
Girl in a Graingfield, by Alphonse Mucha
Era uma noite como outra qualquer, uma noite boa para milagres.
Primeiro havia os olhos, enérgicos mas tristes, completos mas despedaçados. Encantados. Ao primeiro sinal dos olhos havia o resto do mundo, construído lentamente para encaixar ao seu redor, tudo a seu devido tempo. Não se engane, para qualquer garoto, toda a existência, em qualquer dimensão física ou mesmo espiritual se constrói em torno da dama, da diva. É basicamente isso, e é nessa ordem. Mas não é qualquer. Talvez haja mulheres que não sejam garotas, ou mesmo garotas que não sejam as damas, as divas, o objeto de nossa admiração. Essas são as irmãs, primas, amigas, ou o que for. São seres humanos como nós, logo, não são divinas. São belas e essenciais, mas não deslocam a matéria ao seu redor. A luz não se curva só pelo prazer de reluzir pelos seus cabelos. São como nós, escravos num mundo inclemente com o padrão (justamente por dar a ele o mesmo tratamento igualitário, desinteressado e desinteressante, massacrante de qualquer individualidade). Mas as damas, as divas, são muito mais.
É a nossa sina, dos garotos, de sermos pequenos, menores, diante delas. Tentar protegê-las, desengonçados, como se fôssemos sequer capazes de proteger a nós mesmos. Passar-lhes um braço sobre os ombros num dia frio para aquecer-lhes, para que sintam nosso pulso e energia. Escrever cartas que não serão respondidas ou enviar flores (metafóricas ou não) que não serão recebidas com um sorriso, nem daqueles meio assim, meio de soslaio, meio indeciso, que é capaz de iluminar meia via láctea com o brilho de meio milhão de sóis. Fazemos isso o tempo todo. Não com todas, nem todas são damas, as divas. Nem todas são musas como Calíope ou Clio. Algumas são só nossas companheiras e confidentes. Outras são a vida que desejamos carregar conosco, que confidenciamos e compartilhamos.
Além dos olhos, para dentro e ao largo, há as palavras, e são elas que fecham e coroam todo o ciclo. As palavras que nos permitem conhecer verdadeiramente, com muito mais propriedade e riqueza do que um olhar infinito. É o bom-dia atabalhoado, são as tentativas mútuas de romper o silêncio ao mesmo tempo em que se tenta mais do que tudo uma autorização social pra ficar lá, olhando, parado, em absoluto silêncio, se isso não fosse algo estranho demais pra se pedir. É a respiração convalescente quando se encontra ela, a dama, a diva, e o coração engrena uma síncope
atrás da outra, saltitando entre gestos e olhares procurando algum caminho inexplorado pra se embrenhar e vibrar junto daquele outro coração. E batendo junto, forte, ritmado, tudo mais para, e ali reina a felicidade. Simpatia, compartilhar a mesma (sim) doença (patia), partilhar a mesma necessidade cabal de completude.
A vida dos bons garotos é essa: (des)ilusão e (des)esperança. É buscar encontrar alguém com a mesma doença que a sua, não para te salvar, mas pra sofrer contigo as alegrias e desventuras. Experimentar o transcendente e o banal com a mesma toada, ser companhia rir e chorar. Garotos buscam em suas damas, divas, musas, mais que inspiração ou satisfação. Buscam sentido, e trazem consigo a convicção que por elas são capazes de milagres, dos frugais aos inefáveis, até mesmo como subverter as grossas linhas do destino.
Antes que amanheça novamente, então veremos o nascer do sol juntos.