Terra

O gosto de areia na minha boca era familiar. A sensação barrenta de argila pontilhada com minúsculos cristais rochosos passeando pelo céu da minha boca com aquele odor marrom e ocre, empedernido com uma sensação imaterial de idade avançada. Na minha boca não era só terra, só areia ou pedras, eu saboreava lentamente o sabor de Gaia, da Tartaruga Divina que nos conduz ao éter do infinito sideral. Degustava o íntimo de cada deusa da fertilidade que já foi cultuada sob este céu, encontrava na pedra, na rocha, o substrato de tudo, a matéria que compõe tudo, nosso carbono sacrossanto que nos molda e forma nosso receptáculo orgânico, assim como as misteriosas forças insondáveis que fizeram, há milênios, desse carbono outrora tosco e opaco, reluzir vida. Ná terra temos todas as respostas, está tudo lá, pacientemente depositado para num futuro distante ser devidamente desvelado, como agora, como eu, como nós. Cada célula do meu corpo urge voltar a sê-la, desespera-se – e no curso despedaça-se, atira-se, sendo finalmente carregada pelos lençóis invisíveis – mas certamente caudalosos – da gravidade ao que anseiam, ao solo. Somos todos terra, a cada passo que damos nos desmanchamos e nos espalhamos pela terra, em ser terra. Antigamente se dizia que cabia, a nós humanos, espalhar e frutificar sobre a terra. Bobagem, nós somos a terra que anda, fala e vê, que se enxerga em cada lugar, que julga ter uma identidade separada desta terra. É isso que nos une, somos a mesma poeira arrogante e desatinada que não percebe que, mesmo voando por quilômetros em rajadas de vento, ainda cairemos no solo, de onde pertencemos. Do pó viemos, e a ele voltamos, um grão por dia. Hoje parto para uma longa viagem, longe da minha terra. Conhecerei outras, me apaixonarei, terei casos frívolos, mas estou condenado a jamais abandonar a minha terra mãe, que me criou, que me trouxe ao mundo. É esta a minha deusa, a quem devo cânticos e rituais pagãos à prosperidade e culto à sua impassividade. Antes de partir, um gesto sincero, mesmo que pouco comum: trago um punhado de terra comigo, em uma vasilha, para me lembrar do que sou feito, quem sou, e de onde vim. São todas respostas para a mesma pergunta, o que me define como pessoa. E a resposta está aqui, nos lençóis freáticos, nas colinas, nos acidentes desta terra. Neste punhado me vejo no passado e no presente. Faço como meu pai: mastigo um pequeno punhado, esfrego meus molares, sinto o seu gosto, e, após, cuspo. Selo meu destino. Juro à minha mãe terra que, enquanto tiver vida, não a abandonarei. Ela persistirá em minha lembrança, e terá o direito de atormentar meus dias, caso seja um filho mau. Me lançará, como uma ninfa, um encanto pueril, destinado a distorcer tudo ao meu redor, fazendo que cada curva e cada verde lembre a terra de onde vim. Envenenará minha vida, me condenará à incompletude, me afogará na saudade até que eu me perca por completo, e, deste mundo, só me sobre as lembranças, dela, da minha terra, minha mãe, que me ensinou a andar, e que preencherá meus pulmões em meus instantes finais.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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2 respostas para Terra

  1. Bruno Cava disse:

    Telúrico. :-)
    Há quem coma terra porque tem fome.

  2. Agatha disse:

    Como você consegue ser tão poético em um texto? Também gosto da coesão dos seus textos, tudo é tão fluído e interligado…

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