As praias

Essa foto é de um tempo longinquo, em Beberibe, litoral do Ceará.

No início era meio repetitivo explicar, mas eventualmente eu dei um jeito de concatenar as informações de forma a perder pouco tempo e encurtar a história: meu avô era jogador de futebol – jogou no dia de seu casamento, inclusive, o primeiro transmitido por rádio – e é flamenguista apaixonado. Meu pai é flamenguista sem tanta ênfase. Minha irmã mais velha é palmeirense. Meu tio é fluminense. Conheço dúzias de abecedistas e americanos, mas ocorre que por algum desvio do destino, eu sempre fui são-paulino, desde pequeno. Se em Natal ser são-paulino é difícil, imagina pra quem cresce no interior, onde quem não é Baraúnas ou Potiguar, acha que América e ABC que são timões, e no máximo arrisca um Flamengo – obvimaente por conta do Zico.

Nunca fui de chorar pelo meu time. Durante toda a infância, adolescência e atual juventude, acompanhei uma série de títulos, não muitos, e algumas desilusões. Nadar, nadar, e morrer na praia.

Me fascina a relação natural entre o brasileiro e o futebol. É engraçado, até quem não gosta o faz por despeito, por não tolerar “a ferramenta de manipulação”, o “ópio do povo”. Não é por ser irrelevante, mas é por sua incrível relevância se tornar incômoda, talvez até eclipsando outros temas mais importantes, é bem verdade. Sinceramente, em alguns pontos futebol no brasil é tal qual religião: você pode até não praticar, mas com certeza tem uma. Você pode até não chorar pelo palmeiras, torcer pelo fluminense ou xingar o técnico do flamengo, mas você sempre simpatiza com um aqui e outro ali. Tem gente, feito eu, que simpatiza com mais de um time em vários estados da federação (Atlético-MG, Grêmio só pra citar alguns). Tem gente que simpatiza com times até de outros países (Real Madrid, Olympique Lyonnais, Milan, etc.). E quando passa aquele jogo na TV, tem gente que independente da várzea que seja, pode ser Olaria e Itaberiba disputando a repescagem pra 3a. divisão, assiste e ainda xinga o juiz, o goleiro e até o – maldito – Ricardo Teixeira, da CBF. E na copa, vê aquele Arábia Saudita x Tunísia, critica o 4-4-2 mesquinho e glorifica o santo nome de Guus Hiddink como solução pra qualquer nó cego. Ah sim, e tem gente que compra uma dúzia de roupa verde-amarela só pra ver um time titular que joga pior que o reserva. Diabos, quem se importa?

A nike – que como reza a boa cartilha capitalista, se apodera de sinais pra carregar através deles suas mensagens consusmistas – faz toda a apologia do jogo bonito, do grande jogo, e isso me deixa esbaforido. Claro que sempre há a pragmática do resultado, mas no fundo todo mundo quer ver noventa minutos de arte, de ilusão. Por alguns minutos somos enganados pelo vento, pela grama, pela zaga que abre um buraco vacilado e se fecha impenetrável com a mesma facilidade.

Estando numa situação de relativo conforto, com um triunfo após quinze anos, eu paro pra pensar que sinceramente, essa não foi a maior alegria que essa paixão me deu. Foram todas as vezes em que tive orgulho de vestir a camisa, literalmente. Se eu fosse técnico de futebol eu seria bem direto: “Perdemos porque o outro time jogou melhor? você viu aquele golaço? Nosso time vai se esforçar praticar, e ser assim. Fazer gols assim. Vai ser arte”.

Sinceramente, não me importo que demore mais quinze anos. O que importa é o orgulho, a certeza e a arte. Até lá vamos sempre nadando a braçadas largas. Morrer ou não morrer é indiferente, o que importa pra cada brasileiro é a presença dessa praia – desnecessária e ao mesmo tempo indispensável.

O desejo nos pega desde moleques. E o jeito? ; )

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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3 respostas para As praias

  1. susi disse:

    ok, parabéns pro seu time!

    mas se vc escreve sobre sua relação com o São Paulo, ou a do brasileiro com futebol, enfim, sobre futebol, desejo, paixão, arte… não cita o Corinthians de propósito, né? puxa, nem pra falar mal! seu blasé! parece aquela coisa ‘pra mostrar que pra mim é tão insignificante, nem menciono’ (ou nada pra mostrar, é simplesmente indiferente, ignorado e pronto). indiferença sux =/

    comentários neuróticos à parte, adorei o texto =*

    minha irmã mais velha tb é palmeirense =P

  2. Wagner Artur disse:

    aié, tem o corintians… ;)

    ;D

  3. Lu2 disse:

    adorei o texto artur…
    realmente essa ligação do brasileiro com o futebol é sublime e até quem não gosta faz a fama do esporte: é aquela velha coisa, “sua inveja faz o meu sucesso”…e, até como vc disse, 3ª divisão, DISTRITAL(!!!), futebol society, futsal…o brasileiro se encanta com todos eles e ainda inventam mais esportes análogos apenas pra não passar algum tempo longe dele, ou então o jogam na praia, com um coco-bola, de pés descalços, sonhando ser um Ronaldinho Gaúcho da vida ou um Wayne Rooney…o Brasil é sim o país do futebol e pelo menos isso (e a morte!) pra unir um povo tão discrepante…

    ps: ahhhhhhh, a foto tá fofinhaaaaa
    owwwwwwwwww, vc era tão lindinho, Artuuurrrr!!!!!!
    :D

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