Avenida Atlântica

Na Avenida Atlântica tudo o que se passa ocorre por um bom motivo, por dois ou três. Na Avenida Atlântica parece que o universo precisa se justificar frequentemente, o que justifica a forma cíclica em que tudo acontece, não uma vez só, mas várias vezes, como que martelando pacientemente o destino na testa de todos.

Na Avenida Atlântica, inclusive, o destino não passa, ele dá uma volta lá longe e você escolhe se vai ficar sentado esperando ele dobrar na esquina com a Coronel Armando ou você corre feito um desesperado pra tentar se encontrar com ele em algum momento. Na Avenida Atlântica o destino nunca, mas nunca te espera. E faz questão de repetir isso, pra que você saiba que ele nunca te espera.

Na Avenida Atlântica há pessoas de todos os tipos. Tem gente velha com medo da morte, arrependida dos fiascos emocionais ou carente de qualquer afeto. Tem gente pequena, muito pequena, que tem medo do escuro da Avenida Atlântica, que ninguém se dá ao trabalho de explicar que não precisa ser escuro se eles fecharem os olhos bem forte e imaginarem o mundo inteiro cheio de luz. Mas ninguém tem tempo hoje em dia de dizer pros pequenos que o medo tem solução. Eles que aprendam, e que aprendam também a ter medo do tempo.

Na Avenida Atlântica o medo do tempo é uma pandemia. Os pais morrem de medo do domingo, que significa o começo de uma semana rancorosa, cheia de um trabalho insuportável e de uma vida burocrática. Os filhos vivem com medo do amanhã, sempre buscando validação e certificação em cada um dos seus atos, procurando alguém que ouça suas histórias e diga: “isso, você tem razão”, ou só “boa escolha”, já tá de bom tamanho. Na Avenida Atlântica os jovens tem terror absoluto pela noção de serem incapazes de voltar no tempo, de girar a terra no sentido oposto e desfazer tudo de ruim e errado que já foi feito, que tolos eles.

Na Avenida Atlântica o tempo não perdoa nem esquece, não nutre nem cresce, mais contamina e despedaça. Na Avenida Atlântica o tempo é uma doença que os muito pequenos também aprendem sozinhos, que ninguém ensina expressamente mas todo mundo deixa subtendido. “O tempo é aquilo que te impede de ser quem você pode ser”, meu anjo, diz o vovô pra netinha com vestidinho verde e sapatinhos com cheiro de glacê. “O tempo é a eterna lembrança, o demônio alado que te persegue enquanto tu corres, carregando consigo o traçado de todos os seus passos, com suas marcas tortas, feias, borradas, desiguais. E quanto mais você corre, mais tortas, feias, borradas e desiguais são essas marcas”, dizia o jovem pastor, com a firmeza da fé inquebrantável que o futuro a todos julgará.

Na Avenida Atlântica, até o tempo é prisioneiro do tempo. É por isso que ele se repete, se revela consecutivamente, de forma incansável. Pra jogar na sua cara infinitas vezes que ele existe, tempo soberano, e você não tem escolha, vai precisar prestar contas. Amanhã você vai lembrar. E vai lembrar porque o tempo precisa ser lembrado. Precisa de companhia pra não ter medo do escuro. Precisa de alguma hipótese heróica em que alguém seja algo que ele não seria jamais, em seu sonho entediante, capaz de ser. O tempo precisa de alguém que o reinvente, ou ele sempre será o mesmo, mórbido, caduco, impotente.

Na Avenida Atlântica vive todo tipo de gente. Gente preocupada com a vida, com o cabelo, com o futebol e com a namorada. Tem gente de olho nos buracos, nas flores, na política e na janela do 302. Na Avenida Atlântica tem gente ocupada o tempo todo com um monte de coisas, o tempo todo pensando no tempo, mas sem pensar muito no destino. Na Avenida Atlântica destino é coisa fraca, não é feito de vontades, é feito de contextos. Na Avenida Atlântica o mundo acontece não por mágica, mas por decreto.

Na Avenida Atlântica volta e meia aparece alguém com uma novidade, uma nova preocupação. Pensar na vida, no octeto vocal, nas pantufas da vizinha cheirosa, no matinho do meio-fio. Mas isso nem dura muito. Na Avenida Atlântica parece que a seriedade das coisas sempre atrai a atenção dos mais sábios, chamando-os a colocar as coisas em prioridade. Primeiro os velhos medos, depois o tempo haverá de se encarregar de nos encher de novos. É assim que se faz e sempre se fez.

O doido que quis mandar no tempo foi expulso a bala. Quem já se viu? Na Avenida Atlântica é assim que se faz e sempre se fez.

Na Avenida Atlântica tudo o que se passa ocorre por um bom motivo, por dois ou três. Na Avenida Atlântica parece que o universo precisa se justificar frequentemente, o que justifica a forma cíclica em que tudo acontece, não uma vez só, mas várias vezes, como que martelando pacientemente o destino na testa de todos.

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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4 respostas para Avenida Atlântica

  1. Ja te passei minha opiniao “pessoalmente”, entao ja que nao quero satura-la, basta dizer aqui: genial.
    ;(

  2. suzana disse:

    a avenida atlântica parece um relógio.

    genial. [2]

  3. Agatha disse:

    Inspirado, hein! ;)

    Gostaria de definir os meus pensamentos que se envolveram ao longo do texto, mas, de alguma maneira eles não são concretos, não consigo comentar. Isso é interessante, escritor. ;*

    ps. espero a inspiração para o meu email também ;PP

  4. Laís disse:

    Não posso deixar de dizer que o último parágrafo, foi um desfecho sensacional.
    Muita técnica garoto!
    Appreciated it!
    Using to come here often now… =)

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