Desejos e Fortuna

Whats your wish, milord?

What's your wish, milord?

“My life is a chip in your pile, ante up”. É o mote de Setzer Gabbianni, navegador da Blackjack, airship de Final Fantasy VI, um personagem ao qual me afeiçoei justamente por não ter simplesmente nada a ver comigo. Era um grande viajante e aventureiro, que vivia de enfrentar a sorte, ganhando ou perdendo, sempre arriscando. Ele era meu antônimo. Garoto pacato, nunca viajava sem os pais, averso a farras ou mesmo a vida social – perda de tempo. A minha vida é uma ficha na sua pilha, aposte. Jogue com tudo, jogue com força. Desde então tenho um caso tórrido com Fortuna, a deusa da sorte, do destino, das graças e desgraças. Eu já ganhei de aniversário uma cadeira. Já ganhei de presente de aniversário briga com namorada e desclassificação da Libertadores (ao mesmo tempo mas por razões desconexas). A maior chuva da década caiu na minha cidade no dia da minha formatura, tive de voltar pra casa à pé, de madrugada, descalço, com anel de formado e tudo. Perdi meu cartão de crédito fora do país, e o meu plano era justamente O ÚNICO que não cobria remessa de emergência. Esses são alguns dos fatos bizarros de azar, os de sorte são incríveis e eu prefiro nem listar. Basta dizer que conheci pessoas maravilhosas de forma lógica, porém mágica. Só isso já me basta. Mas às vezes tem mais que isso.

Gostaria de comentar uma noite em especial. Entre muitos eventos heróicos, menciono um jogo de baralho, ou, mais exatamente, de Magic. Em Orlando, jogava com meus primos Jean, Carlos e seu cunhado Demétrius – também um grande amigo. Jean, se não me engano, usava um deck vermelho de anjos, Demétrius um deck verde de criaturas grandes e Carlos o seu deck azul imbatível. Ok, se você não curte, pule um pouco as próximas descrições. Vai dando pulinhos e você vai notar quando a história estiver chegando ao final, que é o que interessa a você. Se você acha isso imbecil por favor vá embora daqui e não volte, você deve me achar imbecil também por tabela. Como eu dizia. O deck de Carlos é famoso, existe há mais de cinco anos, e é renomado por nunca ter sido derrotado (ao menos ninguém se lembra de uma ocasião, e talvez todos gostemos de manter essa mística, do deck perfeito. É um deck controle absoluto, que atravanca o jogo e decide quem vai jogar e como.

Eu, seu modesto servidor, jogava com um deck pré-frabricado tosquinho, com ligeiras alterações. Também deck azul, também deck de controle, mas MUITO mais barato que o deck do meu primo. O deck se fundamenta em uma criatura (Djinn of Wishes, 2UU), uma espécie de Djinn que (a um alto custo) sacrifica um desejo e joga uma carta no topo do deck sem pagar seu custo ou a retira do jogo. Nada excepcional, falando assim. Outra carta, que só eu gosto, é uma corujinha fraquinha cuja única função é, ao entrar em jogo, te deixar ver as três primeiras cartas do baralho, e arrumar na ordem que quiser. Junto com outras cartas de comprar carta e de ordenar o baralho, o espírito do deck é me deixar saber o que vem a seguir e então em planejar de acordo, jogando com as cartas na minha mão e as do deck, escondidas.

Jogamos num esquema de Hat, que funciona assim: antes do jogo escrevemos o nome de cada jogador num papel separado, dobramos e colocamos todos num chapéu, com um Yes e um No adicional. Quem pega um nome só pode atacar aquele nome, o Yes pode quebrar geral, e o No fica na sua, na moita. Quem pega o próprio nome equivale a um Yes. O jogo fica meio truncado e é péssimo pra decks de jogo rápido ou de controle, pois permite que os grandes decks aloprem seus exércitos antes do Armageddon que é o quebra-quebra geral. Ninguém sabe quem o outro tirou, então é extremamente temerário sair na chuva pra se molhar sem saber como está a mesa, quem pegou o quê, e, mais importante, quem quer seu pescoço.

Resultado: jogo extremamente tenso, durou mais de três horas, fácil. Em certa altura o jogo finalmente abriu, e tínhamos o seguinte status: Eu, ferrado, Os decks de Jean e Demo entulhados de inimigos, e Carlos controlando a galera. Eu tava tipo na merda, só que, meus amigos, um azul na merda é um azul na espreita. Quem joga sabe: azul se mata rápido, sem misericórdia. A seguir rolaram algumas rodadas extremamente sanguinárias, ao final das quais, Carlos sobreviveu só, com todas as criaturas do jogo em seu controle, apontando pra mim, e um HP IMENSO, que eu jamais seria capaz de vencer com meu gênio furreca.

Nada de relevante nas mãos, usei o que tinha de irrelevante mesmo assim, umas magias bobas, só pra fazer o drama. Pra se invocar a deusa da Fortuna você precisa se mostrar aberto, ansioso, pronto pra guerra. Eu sabia que, naquele momento, eu só tinha uma chance. No meu deck inteiro, tinha uma, somente uma carta, que poderia me salvar. A noite estava cansada, todos desanimados com a lavada que nosso primo, mais velho, óbvio, ia nos causar. Ia ser bonito, evidente, ganhar assim não é fácil, requer habilidade. Mas eu precisava não só de habilidade, mas de sorte, muita sorte.

De mãos vazias, me preparei pro show: “vocês já assistiram Maverick? aquele filme do Mel Gibson, em que ele ganha o jogo na última carta possível? Pois bem, my fellow mates, agora vamos a um momento Maverick, e veremos e a Fortuna será hoje minha consorte.” O gênio tinha 3 desejos sobrando. Gastei um, era uma carta irrelevante. Gastei outro, e também não me ajudou. Só faltava um, tudo ou nada, uma cara em 30 e poucas. Gastei o desejo restante e virei a carta direto no jogo.

O silêncio caiu na mesa, antes de eu começar a gargalhar muito, muito alto. Pra ser sincero, eu não lembro nem qual era a carta exata, só lembro do seu resultado. O texto era algo em torno de “todas as criaturas em jogo passam ao seu controle”. Assim eu tomei TODAS as criaturas dele e dei-lhe uma pancada violenta, one-hit-kill de dúzias de pontos. A única carta era a minha carta, e a última carta era a minha vitória. Maverick time, baby, I WIN.

Quando você quer chamar a deusa Fortuna tem de chamar com vontade, com vigor. Dizer que VAI ganhar, prometer amor eterno. Saber que vai ganhar ou perder, mas ter certeza que PODE ganhar, que o impossível PODE se fazer concreto. Apostar é arriscar. Para tudo que listei há uma probabilidade que é matematicamente previsível, e nada é absurdo. Eu sei que se me prestar a decompor cada evento da minha “sorte” ou “azar’ vou ver que busco sempre, à moda de Maquiavel, tentar maximizar as chances da sorte e reduzir as chances de azar. É óbvio. Mas isso não tira a mágica de apostar, de mesmo contra as chances, contra os números, tentar, nem que seja pra, ao fracassar, ter tentado. E sempre poder dizer, com peito estufado de coragem e empáfia: It’s Maverick time, baby, it’s time to WIN.

Setzer would be proud, I think.

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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3 respostas para Desejos e Fortuna

  1. @Chicaomar disse:

    total 0wn4g3

  2. Guliver disse:

    Pois é… me sinto simplesmente um velhote da Sociedade da Justiça vendo os garotos da Liga da Justiça enfrentarem ameaças intergaláticas.
    Eu sou da época do Anjo Serra, Vampiro de Sengir, Dragão de Shiva…
    No dia em que for jogar Magic de novo vou passar uma vergonha do tipo “velhinho dançando rock and roll”

  3. Felipe disse:

    Sabe que essa sua deusa da fortuna é uma dama promíscua, pois não. Eis que andava essa moça por Natal e em nessa sua estadia eu encontrei o celular que havia perdido sem termianr de ter pago, cinco reais no chão – que serviram para pagar um estacionamento que de outra maneira eu não teria como – e assim, sem maiores explicações, um trabalho que eu não havia feito e estava resignado a me apresentar derrotado ante a uma turma inteira de petrobobos, foi adiado para em oito dias. Tudo isso em uma semana.

    Essa deusa não ampara apenas aos bravos, apoia também os boêmios despreocupados…

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