de todas as almas perdidas, antes na terra, agora no espaço.

Avenida Atlântica

Na Avenida Atlântica tudo o que se passa ocorre por um bom motivo, por dois ou três. Na Avenida Atlântica parece que o universo precisa se justificar frequentemente, o que justifica a forma cíclica em que tudo acontece, não uma vez só, mas várias vezes, como que martelando pacientemente o destino na testa de todos.

Na Avenida Atlântica, inclusive, o destino não passa, ele dá uma volta lá longe e você escolhe se vai ficar sentado esperando ele dobrar na esquina com a Coronel Armando ou você corre feito um desesperado pra tentar se encontrar com ele em algum momento. Na Avenida Atlântica o destino nunca, mas nunca te espera. E faz questão de repetir isso, pra que você saiba que ele nunca te espera.

Na Avenida Atlântica há pessoas de todos os tipos. Tem gente velha com medo da morte, arrependida dos fiascos emocionais ou carente de qualquer afeto. Tem gente pequena, muito pequena, que tem medo do escuro da Avenida Atlântica, que ninguém se dá ao trabalho de explicar que não precisa ser escuro se eles fecharem os olhos bem forte e imaginarem o mundo inteiro cheio de luz. Mas ninguém tem tempo hoje em dia de dizer pros pequenos que o medo tem solução. Eles que aprendam, e que aprendam também a ter medo do tempo.

Na Avenida Atlântica o medo do tempo é uma pandemia. Os pais morrem de medo do domingo, que significa o começo de uma semana rancorosa, cheia de um trabalho insuportável e de uma vida burocrática. Os filhos vivem com medo do amanhã, sempre buscando validação e certificação em cada um dos seus atos, procurando alguém que ouça suas histórias e diga: “isso, você tem razão”, ou só “boa escolha”, já tá de bom tamanho. Na Avenida Atlântica os jovens tem terror absoluto pela noção de serem incapazes de voltar no tempo, de girar a terra no sentido oposto e desfazer tudo de ruim e errado que já foi feito, que tolos eles.

Na Avenida Atlântica o tempo não perdoa nem esquece, não nutre nem cresce, mais contamina e despedaça. Na Avenida Atlântica o tempo é uma doença que os muito pequenos também aprendem sozinhos, que ninguém ensina expressamente mas todo mundo deixa subtendido. “O tempo é aquilo que te impede de ser quem você pode ser”, meu anjo, diz o vovô pra netinha com vestidinho verde e sapatinhos com cheiro de glacê. “O tempo é a eterna lembrança, o demônio alado que te persegue enquanto tu corres, carregando consigo o traçado de todos os seus passos, com suas marcas tortas, feias, borradas, desiguais. E quanto mais você corre, mais tortas, feias, borradas e desiguais são essas marcas”, dizia o jovem pastor, com a firmeza da fé inquebrantável que o futuro a todos julgará.

Na Avenida Atlântica, até o tempo é prisioneiro do tempo. É por isso que ele se repete, se revela consecutivamente, de forma incansável. Pra jogar na sua cara infinitas vezes que ele existe, tempo soberano, e você não tem escolha, vai precisar prestar contas. Amanhã você vai lembrar. E vai lembrar porque o tempo precisa ser lembrado. Precisa de companhia pra não ter medo do escuro. Precisa de alguma hipótese heróica em que alguém seja algo que ele não seria jamais, em seu sonho entediante, capaz de ser. O tempo precisa de alguém que o reinvente, ou ele sempre será o mesmo, mórbido, caduco, impotente.

Na Avenida Atlântica vive todo tipo de gente. Gente preocupada com a vida, com o cabelo, com o futebol e com a namorada. Tem gente de olho nos buracos, nas flores, na política e na janela do 302. Na Avenida Atlântica tem gente ocupada o tempo todo com um monte de coisas, o tempo todo pensando no tempo, mas sem pensar muito no destino. Na Avenida Atlântica destino é coisa fraca, não é feito de vontades, é feito de contextos. Na Avenida Atlântica o mundo acontece não por mágica, mas por decreto.

Na Avenida Atlântica volta e meia aparece alguém com uma novidade, uma nova preocupação. Pensar na vida, no octeto vocal, nas pantufas da vizinha cheirosa, no matinho do meio-fio. Mas isso nem dura muito. Na Avenida Atlântica parece que a seriedade das coisas sempre atrai a atenção dos mais sábios, chamando-os a colocar as coisas em prioridade. Primeiro os velhos medos, depois o tempo haverá de se encarregar de nos encher de novos. É assim que se faz e sempre se fez.

O doido que quis mandar no tempo foi expulso a bala. Quem já se viu? Na Avenida Atlântica é assim que se faz e sempre se fez.

Na Avenida Atlântica tudo o que se passa ocorre por um bom motivo, por dois ou três. Na Avenida Atlântica parece que o universo precisa se justificar frequentemente, o que justifica a forma cíclica em que tudo acontece, não uma vez só, mas várias vezes, como que martelando pacientemente o destino na testa de todos.

American Waffle

Olho pacientemente no cardápio procurando algo para tomar café com meu primo e minha tia. Não são muitas opções. Sanduíches, biscuits e um surpreendente waffle belga. A imagem é de um waffle com um formato meio bizarro, uma espécie de círculo com oito pontas, em que a linha do contorno do negócio faz um l, uma voltinha. É algo muito mais fácil de desenhar do que descrever. Em cima disso, uma cereja ou algo fruto de um vermelho psicótico, e, sobre isso, algum creme branco, provavelmente chantilly. Encarei o cardápio com desconfiança. Posso estar enganado, mas que eu me lembre waffles belgas são sempre quadrados, da mesma forma que waffles holandeses são circulares. Lá estava eu, em um McDonald’s Bistro Gourmet (uma espécie de McFashion, com comida mais saudável mas ainda mais fast que food), no meu último dia nos EUA, com uma epifania reveladora: essa é minha experiência na América: coisas artificiais se propondo a serem algo que não são, e eu, me divertindo sozinho, com informações inúteis que ninguém precisa, mas que, talvez, se soubessem, poderiam achar graça junto comigo. Ou não. Mas eu fico calado, além da inevitável risadinha contida. Sigo na fila, e quando chega minha vez, peço o bendito waffle, só de birra. Não que o waffle me devesse nada, não costumo brigar com pessoas, muito menos com alimentos. Mas gostaria, como sempre gosto, de testemunhar o bizarro, mesmo que, como frequentemente ocorre, o bizarro só o parece pra mim. Ou não. Me imaginei chegando na mesa em que estão meu primo e minha tia, rindo, apontando com a faca pro meu waffle. “Vocês viram, eles vendem um waffle piratex como se fosse belga, que engraçado!”. Há grandes chances que eles não achassem nada engraçado, e do jeito que aqueles dias estavam tormentosos, poderiam achar que eu tava sendo simplesmente um imbecil pedante me gabando por já ter comido waffles belgas de verdade. Ou seja, mesmo não brigando com comida, eu arrumaria briga por causa de comida, o que também não faz sentido, especialmente não brigando PELA, mas ACERCA da comida. Isso seria bizarro, ao menos pra mim, que, como já disse, não tenho bons critérios. Então, percebi que a piada era natimorta, e eu me contentaria em enunciá-la silenciosamente na minha cabeça, rir sozinho, e ficar por isso mesmo, como geralmente faço. Ao chegar no guichê, pedi o waffle. Não serviam mais, já tinha começado o horário do almoço, aquele era o cardápio do café. Ah. Putz. Eu não tava com fome o bastante pra comer nada de verdade. Só queria uma enganação qualquer. Matar não a fome de comida, mas de tempo, de ação, de interatividade. Comer como ato social, sem motivação, aproveitando que nem tudo na vida precisa ser racionalmente fundamentado e logicamente sedimentado. Às vezes você pode ser aleatório. O que fica especialmente curioso quando se é aleatório na terra do artificial. Acho que finalmente entendi o formato truncado do waffle. Ou me dei conta da tristeza que é pensar demais.


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