Sobre irmãos

row, row, row your boat

Row, row, row your boat

Três amigos acampam numa floresta naquele que é considerado um dos piores filmes de ficção científica já feito, e, para mim, um momento de beleza transcedental.

Como é de senso comum, sou portador de um resoluto orgulho nerd. Eu sou nerd, e me orgulho de ser. Podia estar matando, roubando, pagodeando, mas não, tenho interesse por coisas meio estranhas e me divirto muito no processo. E daí que sou péssimo com garotas e não tenho traquejo social. Talvez essa sensação perene de estranheza se traduza em um sentimento perpétuo de mistério, desconhecido, encantamento. De qualquer forma, são elementos que me compõem como pessoa, do mesmo jeito que eu posso dar aulas sobre sistematização e compatibilização no World of Darkness, Fundamentos de Donkey Kong Country (uma banana sozinha nunca é só uma banana), entre outras áreas pragmaticamente dispensáveis mas simbolicamente inesquecíveis. São tantas horas de conhecimento inútil e entretenimento popular, que a pessoa não pode evitar se sentir em conexão com o zeitgeist, com a mensagem que permeia nossa cultura silenciosamente.

Mas eu era um nerd incompleto. De todas as futilidades e banalidades características da nossa raça, eu permaneci afastado de uma das mais caçoadas: Jornada nas Estrelas, ou Star Trek. Como bom fã de Star Wars (como já mencionei aqui), eu achava que era coisa de criança, toda essa fixação com teleportes, phasers e aparelhos de comunicação, tudo terrivelmente retrô. Me lembra quando eu queria um relógio dos flashmen, daqueles que apertava botãozinho e a luz piscava. Tosco.

Então, movido pelo geek pride, eu fui lá, sem por muita fé. Vi o primeiro. O segundo. Terceiro quarto juntos. Ao final do quinto eu sabia que já estava perdido, já fora fisgado pela utopia.

Joseph Campbell tem uma tese que hoje em dia tudo o que nós temos em nossa cultura são distopias, sociedades pervertidas, corrompidas. Nós gostamos de olhar pela moldura das artes e ver presságios do que nós poderemos nos tornar. Governos autoritários, pestes pandêmicas, ciência desumana, são todos cenários para descrever que nós estamos eternamente a centímetros do penhasco. São histórias de alerta. Mas nem sempre foi assim. Em outros tempos preferíamos utopias. Nos iludir com uma possibilidade de mundo diferente, mesmo que distante. Mesmo que habitado por elfos e árvores gigantes com dis-cur-sos len-tos. O que importa mesmo é crer que pode haver algo novo, diferente, que não é simplesmente o que nós fizemos errado. Nós podemos, às vezes, acreditar que somos capazes de fazer o certo.

Campbell também nota com surpresa o caminhar da cultura humana para o espaço. Não há mais mistérios, desconhecido, em um mundo plenamente acessível por Google Maps. A ilha de LOST talvez seja o último recanto da nossa cultura pop atual que se salvou da nossa atenção perscrutadora que já esquadrinhou cada centímetro na face desta Terra. Depois que não tínhamos mais como temer os dragões do final do mundo (mais sobre isso mais tarde), nem os bárbaros do além-mar, nós tratamos de pegar emprestado o espaço para playground mitológico. E assim decidimos que era hora de ir aonde nenhum ser humano jamais foi.

Imagine um mundo em que a fome, as guerras, as doenças, sejam somente registros históricos distantes. Os diferentes povos e etnias existem, mas sem qualquer distinção qualitativa, são todos matizes e variantes do mesmo projeto de humanidade. E, tendo esgotado o conhecimento do planeta, perscrutado cada canto à vista e esquadrinhado tudo o que era possível, decidiram que só havia uma chance de continuar existindo como uma espécie verdadeiramente viva: continuar aprendendo, e isso só seria possível explorando o espaço. E partiram para, não conquistá-lo, mas entendê-lo. Esse é o mundo de Star Trek. Sem dúvida, uma utopia.

Mas, mesmo na fronteira final do universo, perto de buracos negros, estrelas duplas e planetas gasosos, nós ainda somos humanos olhando pro universo. O coração da história não é o universo infinito, mas os homens que passeiam pelo universo como o sábio Aristóteles caminhava por seu jardim, murmurando verdades universais observadas em cada folha, flor, respingo de orvalho. Esses somos nós, numa perspectiva idealista de que sejamos, um dia, movidos pelo conhecimento, a versão “madura” da nossa curiosidade infantil.

E entre esses exploradores surge a amizade.  Surge a compreensão, a dependência. Surge a família.

E se em Star Wars temos uma família rachada, em cacos, em Star Trek temos uma família inquebrantável. Com seu núcleo duro composto por três amigos que compõem um conjunto perfeito, também é formada por vários elementos carismáticos. Todos numa missão contínua para explorar o universo. Novas versões vieram, algumas mantiveram a mensagem, outras não. De lá pra cá, daquele primeiro filme até hoje eu me tornei um apóstolo, tentando achar pessoas que compartilhem dessa sensação comigo. Procurado entre meus amigos mais queridos a vontade de formar uma família parecida, um laço renovado de amizade. Com o propósito de, daqui em diante, buscar explorar corajosamente o que há ao nosso alcance e além dele também. Muitos acham bobagem, nerdice boba, não dão a menor bola.  Mas aos que lembram das velhas histórias (e aos que puderem assisti-la sendo contada novamente agora), fica o conselho daquela família que partiu um dia para compreender o infinito:

Reme, reme, reme gentilmente, seguindo o riacho,

Alegremente, alegremente, a vida é simplesmente um sonho.

So say we all.

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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2 respostas para Sobre irmãos

  1. Mateus disse:

    Palavras fantásticas essas suas!

    Ser nerd não deixa de ser uma forma de viver o “simplesmente sonho da vida”.

    p.s.: Alguém já te disse que você deveria escrever roteiros? Se sim eu reforço, se não, eu digo: Deverias escrever roteiros.

  2. suzana disse:

    é por isso que eu adoro o menino artur e é um sentimento que se provou, por incansáveis vezes, inquebrável. essa capacidade de compartilhar um puta olhar sensível, diz e cativa mais que qualquer traquejo social convencionado.

    vida longa e próspera sempre, meu amigo :*

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