Versos da Tristeza Vã

Bom, vou começar a publicar os Versos da Tristeza Vã, uma série de textinhos que escrevi no meu caderno quando estava sem computador e sem internet, ou só quando queria papel em vez de pixels. Eles não estão em ordem, e tem, cada um, sua história particular. Nem todos são bons, mas são todos meus. Depois eu vou digitando e atualizando esta lista.

Versos da Tristeza Vã
Tempo Perdido
Vitrines
Amor Perdido
Silêncio
Toque
Trenzinho
Vênus
O Bom Poema
Versos da Tristeza Tola

-x-

Versos da Tristeza Vã

Tristeza não pode ter objetivo
Precisa não ter rumo
Não pode dar em nada
Ou não é tristeza, mas sim razão

Tristeza é sensação sufocante
É o quase, o porém, o obstante
O fôlego que existe para viver
mas lhe falta para correr]
É a certeza de que há algo errado

É testemunho sádico de que tudo que é
encerra o que não é]
E que em cada sopro quente hé frio
Que rouba da vida calor e segundos

Mas, se te serve de consolo
A tristeza serve de argumento supremo
Que não há maior negação da existência
Que ser triste

Quem já foi sabe o que é não ser

-x-
Tempo Perdido
O tempo é uma armadilha simples
Pois tempo é sempre gasto, claro
Indiferente se bem ou mal-empregado
Ou se passado refletindo sobre a essência do tempo

Todos temos uma quantidade disponível
Da qual só nos daremos conta no momento final
Até lá só existe o presente, mesmo que
Lento, pesado, vazio, corrido, perdido.

Contra o tempo não há prece ou solução
Há dor, de não poder fazer nada
Contra o tempo
É tudo ilusão

-x-

Lamento do Amor Perdido

Quem nunca perdeu um grande amor
Mente demais, ou não sabe admitir que ama alguém
Ter e perder é dor e fascínio, ciranda de mãos dadas
Mesmo o maior recluso amou ao menos o silêncio

Mas perder um grande amor pode ter dores distintas
Se involuntário, pode nos fazer maldizer o destino
Mas, se fruto dos nossos atos ou escolhas
Nos traz uma dor, no mínimo, paradoxal

Somos quem somos, e por isso somos amados
Se perdemos amor por sermos quem somos
Quem somos afinal?

-x-

Silêncio

Eu poderia pegar o silêncio
E dobrá-lo com as mãos
Fazer dele um origami
E dobraduras de tudo
Que eu queria ter
Ou ser

Fazer um pássaro sereno
Que me observaria lá de cima
Olhando meus passos largos
E as pegadas, folhas e raízes sob meus pés

As árvores eu as moldaria assim imóveis
Testemunhariam meu passeio
Se entreolhariam diante do meu semblante
E me afogariam em suas sombras

E assim eu dobraria o silêncio
Faria dele coelhos, frutas e um lago
Troncos no chão, flores e abelhas
Tudo quieto, me esperando passar

Até que pela primeira vez o pássaro cantasse
As copas farfalhassem e as flores murmurassem
Já que o vento é o movimento chegando
Destruindo o silêncio que dobro dentro de mim

-x-

Toque

Quem nunca esperou um toque
Que atire a primeira pedra
Quem nunca mendigou um sorriso
Torceu por um esbarrão
Encontro de pele
Um abraço inesperado
mesmo daqueles meio de lado
Que atire a primeira pedra

Quem nunca caçou lampejo ou centelha
Dentro dos olhos de alguém, só para
Encontrar vazio, névoa, mistério
Ou não sussurrou ao ouvido suplicando
Teimosamente que aquele rosto se virasse
Pro lado de cá, e lhe sorrisse os olhos
Que atire a primeira pedra

Mas não haverá uma segunda pedra
Você está só, no inferno do medo
Distraído demais para notar que o tremor
Não vem das suas mãos
Mas de mãos que precisam de seu toque
E querem ser suas

-x-
Trenzinho
Era uma vez um trenzinho
Que só vivia só
Marchava dia e noite sobre trilhos
Numa solidão que dava dó

Era uma vez um rapazinho
Que do pó iria ao pó
Roubando e matando para alimentar os filhos
Morreu de tiro nas costas, uma bala só

Era uma vez uma professorinha
Pensando na vida, na fila do banco, de pé
Traía o marido com um homem mais novo
Não era o prazer, era liberdade de escolher quem se é

Era uma vez um pai de família
Cansado, afogado em contas, sentado na sala de estar
Na TV notícias de corrupção num mundo distante
Bruma intangível, incompreensível para quem está do lado de cá

Era uma vez uma divindade asteca
Que existia desde antes do verbo existir
Testemunhando, estupefato, decapitações e extermínios
Sem força para parar, sem coragem de partir

Era uma vez um trenzinho, que só andava só
Para morte há a expiação, para a traição há a verdade
Para a apatia há a revolta, para a escravidão há a liberdade
Mas para o trenzinho só há trilhos
Dia e noite
Sempre só
-x-
Vênus
Nunca vou me esquecer da sensação
Telúrica, seca, escorregadia, de deixar meus
dedos dos pés afundarem na areia
fina e vermelha de Vênus

Ou de quando juntei as mãos em forma
de concha para beber da fonte que
jorrava leite em São Saruê, só
para depois jogar o resto sobre minha cabeça

Não me esquecerei de Atenas e seus
caminhos ladeados por arbustos, ou Atlantis
e seus belos canais. Não me esquecerei da
cachoeira da Valfenda, nem do aroma de
Pasárgada

É impossível esquecer o que nunca se teve
A memória sempre será perfeita
O mundo que não consegue traduzi-la
Eis aí a fonte de toda a tristeza
-x-
O Bom Poema

O poema imperfeito
É perfeito de várias maneiras
Mesmo que tenha rima pobre
Ou lhe falte qualquer atenção às formas

Todo poema vazio
É cheio de conteúdo até transbordar
Mesmo que só fale de banalidades
Mesmo que não tenha nada a acrescentar

Shakespeare poderia ter sido um macaco
E. E. Cummings pode ser lido por qualquer imbecil
O bom poema nunca vai ser engenharia
Está mais perto, como a essência do mundo inteiro
Da troca de olhares, silenciosa, dos amantes.

-x-
Versos da Tristeza Tola

A tristeza é tão tola
Que não se aguenta em si
Não suporta a solidão
Mal nasceu já quer sair por aí

É abusada, fica querendo espaço
De pouco em pouco te empurra
Pra fora da vida]

O fato é que tristeza é doença apaixonada
Com saudade da Alegria
Que também é boba, vá lá
Mas é amor, não se manda embora

Tristeza, Tristeza, vá logo procurar a Alegria
Não perca mais tempo
Se perder pode ser pra sempre
Estar junto, pode ser só por mais um dia.

Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
Esta entrada foi publicada em Persianas. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

4 respostas para Versos da Tristeza Vã

  1. eu amei esse verso é muito lindo esse versos eu quero muito lindos de amor romance de carinho antenção eu amei esse verso eu queria poder mais versos

  2. sarah disse:

    parabens eu gostei muito amo versos e poma . pois quem nunca tem um tenpo para ler um verso ou poema nao sabe o que ta poerdendo. pois quando eu leio linpo minha alma e d +++++++++++ bj ate

  3. Pingback: Os números de 2010 | Riverside Hotel

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s