Sombra

Quando o sol se descortinou, o inferno se revelou vertical. A sombra sob a copa de uma árvore estava a alguns centímetros, ou mesmo milímetros, da luminosidade incandescente que alimentava a grama, tostava a areia e ressecava tudo e qualquer criatura composta de carbono e água que se atrevesse a aparecer. O sol era o Hades, e a sombra, o Elísio. Sua posição horizontal discernia seu estado de espírito, sua condição física e mesmo seus sonhos. Na sombra, uma rede, praia, água de coco. No sol, a sombra. Mas o inferno estava lá, como se empilhasse camadas e camadas de fogo e enxofre sobre as costas de quem desafiasse o diabo. Invisível, como sempre em sua eterna desídia, o demônio pesava sobre os ombros humanos seus cascos podres – ou garras retorcidas, como preferir – e sibilava com sua língua bífida mentiras deslavadas – ou verdades inconvenientes, talvez – nas mentes dos fracos. Entre hordas iluminadas e transeuntes atordoados estava um jovem, no sentido mais intrínseco da palavra. Recém-adulto, pós-adolescente, naquele intermezzo que separa a experiência da curiosidade. Calças jeans, camiseta branca, cabelos desgrenhados e um heróico par de óculos escuros. Todo o seu corpo transpirava e ardia na brasa causticante, menos os olhos, protegidos e serenos, em espera. O rapaz aguardava no sol. Ao seu lado havia duas cadeiras protegidas da ira solar. Uma estava ocupada por uma senhora idosa, quase centenária, e a outra estava temporariamente vazia. Seria ocupada em breve, assim que o senhor, aparentemente marido da senhora idosa, se desse conta da sua idade e desistisse de tentar ficar em pé, torturando seu corpo desgastado. O rapaz, que estava sentado, se ergueu como cortesia, antes mesmo de ser requisitado, sob negativas veementes do casal: isso não seria necessário. Viver não é necessário, nem por isso deixamos de achar certo viver. Tomar sol é bom mesmo, faz bem à saúde. Partes do nosso corpo se ativam quando nos colocamos sob o sol, partes que nós sequer lembramos. Escondidos em cavernas, satisfeitos em nossas comodidades de home delivery, é bom notar, às vezes, que parte da nossa verve está presa ao sol. Ao inferno, ao diabo, que nos maltrata mas nos dá fôlego e nos faz germinar. Assim nos completamos. Não faltava mais muito tempo pro ônibus chegar. Era naquela época em que já tínhamos aposentado relógios, de pulso ou de bolso, e usávamos celulares como relógio, guardados nos bolsos, para saber o tamanho do nosso atraso ou da nossa ansiedade. O garoto já tinha olhado o relógio-celular trocentas vezes em um nervosismo visível. O mostrador digital não possuia mais os ponteiros e o tique taque, mas trazia uma batida implícita nos segundos, acentuada pelo calor e o rigor imposto pelo sol. Tique, taque, tique, taque, gotas de suor e o mormaço claustrofóbico do sol inclemente eram enervantes. Após duas dúzias de consultas ao relógio, surgiu a dúvida: seria aquele mesmo o horário acertado? Dentro do bolso traseiro da calça estava uma carta amarrotada pelo uso excessivo, que continha um horário circulado em uma caneta vermelha. Aquela era a hora mesmo, aquele era o dia. O dia do encontro, afinal. A carta era breve, mas bem escrita e, acima de tudo, visceral. Desabafos, inseguranças, medos e desejos, todos agrupados formando uma imagem clara e lúcida de simpatia, alguém com os mesmos dissabores e esperanças, do outro lado da distância geográfica, numa sinergia de espíritos. Tudo estava certo com linhas certas, assim como a hora era perfeita, no meio da tarde lacinante de verão, com o sol ameaçando devorar tudo e todos que demonstrassem o mínimo de fraqueza. Naquele dia ele mostrou sua força e se apresentou diante da possibilidade do futuro. Mostrou a verdadeira vitória, entrentou não só o calor, o sol, mas a incerteza, a utopia, a ilusão, a covardia, a paranóia, a solidão. Todos em um só movimento, corajoso. Em uma de suas mãos, uma rosa, já ressecada, balançava nervosamente. As gotas de água borrifadas pelo florista já não passavam de lembrança distante do conforto. O casal de idosos sorriu ao ver a flor. “Bonito, não se vê mais dessas coisas hoje em dia, os jovens não tem mais amor, só volúpia”. O comentário lhe escapou, pois naquele instante um ônibus infinitamente imaginado apareceu em uma trajetória infinitamente prevista, da forma que sua criatividade já tinha antevisto e ensaiado centenas de vezes, por todos aqueles minutos infinitos. Ele se arrumou timidamente, e abriu um sorriso imenso, do tamanho do universo inteiro, repleto de satisfação. Manteve o sorriso enquanto viu cada passageiro do ônibus descer, um por um, menos aquela que ele desejava mais. Ao final da lenta procissão, perguntou ao motorista se não havia mais passageiros, recebendo resposta negativa. Virou-se, entregou a rosa ao casal sentado ao seu lado, e partiu nos braços do sol infernal, com olhos protegidos na escuridão, longe da luz maligna e zombeteira. Naquela tarde, as sombras não foram capazes de esconder o que estava à vista de todos, até as estrelas, sobre o homem só impera o peso ingrato, indócil, do mundo que poderia – e talvez até deveria – ser diferente.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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