A Maçã

Nesta madrugada tive um tradicional debate com Carolina Maria sobre um dos nossos assuntos favoritos – quase tão açucarado quanto a polêmica “Fábio Jr. ou Luis Miguel?”. Física Moderna.


A conversa toda começou com perspectivas de Mestrado, futuro acadêmico, pesquisas, etc. Mesmo cursando Radialismo, Carol é uma autodidata de marca maior, e profunda conhecedora de todas as nuances físicas, enquanto eu… bem, eu faço Direito. Não é grandes coisas, mas na pior das hipóteses isso me qualifica a processar quem descobrir que eu sou burro ou jogar falácias contraditórias até sufocar qualquer desafeto com um verdadeiro curto-circuito cognitivo.

Carolina não vê muito futuro em fazer física por ser muito restrita a parte que ela realmente se interessa, que é, justamente, física moderna. Segundo ela, do que adianta você cursar vários anos pra só aproveitar o equivalente a um semestre de aula? “Coisa de idiota”, pensei comigo mesmo enquanto tentava contabilizar se cheguei a pagar um semestre de matérias que prestassem ao longo toda minha faculdade. Daí a conversa entrou no Mestrado, nosso last resort de estudar algo decente.

Discussão vai, discussão vem, Teoria das Super Cordas, Onze dimensões, beleza. Então ela menciona uma nova teoria, que propõe que no espaço (não no espaço sideral simplesmente, na matéria) existe matéria discreta, ou seja, no “tecido” do espaço existem coisas menores, que eu logo me apressei em qualificar como “ranhuras”.

Se você não matou todas as suas aulas de Química e os nomes Rutheford e Bohr são mais pra você do que uma música do Skylab, então você deve lembrar dos modelos atômicos, e de sua genialidade. O grande insight deles foi justamente sacar que a matéria pode ser decomposta. Uma pedra na verdade é um conjunto de átomos- acho que Demócrito fez o primeiro modelo atômico, que foi posteriormente melhorado por uma carrada de gente, até chegar ao nosso people’s choice award, o já citado Rutheford-Bohr. Já mais recentemente, descobriram menores frações da matéria: Quarks, Múons, etc. O ponto dela – e da teoria mencionada – é que o próprio espaço pode ter mini-partículas de espaço. Imagine que a existência é um desenho numa folha de papel, e de repente você descobre que o papel na verdade é matéria, mesmo que pra você, que more no papel, ele sequer exista, aparentemente. Ele é o Tudo, como diabos o Tudo pode ser descontruído em parcelas?

Eu comentei que mesmo considerando a teoria bonita e interessante, pra mim ela não acrescenta em muita coisa. Me parece ser só uma gradação vertical a mais do mesmo projeto de teoria. É como se descobrissem de repente uma partícula menor do que a menor partícula, e depois descobrissem outra, e outra, e outra. Esse tipo de conhecimento não me seduz. Especialmente por flertar com uma espécie de auto-indulgência e com o misticismo.

Calma, eu explico. Pra mim, você crer que existem onze dimensões, das quais três são materiais, uma é o tempo, e mais as outras sete são enroladas em cordas é divertido, e pode até trazer um indício de verdade, mas é só um capítulo médio de uma mesma gradação vertical. Suponha-se que daqui a 10 anos descubram mais 15 dimensões em cubinhos malhados, e agora? O que vai ser dessa idéia de hoje? Um passado antiquado, mesmo que as verdades por trás dela sejam as mesmas.

Einstein, quando escreveu sobre a teoria da relatividade, a fez em duas partes por uma razão óbvia. Primeiro ele escreveu a parte especial, restrita, que era fruto de análise de um fenômeno limitado, e passou daí pra formular a relatividade geral, através da qual buscava, segundo dizem, ler os pensamentos de Deus.

Para Einstein, Deus não joga dados. É tudo um grande plano, tudo tem um princípio, meio e fim. Eu acho que, ironicamente, essa visão não admite misticismos. Deus é o sujeito mais pragmático do universo.

Carol concorda com a visão de Stephen Hawking, que Deus JOGA dados, o universo governado pelo aleatório. Essa é uma visão especialmente difícil de ser absorvida por mim, pois eu creio que todo aleatório, quando visto de uma perspectiva superior, esconde um padrão. Mesmo o comportamento do princípio da incerteza de Heisenberg, deve significar que na verdade existem variáveis ocultas que fazem parte de um grande plano.

Ela comentou que do jeito que eu falo, parece que eu não vejo utilidade nessa pesquisa. Claro que eu vejo, claro que eu acho homens como Hawking gênios espetaculares. Mas tudo isso, todo o estudo, toda a erudição, toda a filosofia que envolve os conceitos, tudo trabalha para que, quando ela caia, Newton possa pegar e admirar a beleza da maçã. Possa constatar que além da força gravitacional, exista um pedaço de mundo de uma beleza ímpar.

No brilho dos olhos desse instante você vê toda a justificativa da paixão pelo conhecimento: subitamente toda a beleza do mundo faz um sentido todo especial. Tudo o que você luta pra entender existe pra construir o mundo sensorial.

E Einstein morreu achando que não conseguiu ler a mente de Deus. Tenho a impressão que Hawking, com todas as adversidades congênitas, pensa diferente. Os três teriam uma conversa e tanto.

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2 respostas para A Maçã

  1. Daniel Levis disse:

    Por isso que sou seu fã, rapaz. Você consegue fazer, de um papo que tem tudo para ser pseudo-intelectual, uma conversa agradável e inteligente.

  2. Thomaz Napoleão disse:

    Belissimo post, camarada. Isso me fez lembrar de um filme chamado Ponto de Mutação, baseado num livro do Fritjof Capra, assista algum dia!

    Eu compreendo seu ponto de vista, mas ainda penso que a beleza do universo esta justamente na ausência de padrão, no caos do aleatorio. Isso é de certa forma incompativel com o conceito de deus e com a noção de uma finalidade ou de um proposito para a existência.

    A paixão pelo conhecimento, para mim, é inseparavel da paixão pela liberdade. Deus não cabe no meu universo. Os dados cabem.

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