Wagner Artur
- Prontinho!
- Tem certeza? Checou tudo?
- Sim e sim.
- Explosivo?
- Checado.
- Detonador?
- Arrumadinho.
- Deixa eu checar…
- Mas você não confia em mim mesmo, hein?
- Confiança não é sempre eficiência, já dizia o filósofo.
- Que filósofo?
- Sai do meio!
- Tá bom, tá bom…
- Pronto. Eu acho que com essa quantidade de explosivos, aquele
embaixador safado vai ter o que merece.
- Já passou pela sua brilhante cabeça que esse pacote pode não chegar
nas mãos do embaixador?
- Por alguns milésimos de segundo.
- E..?
(Silêncio de alguns segundos)
- E o quê?
- E se matar algum auxiliar?
- Hmmm… Opa?
- Opa? Você pretende causar uma explosão que provavelmente causará
incidentes diplomáticos e mortes inocentes, e reage com um OPA?
- Não me venha com drama. Você sabe, já dizia o filósofo, cada um recebe
o que merece.
- Esses seus filósofos…
- Algum problema?
- Não, nenhum… peraí… só esse rabisco no pacote… Você usou o
pacote como RASCUNHO?
- Opa…
- Ai ai ai…
- Foi por uma boa causa! Minha namorada ligou, combinando pra irmos ao
cinema, e eu tinha de anotar as sessões em algum lugar, oras bolas!
Terrorista não tem memória de ferro! No máximo espadas!
- Ah não, de novo com aquela história que “Terrorista também é gente”,
“Direitos humanos no terror” e blá blá blá…
- Ei, isso é sério!
- Sério? Qual você acha que vai ser a cara do embaixador ao ler isso?
Olha só… Joanita… cinema… 08:30… Ventos de uma paixão? Estou
quase em coma.
- Porque?
- Pessoas normais não vão a cinemas com pessoas de nomes normais assim,
em horários normais como esse, assistindo filmes mexicanamente normais
como esse.
- Cale-se.
- Calei-me. Mas que é ridículo é.
- Cale-se e vá deixar esse pacote no correio lá fora. Daqui a pouco
passa o carteiro.
(Silêncio. Alguns passos e uma porta aberta e fechada depois, o rapaz
está de volta.)
- E ainda dizem que terroristas são democratas… são é tiranos!
- Ninguém disse que eles eram democratas. Na verdade, uma das raízes do
terrorismo é o extremismo. O que na prática que dizer que alguém
importante, pode fazer os outros passarem por extremos problemas pra
seus extremos desejos de extrema vingança contra a sociedade inimiga
sejam satisfeitos.
(Silêncio por alguns segundos)
- Você vai me matar se eu disser que acho isso injusto?
- De modo algum. Esqueceu que somos colegas?
- Prove.
- Na vez que o Grande Lider tropeçou numa bandeira da Grande Nação do
Mal. Eu não falei nada. Você quase entrou em crise, se segurando pra não
rir. E eu não te delatei.
- De fato. Mas olha só, que ironia! Admita, foi engraçado.
- Como vou saber que você não está na verdade me testando?
- Sei lá.
- Bom argumento.
- Bom. Então como você é meu amigo fiel, posso dizer: Isso é meio
estranho, não?
- Isso o quê?
- Esse negócio de “legião-fatal-do-mal” contra
“guerreiros-imortais-do-bem”
- Nunca tinha visto por esse lado, digamos…. seriado japonês.
- Mas é verdade. apesar que eu nunca vi sequer um inimigo, quanto mais
uma legião, e já vi vários guerreiros amigos nada imortais.
- Melhor pararmos por aqui. Essa discussão não vai a lugar nenhum.
- Você tem razão. Está vendo, somos terroristas, porém conscientes de
nosso bom papel na sociedade, e paz com o próximo.
- Poisé. Se o mundo fosse cheio de terroristas como nós seria, além de
mais justo, mais inteligente.
- Justamente. Devíamos agradecer por sermos espertos e letrados.
(Silêncio)
- Algo me diz que vou me arrepender por ter dito isso.
- Eu também.
(Toca a campainha)
- Vai atender
(Após alguns segundos, ele volta com um pacote rabiscado e algumas
cartas na mão. Ele vai andando pra a mesa da cozinha, onde pega uma
faca, e começa a abir a correspondência)
- O que você tá fazendo? – grita pro amigo que está do outro lado da
casa abrindo a dita cuja correspondência
- Abrindo a correspondência. Olha só. Propaganda eleitoral,
cabelereiros, bolsa de ações, sapataria, cartão de crédito… E um
pacote!
- Que pacote?
- Não sei… deixa eu abrir…
- Ei… isso me faz lembrar.. você checou os selos?
- Ei, você conhece alguma Joanita?
- Droga…