O barulho da revolução

iran

Ultimamente tenho me sentido um apóstolo do Twitter. Essa semana, na faculdade, tive um debate com meus alunos de Filosofia do Direito, num seminário sobre Hannah Arendt e o agir político como forma de libertação.  Discutimos sobre a possibilidade de realizar esse agir político na nossa sociedade atual. Como participar? Como fazer diferença?

É curioso o fato de vivermos em uma sociedade em franco florescimento tecnológico (gps nos carros, notebooks acessíveis, celulares até para crianças, Ipods, Iphones e outras bugigangas tecnológicas que são deslocadas de tecnologia para moda) que compartilha de uma profunda sensação de alienação.  As instituições democráticas são humilhadas todos os dias, em todo o lugar, das faculdades aos botecos. Alguém confia no Senado, na Câmara? Não, nós não só não confiamos como fazemos questão de falar mal e externar essa disconfiança, sem jamais pensar que ós somos os criadores desse monstro. O que ocorre é uma sensação de distanciamento: não conseguimos vincular o nosso voto ao buraco na rua, ao trânsito ruim, ao escândalo de corrupção.

Mas a tecnologia tem ajudado no sentido de mudar essa realidade. A Transparência Brasil é uma das iniciativas que tem surgido, tentando aproximar a informação pública daqueles que querem te acesso a ela. É importante deixar claro que esses projetos não tentam levar a informação a todos, mas possibilitar que todos tenham acesso à informação. É destruir a barreira do sigilo que às vezes contamina a coisa pública no Brasil. República quer dizer Res (coisa) + Publica (pública) = Coisa pública. O verdadeiro sentido de República é de algo que é patrimônio de todos. No Brasil temos muita dificuldade em entender esse conceito. Atos como jogar lixo pela janela do carro, depredar monumentos, ou mesmo pegar uma caneta de uma repartição pública revelam que nós tendemos a considerar a República como Res derelicta (coisa perdida, coisa de ninguém).

Mas como reduzir essa sensação de distanciamento? Aí que a tecnologia volta à cena. E o Twitter.

Na crise do Irã temos visto uma situação singular. Por se tratar de um país extremamente fechado, as notícias da situação em Teerã não chegam a nós. Os jornalistas não tem liberdade para agir, e geralmente são isolados para não terem condição de reportar o que realmente acontece. Mas a tecnologia mudou o jogo, dando a cada pessoa a possibilidade de registrar informações (câmeras digitais, em celulares ou não) e enviá-las pela internet. Mas o e-mail já existe há algum tempo, não é exatamente novidade. O que é realmente novo nessa situação é que agora temos ferramentas para envio imediato (direto do celular) e para divulgação pública, direcionada por palavras-chave. O que o Twitter faz, a grosso modo, é permitir que imagens e informações sejam agrupadas em um banco de dados que pode ser pesquisado livremente, com base nas palavras-chave (as chamadas hashtags, no caso #IranElection). Então temos MUITA informação sendo disponibilizada sem restrições para MUITA gente.

Mas aí surge outro problema. Na medida que a informação se dilui numa algazarra de gritaria, ruído e pouca relevância, fica difícil separar a boa informação da formação equivocada ou mesmo da propositalmente falsa. Ontem, no meio do dia de violência em Teerã, chegavam notícias de todo tipo de coisa, desde um possível atentado (depois confirmado) até que a China teria aberto sua embaixada para receber feridos do conflito (que até agora não foi confirmado, mas eu acho difícil). Fica para o receptor a responsabilidade de destrinchar essa montanha de informação e sair catando o que é confiável ou não. Mas já é assim com a TV, com a internet em si. A nova diferença não é de qualidade, mas de quantidade. Agora há muito mais que 100 canais, mas milhões de canais diferentes que você pode sintonizar e receber a sua opção de interpretação da verdade. Estamos sendo inundados pelas opções, e isso agrava ainda mais nosso trabalho de discernir o que é informação que preste.

Mas qual é o verdadeiro ganho nisso? Ontem, discutindo com @Cardoso pelo próprio Twitter, identificamos dois aspectos positivos. O primeiro é de dar voz e uma possível publicidade a quem estaria totalmente marginalizado pela mídia tradicional, seja por questão de logística (como agora no Irã, em que alguns jornalistas foram presos não podem trabalhar) ou de pauta editorial (cada mídia tradicional escolhe o que quer noticiar, a Internet noticia quem quiser). Por mais que essa informação seja muitas vezes suja e barrenta, também há possibilidade de achar mais coisas relevantes num universo maior de informação. É essa liberdade que nos dá a possibilidade que um vídeo filmado por uma pessoa qualquer na rua alcance visibilidade global em questão de horas. É engraçado, mas provavelmente eu e quem mais acompanhava o desdobrar dos acontecimentos provavelmente vimos esse vídeo antes da CNN, ou outros conglomerados midiáticos milionários. Isso põe em cheque inclusive a monetarização da informação. Mais do que nunca, information wants to be free. Mas isso é conversa pra outra hora. Vamos voltar ao assunto.

A segunda qualidade é a capacidade atômica do RT. RT quer dizer Retweet, que é o ato de passar adiante uma informação recebida no Twitter. Existem alguns artigos já escritos sobre a disseminação de informação e como maximizar os seus RTs, mas o que importa é que a pessoa repassa uma mensagem sua pros seus contatos, que repassarão adiante, e assim consequentemente até você não ter outra idéia da difusão da informação além de que ela foi difundida a um nível além do seu controle. Mas ela está lá, e foi difundida. Recentemente uma onda verde tomou o Twitter, com pessoas adotando um layer esverdeado nas fotos dos seus perfis, como uma forma de chamar atenção para o que se passa no Irã. Tenho um amigo que não concorda com a iniciativa por achar que partidariza um protesto que não deveria ser partidário, mas o número de pessoas que me procurou pra saber do que tratava aquela corzinha verde sem-graça é um sinal que a informação pode ter atingido seu objetivo, e, assim, a manobra foi um sucesso. A onda de curiosidade se espalhou, e assim a “causa iraniana” foi conhecida por milhares de pessoas muito antes que os grandes jornais ou as revistas semanais pudessem noticiar seus desobramentos. E isso pode ser extremamente relevante. Uma das informações divulgadas exaustivamente ontem foi a lista das embaixadas que estavam recebendo feridos do conflito. O Brasil não recebeu (o e-mail de lá é embassy@braziliran.org, caso queira enviar também uma reclamação mal-educada), e o Canadá também não.  Mas os canadenses se revoltaram e começaram a dar RT desesperadamente, convocando todos a enviar e-mails para a embaixada canadense pedindo que abrissem as portas. O que era só um comentário isolado se transformou em um verdadeiro clamor público.

Um dos vídeos mais populares da crise iraniana é um que retrata a morte de uma moça, chamada Neda. Mais que o simples retrato da truculência estatal, Neda se converteu em grito de guerra. Ou talvez um grito de paz de um povo cansado de beligerância. O mais interessante é notar que provavelmente poucos iranianos conhecem Neda. Mas eles ouviram os comentário, eles foram informados pela Internet. Neda sintetiza como a informação é um valor ainda incompreensível no nosso mundo tão aproximado. Em outras épocas foram flores em canos de armas, ou jovens desafiando tanques. Hoje as imagens que mudam a nossa sociedade voam sem restrições, em um jorro de um ruído ensandecedor. Mas junto a esse ruído há algumas melodias impressionantes, que assustam por sua potência e novidade.

O Twitter não vai salvar a humanidade. Mas tem adicionado uma nova dimensão de participação popular. É mais uma ferramenta que pode ser usada para libertar o homem de diversas formas. Mas como toda revolução, cultural, industrial, política, é uma promessa que pode ser frustrada, nos deixando somente com nossa desilusão. Até lá – o futuro – só nos resta continuar a fazer o que fazemos de melhor, muito barulho.

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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3 respostas para O barulho da revolução

  1. Natália disse:

    percebi o quão twitteiro você é! hahahahaha!

  2. Amigo, em primeiro lugar, excelente texto!

    Acredito que os blogs, portais, Twitter, Orkut, MySpace e demais recursos eletrônicos que possibilitam a interação de informações entre as pessoas são importantes instrumentos para esse “agir político” do qual você falou.

    Inclusão digital e democratização da informação abalaram as estruturas dos grandes e tradicionais grupos midiáticos, fomentando novas práticas como, por exemplo, o Jornalismo Cidadão – Citizen Journalism (http://www.nadacomjus.com/?p=869).

    Contudo, acredito que a informação pela informação,assim como a notícia rápida e sem contexto, talvez contribuam mais para a apatia política do que para um “agir consciente e livre na transformação da nossa realidade em um mundo melhor”.

    Daí a importância dos veículos de credibilidade, dos expertos, das “autoridades no assunto”, da pesquisa do histórico dos fatos noticiados, da contextualização da notícia, e por fim, de uma atitude por parte do receptor da informação que implique nesse “agir político”.

    Ou seja, do que adianta que a notícia “Mordomo particular de Roseana é funcionário do Senado e é remunerado com dinheiro público” esteja em todos os blogs, rode o Twitter adentro, se o cidadão não manda um e-mail para Sarney, não representa ao Ministério Público, não faz reclamações junto aos outros Senadores e, principalmente, não deixe de contribuir para a perpetuação da dinastia do clã Sarney?

    Informação existe, só faltam a consciência e a liberdade de transformá-la em um agir político.

    Abração!

  3. Com certeza a tecnologia eh uma armar importante. A questao eh que deveriamos estar usando-a para auxiliar a democriacia, discutir projetos publicos, fazer votacoes e abaixo assinados. O site transparencia Brasil eh uma iniciativa otima, assim como transparencia capixaba.

    Porem eles soh odem se tornar de fato uma arma forte quando a populacao partcipar. Eu temo crer que vivemos a velha historia do porco, nao me lembro bem ao certo de qual obra, MAS “Um dia os tripulantes de um navio foram trasnformados em porcos, viveram suas vidas rolando na lama e cheirando o esterco. Ate que um heroi encontrou algo que poderia trasnforma-los em humanos. Quando o heroi anunciou a salvacao todos os porcos sairam correndo, porem o heroi conseguiu “salvar” 1. Esse porco ficou altamente revoltado com o heroi: “eu era feliz nao tinha preocupacoes com a minha existencia, porque voce teve que vir e me tranformar em humano?”

    Sinto que vivemos algo semelhantes, queremos ser pessoas, vivemos ess qualidade “bem” reclamamos do governo mas estamos “satisfeitos com a nossa condicao”. Quando algum “heroi” tenta nos transformar em cidadaos nos nos recusamos, damos desculpa de que nao temos tempo, de que nada vai resolver. Precisamo de masi espirito de “Porto Alegre”, para entao provocarmos uma mudanca!!

    Parabens pelo post.
    Beijos

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