Gravidade

A primeira foi uma senhora de meia-idade, recém-viúva, que aguardava pacientemente que a atendente no mercado lhe fatiasse um pedaço considerável de presunto, para preparar sanduíches para as vizinhas, de quem ela francamente nunca gostou muito, mas que eram suas únicas companhias desde que toda a família tinha se mudado para o interior. Após semanas sem contato algum da família, ela, que tinha casado jovem, encontrou-se numa situação singular de descrédito e distração. Nada parecia fazer diferença, não havia quaisquer obrigações, nem necessidade de trabalhar. A pensão do finado cobria todos seus gastos. Em poucos meses decorou todas as vitrines da cidade. Só lhe restou o presunto em uma reunião enfadonha. E assim ela foi a primeira a subir.

O segundo foi um garoto franzino, naquela fase indecisa da pós-infância e pré-juventude. Ainda vestia um uniforme de futebol sujo de barro e grama, e ofegava violentamente quando se meteu dentro do quartinho dos fundos de casa. Sentou num canto entre uma cadeira de praia e uma estante velha de livros de gosto duvidoso, daqueles que você guarda mas não tem coragem de exibir na sala de estar. Seus punhos ainda doíam e ardiam em uma sensação de dormência típica de quando o corpo é usado para o qual não fora projetado. No treino na escola um garoto fez graça de seu porte físico, e o resto seguiu a inspiração jocosa do comediante. Como crianças – nessas horas não passam disso, crianças – podem ser más. Tomado pela fúria o jovem-garoto se engalfinhou ferozmente com seu oponente, diante dos risos empolgados de uma platéia sedenta pela decadência, pelo vexatório. Sedenta por imperfeição e fraqueza. Naquele dia o garoto-jovem socou titãs, anjos e deuses, possuído pela vontade sincera de ser deixado em paz, simplesmente e somente isso. Mas, poucas horas após ser trazido para casa por seu pai, inconsolável e destruído pela vergonha, aquele doce rebento também encontrou seu caminho de elevação.

A terceira foi uma bela garota com olhos profundos, cabelos mais claros que a praia e mais escuros que o sol, que descobriu, como todos descobrem em algum momento, que amar alguém é correr riscos. E o preço do risco que dá errado é a dor, lacinante e irracional, psicológica e inequívoca, onipresente e sedativa, da existência incompleta. Após se apaixonar por um jovem interessante, e ter acreditado que algo era possível, se descobriu sozinha, simplesmente assim. Não importa o motivo. Ele nunca importa. O que importa é o rombo, o esfacelamento, os cacos que sobram que não conseguem montar um quebra-cabeça. Falta uma peça-chave, um coração que una tudo em um retrato harmônico e sensível de vida pensante. Como se satisfazer com um corpo, quando pode-se ter um coração? A moça perdeu o coração e a esperança, e tinha estado, por semanas, em uma catatonia absorta. Como assim? Mas naquele dia, ela fechou os olhos e pensou em outro mundo maior, melhor, e sem dor. E, ao imaginar as nuvens roçando sua pele com a maciez do vento da manhã, lentamente começou a flutuar. Imaginou um amor perfeito, compreensível, atencioso, e, antes de mais nada, que não a deixasse jamais. Aquele deveria ser o mundo real, o mundo em que a felicidade fosse possível e concreta, onde poderíamos ser tudo o que estivemos destinados esse tempo todo.

Assim, um por um, a cidade toda se desvencilhou do solo. As pessoas não esboçavam reação, só sentiam o mundo lhes escapar das suas mãos e dos seus pés. O mundo lhes fugia, não era mais corpóreo, simplesmente não estava mais lá. O mundo as deixou sós, cada uma isolada em si, todas em uma constelação de estrelas opacas, que, como na noite prateada, brilham num silêncio ensurdecedor uma sensação de vazio. Cada criança, homem ou mulher, um por um, perdeu seu contato com o chão. Parecia que a terra não era mais de ninguém, todos os seus passageiros resolveram mudar de condução para uma condução de condição mais agradável. Um a um, cada um aceitou seu destino e cansou de lutar. E no dia do armistício a cidade subiu aos céus, sem qualquer gravidade, além da tristeza no coração de todas as almas perdidas, antes na terra, agora no espaço.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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