Direto do riverside (que ainda existe)

Dia desses eu estava lendo um livro que ganhei de Judson – sigam o exemplo deste bom camarada, realmente preciso de mais livros – e me deparei com muitas coisas novas, direta ou indiretamente. O dito texto em questão é “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector. Os primeiros capítulos são realmente arrebatadores, me lembrando muito o início d’O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, pelo mesmo jeito atordoante de encantar enquanto te sacode de cabeça pra baixo nas idéias. Mas isso não vem ao caso, e sobre esse livro só deixo a sugestão. Mas dia desses li, aleatóriamente, uma notícia em algum jornal/revista/noticiário qualquer, que Clarice tinha uma peculiaridade: não lia seus textos. Escrevia, depois deixava pra lá. Dizia que achava ruim, estava datado, não prestava mais. Tem muito escritor por aí com suas manias, Virginia Woolf só escrevia em pé, por exemplo. Mas achei particularmente interessante por eu ser meio assim. Acontece comigo quase o oposto, adoro reler o que eu escrevi, constatei isso ao ler essa nota. O motivo é que, assim como uns bebem pra esquecer, eu escrevo pra lembrar. Já faz algum tempo que minha memória começou a me deixar na mão de forma mais safada que o comum. Esqueço coisas a fazer, coisas que fiz, coisas que pensei. Já cheguei ao ponto de ter de argumentar rápido pra não esquecer a idéia no meio do argumento. Então, eu escrevo por duas razões. Para registrar memórias, sensações e emoções, ou para conhecer a vida de alguém de quem não me lembro mais, e portanto, uma vida que deixou de ser minha para pertencer ao passado. A vida é feita de fatos sobrepostos em uma ordem minimamente lógica – é lógico – e uma das provas que aquele momento não vai se repetir é o fato dele já ter acontecido, e se fosse acontecer de novo, não o seria pela primeira vez, mas justamente uma simples repetição. Então eu encontro algo na natureza ou nos homens que considero digno de nota, escrevo pra emoldurar no surreal, e pra de lá nunca mais sair. É legal saber que eu nunca vou ser capaz de reduzir a realidade a palavras, mas sim posso me esforçar em transpor em palavras um ponto de vista, como um quadro impressionista. Reforço a idéia de que sinônimos são uma ilusão reconfortante, mas dizer que se está feliz não é dizer que se está alegre. Assim, eu escrevo pra congelar um momento no tempo, e ter essa eternidade a minha disposição, mesmo que jamais chegue a consultá-la. O que importa é que esteja lá como uma rede protetora abaixo dos trapezistas voadores, descansando de forma soberana por toda sua extensão, pronta pra salvar alguém da queda, e o levar ao seu devido lugar, no caso, os céus. O que importa mesmo é que eu possa ler e reler, não pra achar que eu escrevo bem ou mal, pra achar bonito ou feio – até acho que poderia ser bem melhor – mas pra descobrir quem eu era, e junto com quem eu sou, traçar uma reta no plano cartesiano dos dias pra saber quem serei amanhã. Se é preciso disso tudo, não lembro, vou reler com mais calma pra tentar descobrir.
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