Proclamação

O mundo é uma proclamação heróica ideologicamente voltada para o infinito. Tudo é construído e insinuado simbolizando uma eterna repetição, uma vida que prosseguirá por dias, anos e incontáveis invernos, sem objeção. Contudo a vida não é reta, mas curvilínea e acidentada. Não flui em ritmo constante, alternando momentos vagarosos e ensimesmados e rompantes apressados e esbaforidos. Dos mistérios mais intrigantes na existência humana, poucos são mais herméticos que a arte de trafegar entre essas duas instâncias do espaço-tempo: o presente estático e o futuro intangível. A vida que corre e a vida que morre, pacata, de inanição. Saber alternar entre as duas velocidades é um privilégio para pouquíssimos, por diversos fatores, e essa é uma história que ilustra alguns desses elementos, se me concederes a graça da sua atenção por alguns minutos.

Poucos sabem que além da própria natureza aparentemente volátil do espaço-tempo, que é invisível, incontornável, mas terrivelmente concatenado em estruturas confusas insuspeitas ao conhecimento humano, existe uma raiz objetiva e concreta. Existe uma regra, uma corrente, uma mesa, um princípio que dá contornos ao tempo. E, se há uma regra fundamental, há uma forma de trapaceá-la. Quem não enxerga a trapaça está preso no conceito de aparência, sem ver a essência. A essência é o que se esvai das formas, e às vezes precisa de uma ajudinha para ser revelada, nem que isso implique na própria subversão das formas. Inclusive, é muitas vezes na subversão das formas que conseguimos perceber a essência: quando tudo muda, tudo perde o equilíbrio, nos reconstruímos. É preciso saber reconstruir, e, para destruir, saber trapacear as formas.

Para enganar o tempo é muito simples: existe um dispositivo que pode ser construído para essa finalidade. Inicialmente esquematizado na Grécia antiga, por sábios místicos iniciados nos mistérios do oriente e nos conhecimentos arcanos do norte, consiste em uma engenhoca que lembra bastante aquilo que convencionamos chamar de “botão”. Toda vez que o usuário pressionar o “botão”, as linhas do tempo ao seu redor começam a vibrar intermitantemente, dando uma sensação que os minutos convertem-se em segundos, ao menos ao início. Dependendo de quanto tempo o “botão” ficar pressionado, aumenta a aceleração e nos segundos passam minutos, horas, meses, décadas. Segure firme, e séculos se passarão antes que você se dê conta que os impérios caíram, como costumam cair.

Certa vez um desses artefatos chegou às mãos de um garoto qualquer. Ganhou o objeto em uma aposta de outro rapazote, que havia tomado emprestado do seu irmão, que recebera da namorada, que comprara de um cigano, que herdara do seu avô, que encontrara na guerra na casa de um ouvires que recebeu a peça como pagamento de um garoto qualquer. Quando tomou em suas mãos pela primeira vez, notou que além de estranhamente pesado, o item possuía uma certa aura misteriosa. Não fazia qualquer barulho quando sacudido, dando a impressão que se tratava de uma peça única sólida. O botão, quadrado com os cantos arredondados, não emitia qualquer som se apertado. Inclusive, nas primeiras tentativas rigorosamente nada aconteceu. O garoto apertou sucessivas vezes, em intervalos ágeis, e aquilo parecia ser somente um botão quebrado de alguma engenhoca velha, a despeito da aparente importância austera.

Àquela época a vida era muito simples, como sempre é até certa época, em que do nada os problemas se multiplicam a tal ponto que há mais problemas que vida. E, como não podia deixar de ser, o maior problema daquele garoto era, àquela época, uma garota de cabelos bonitos e olhar interessante. O garoto tamborilava os dedos em ansiedade, alternando ritmos e pensamentos, se perguntando o que se passava por aquela alma enigmática. Dedos pra cá, dedos pra lá, morde a língua, coça a cabeça, o tempo não anda, a vida não passa. Encastelado em seu quarto, suas mãos pequenas investigavam o objeto desinteressadamente, tendo o tato por olhos opacos, passeando entre fissuras, ranhuras e superfícies polidas. Após alguns segundos em uma movimentação errática transferiu o tamborilar ritmado para o botão. Pa-parara-pa-pa, Pa-parara-pa-pa. Pa-parara-parara-pa-pa! E segurou mais, pensando na rotina mundana que precisava percorrer até encontrar a única pessoa que queria encontrar de verdade, bem mais tarde. E, na pressão dos seus dedos, o mundo todo fugiu.

A palavra é exatamente essa, fugiu. Quando o tempo passa, o mundo foge. Pessoas ficam pra trás, perdidas, enquanto o mundo corre, e corre muito, como não só tivesse pernas, mas pernas longas e incansáveis, dando longos saltos, deixando pra trás memórias, rastros e dúvidas. Mas a extensão dessa corrida frenética ainda era desconhecida pra nosso bom garoto, e talvez só será exatamente conhecida por você, leitor, ao final desta história. O quarto ficou lá, parado, mas tudo mais parecia flutuar em cores borradas como faróis de carro no trânsito, indo e vindo. A mãe do rapaz entrou e saiu como uma borboleta, depois o pai, depois ele mesmo saiu, almoçou, jogou bola com os amigos, voltou pro quarto, recebeu visitas de amigos, e tudo isso transcorreu antes mesmo que o garoto pudesse se dar conta que sua mão estava cerrada naquele estranho botão. Quando se deu conta do objeto, largou, e tudo parou em seu devido lugar, sem mais brilhos e rastros, tudo estático e solene.

O garoto ficara atordoado, embasbacado. Olhou para o relógio e percebeu quantas horas haviam se passado em questão de segundos. Tudo o que aconteceu durante esse período parecia nebuloso, apagado, opaco, irrelevante. Não que não fossem atividades até interessantes, ou fosse algo intrinsecamente doloroso. Antes fosse, de certa forma. O grande mal dos nossos tempos é a falta de extremos para nos polarizar. Nada dói demais, nada ofende demais, tudo é parcimoniosamente levado adiante, aos poucos, um passinho por vez. São atividades perfeitamente toleráveis individualmente, mas que concatenadas nos jogam em um imenso jogo de amarelinha sem escapatória, somente uma promessa de céu. Pula-pula-pula. E ninguém sabe exatamente onde começou o jogo. Só andamos adiante, e isso é perfeitamente normal. Perfeitamente normal seria também, então, pular logo isso tudo, quem sabe assim não vemos, antes de morrermos completamente por fora e por dentro, um vislumbre do céu?

De pouquinho em pouquinho ele foi se esquivando de cada ação e atividade banal, até o momento crucial, da festinha que esperava há semanas. Era uma espécie de bailinho com a turma da escola, entre outros convidados. Não era grande coisa, a organização tinha ficado por conta de um pessoal não muito inspirado e disposto, então o rapaz tinha absoluta certeza que podia esperar uma festa chata, com música ruim, carência de comes e bebes e, se brincar, algum desastre da natureza. Caos convida caos, e aquela festa era uma proposta irrecusável, nem um meteoro seria surpresa. O que realmente importava era que o bailinho – apelido ridículo empregado sobretudo pelos detratores do evento, cujo nome oficial era “Noite Imperial”, um nome tão antigo e defasado quanto o colégio em si – funcionava como uma desculpa social coletivamente acordada pra chamar as pessoas para sair sem despertar atenção ou conchavos. Todos combinavam encontros com paqueras que seriam perfeitamente plausíveis em qualquer outro dia do ano, mas no bailinho, ah, qualquer coisa podia acontecer.

Levou o botão por precaução. Se tudo desse certo ele gostaria era de descobrir uma forma de mudar seu funcionamento, de forma que o tempo pudesse se esticar pra sempre, congelando tudo num retrato de detalhes infinitos. O plano era simples: encontrar a menina, flertar de forma milimétricamente desinteressada mas atuante, e, após um período razoável de tempo, se afogar em seus braços e beijos. Foram meses de preparação, tempo empregado em descobrir cada um dos seus interesses, agradar-lhe com presentes, recebendo em troca sorrisos tímidos e olhares de soslaio. Vestia uma roupa também planejada para aparentar um desleixo calculado, disfarçando a importância e ansiedade da ocasião.

E eis que surge a dama, fulgurante e bela, O tempo para, etc etc, tudo move tão devagar, etc etc, o universo todo faz sentido por uma fração de segundo. Tudo parece perfeito quando ela está presente. Ela se aproxima com a leveza de uma borboleta e encanto de rouxinol. Caminha, serena, sorridente, com um perfume irreconhecível, pois identificar qualquer cheiro exigiria alguma faculdade racional naquele momento indisponível, visto que nada, rigorosamente nada no mundo existia, além daquela moça. E ela chegou, falou com nosso rapaz, deu-lhe um breve abraço e sussurrou algo em seu ouvido, que não vou lhe dizer por uma questão de privacidade, não é essencial à história. Gesticulou para se fazer entender naquela música alta e lacinante. Ela gesticulou de volta. Ele sorriu, satisfeito e tranquilo. Ela sorriu de volta, deu-lhe um beijo no rosto e disse com a mão que precisava fazer alguma coisa e já voltava.

Tique-taque, tempo passando, tempo passou.

No grande teatro que é a convivência em sociedade, há muitos personagens, mas poucos verdadeiramente relevantes. Alguns são meramente reedições caducas de arquétipos antigos, outros são simplesmente dispensáveis. Não contribuem para o avanço da história, e, portanto, devem ser deixados de lado, para sumir na obscurescência, sem qualquer pudor. Esquecer é vital. Mas entre os muitos homens e mulheres zanzando por aí num tablado sem marcação, a maioria ávidos por respostas fáceis, espiadelas no grande roteiro, nem o mais ardiloso ator pode ignorar esses pequenos pontas, que interagem e consubstanciam a história com pequenos trejeitos e detalhes às vezes surpreendentes.

Naquela ocasião, esses participantes tímidos roubaram o show. Casais tão apaixonados que eram incapazes de se declarar, ficando somente em uma sucessão de conversas evasivas e inseguras. Grupos de amigas se congratulando mutuamente por sua beleza ao mesmo tempo em que odeiam e invejam a beleza das outras, tão perfeita, tão irretocável, tão injusta. Uma garota isolada, num canto qualquer, sem explicação, como é do feitio do ser humano, agir sem razão aparente. Meninos demonstravam que não passam disso, entre brincadeiras adolescentes e frustrações adultas. Todos de acordo ao grande plano, como não podia deixar de ser. O nosso herói observou todos, pacientemente, aguardando sua musa voltar. E ela não voltava. Após alguma relutância fez uso do botão. Primeiro em doses pontuais, depois, cego pelo desespero, apertou o botão como quem segura uma laringe, e um esôfago, e um coração quente e pulsante, entre os dedos, comprimindo alvéolos e pisando, e expulsando todo o ar, todo o ar, todo o ar que existe sob esse céu e em toda atmosfera e mesosfera e ionosfera e troposfera e estratosfera e todas as esferas da vida de quem não sabe respeitar os sonhos alheios. Desde aquele dia, o garoto não soube direito o que era respirar.

Durante a festa a menina não apareceu mais. O garoto tentou se entreter com qualquer coisa viva ou não que lhe desse atenção. Apertou o botão inúmeras vezes. No dia seguinte apertou o botão na escola, no intervalo, pra não ver aquela pessoa indesejada – ou tão desejada que era desumano só conhecer o seu não-ser, sua falta e carência. Ignorar as aulas foi uma consequência lógica. Depois a faculdade. Estágio. Trabalho. Doenças. Festas familiares. Re-encontro de amigos. Aquela fase chata do namoro que são só expectativas que serão frustradas e ninguém tem mais paciência de tentar amar o outro como é. Pula isso também. Depois pula o sexo, pula os longos nove meses de gravidez, pula as infinitas – deus, como eram muitas! – consultas com médicos. Aproveita e dispensa também os funerais, os aniversários, batizados e carnavais. Esquece dos projetos do trabalho, e pula os anos que precediam a aposentadoria logo, para, finalmente, poder jogar xadrez no parque, e, finalmente, ser livre.

Xadrez é um esporte aristocrata. Não em sua essência, qualquer um pode jogar. Muito menos no seu formalismo, qualquer pessoa pode desafiar alguém na rua e partir para o embate de intelectos – deus ou mortal, cada jogador precisa, no jogo, provar que é capaz de dominar o tabuleiro, todas as probabilidades. Mas justamente por favorecer o embate de espíritos, ilimitados, concretizados no abstrato, afastados de qualquer contingência. No xadrez – bem como no exercício mental-filosófico – o homem não encontra nenhuma limitação além da sua própria capacidade intelectual. E seres humanos costumam ter um histórico assombroso em negar seus limites. Inclusive sua pretensão de ser eterno, ao contrário de seu corpo frágil e decadente. A alma quer ser eterna, mas o corpo se cansa. Se cansa de viver, às vezes com alegria, outras vezes com decepção – foi para isso que fui criado?

Numa manhã de terça-feira qualquer, o velho-jovem (ou jovem-velho) sentou-se pacientemente para jogar uma partida contra quem quer que aparecesse, mesmo a morte ou o destino. Qual não foi sua surpresa quando aquela figura surreal apareceu: era um garoto de olhos e cabelos negros, compleição física frágil e movimentos suaves, que, por alguma razão, era azul. Azul. Pele azul. Fundo dos olhos brancos, íris negra, mas, no mais, azul. O velho ficou estupefato, imóvel diante daquela figura incrível. Ao seu redor, diversos passantes iam e vinham, e nenhum deles parecia se importar. A verdade é que se viam o menino azul, não enxergavam nada de surpreendente. O menino sentou-se, e desafiou o velho para um jogo de xadrez. Relutante, o velho anuiu: quais seriam as intenções daquela criaturinha exótica? Qual a razão daquilo tudo? Peão adiante, vamos descobrir. peão adiante, peão adiante, bispo na esquerda, voa o cavalo, peão adiante, torre deslizante, peão caído, cavalo correndo, torre desvairada, peão relutante, rainha triunfal, bispo acovardado, peão adiante, peão ferido, cavalo seguro, peão indeciso, torre vigia, cavalo morto, rei deslocado, bispo caído, rainha fugidia, triunfo fugidio, castelo manchado, corredores abertos, bispos amargurados, rainha vingativa, silêncio perdido, minutos passados, horas voaram, rei capturado, o reino caiu.

O jovem-senhor olhou com satisfação para o garoto-azul. O garoto-azul sorriu, tranquilo. “Venci”. “Vocês sempre vencem aqui”. O jovem-senhor ficou ligeiramente surpreso e curioso. “Como assim?”. “Vocês, chegando aqui, sempre vencem”. Coçou a cabeça, perdido. “Vocês quem”. “Vocês”. Disse o nome do velho-garoto, o nome dos seus pais, seus filhos, seu lugar de nascimento, mas não achou prudente dizer o lugar de sua morte. “Você me conhece?”. “Eu conheço vocês”. “Nós quem?”. O garoto-azul riu com carinho da ingenuidade do velho enxadrista. “Você é um de muitos. Como você, infinitos outros garotos apertaram o botão para trapacear o tempo. Cada vez que o botão é apertado o mundo inteiro é replicado em uma versão diferente, fruto da sua decisão. Quando o tempo foge, deixa outro mundo pra trás, que não desejou fugir. O mundo que restou queria estar como estava, naquele instante, entendeu a importância de cada instante, por mais breve, pra formação do futuro. Se você não superou o passado, não formou deste a elevação da sua consciência, você vai repetí-lo até que consiga. Todos que usam o botão são, de certa forma, eternos, mas transitórios. Ignoram o tempo, mas, afinal, nunca saíram do tempo, nem por um breve instante”. Com as mãos tremendo, o velho-jovem começou a reagir negativamente, ignorando qualquer sentido ou realidade naquele testemunho absurdo. Nada, nada, rigorosamente nada, daquilo fazia sentido. Mas-mas-mas, não-não-não, Como assim, como faz? Quem disse, quem você é, quem disse, como assim? O menino-garoto levantou a mão em sinal de pedido de silêncio e continuou: “um de Vocês já aprendeu, na juventude, a importância de saber ficar só. O que aprendeu, pode viver em paz consigo mesmo, sem precisar da validação dos outros, e ali encontrou a sabedoria. Outro aprendeu que se você tiver paciência, vai perceber que ao final de cada lição há um aprendizado que compensa o esforço. Lembro-me de um de vocês que insistiu muito em algo que acreditava, e ao final conquistou uma comenda nobiliárquica admirada em várias nações! Vocês são muitos, e todos sempre foram movidos por escolhas e consequências”.

Mesmo totalmente perdido diante daquela situação insólita, o jovem-velho resgatou forças de todo o seu corpo para gritar: “Eu só sou um, ninguém mais sou eu!”. Com o mesmo olhar sereno de antes, o garoto-azul apontou para o tabuleiro de xadrez. “Meu filho, você vê estas peças? São todas você. Nesse jogo em que você joga sozinho você enfrenta, todos os dias, suas opções. Você já foi este bispo, este cavalo caído, esta rainha morta, este rei conquistado. Olhe de perto e veja, são todos o seu destino, com quem você joga todos os dias”. O velho-moço aproximou-se, incrédulo, somente para constatar que em cada peça havia seu rosto entalhado. Havia várias aparências, mas era ele, e ele sabia disso. Algo ali lhes trazia unidade, algo havia de comum. Se era a sua sina maldita – ou seria dádiva abençoada? – ou simplesmente o agir histórico, por alguma razão, todos eram espantosamente iguais. Alguns mortos, outros vivos, uma repetição constante de algo completamente diferente. Dominado pelo terror, o velho-moço perguntou, sem fé, com alguma idéia de qual seria sua resposta: “Mas… não posso fugir? Estou aprisionado aqui, assim?”. Pela primeira vez o garoto-azul desfez seu sorriso habitual. “Não, você se aprisionou aqui. Você, e ninguém mais, é o arquiteto do seu destino. Cá estás por, a cada escolha, ter escolhido a não-vida em detrimento da vida. Ter escolhido a não-dor em detrimento da dor. O não-tempo em detrimento do tempo. Você escolheu fugir em vez de escolher. Mas, para a alegria de vocês, sempre há um de vocês que desistiu de fugir. A todo instante, a cada momento, há um de vocês que desistiu de desistir.”

E continuou: “Um de vocês já empenhou esse botão numa aposta, confiando que o acaso fosse tirar aquele artefato maldito de si. Outro presenteou o amor da sua vida para que sem ela nunca, em momento algum, o tempo passasse. Outro vendeu para uma bela jovem a sua única chance de correr sem as pernas, perdidas para o frio e a doença, nem que fosse fugir correndo do mundo inteiro. Outro deixou para seus descendentes, esperançoso que, chegada a sua hora, fossem capazes de abdicar da escolha de fugir do mundo, e resistirem inamovíveis. Outro jogou pela janela em meio a um bombardeio, consumido pelo aroma de carne queimada e dor enebriante, que massacrava e massacraria toda sua estirpe para sempre em memórias indeléveis, sem absolvição, nunca. Outro foi empenhado por um homem descrente no amor – mas, de certa forma, crente que a vida permaneceria mesmo assim -, e, que, após não ser resgatado, foi entregue a um ouvires que nunca conheceu o real valor de um diamante, quiçá seria capaz de reconhecer o valor de um botão perdido, quadrado com as bordas arredondadas, mas terrivalmente opaco”. “Mas como posso fazer para desfazer esse ardil, quebrar esse feitiço que me condena?”.

Em algum lugar, em alguma curva desatinada do tempo, havia um garoto. O garoto sentava apreensivo e irriquieto. O garoto esperava o tempo passar, mas dessa vez tinha medo de passar demais. Precisava saborear o instante, sem se deixar agarrar por suas mãos invisíveis, conservadoras. Não podia voar, não podia morrer enclausurado no solo agreste. Sentiu vontade de apertar o botão. Parte de si sabia que aquele era um momento divisor: apertar o botão hoje, e depois amanhã, e amanhã. Não, era preciso lutar, esperar, dessa vez precisaria dar certo. Ou não. Mas era preciso parar de fugir, por uma vez, por toda a eternidade. Quantos botões são precisos para escrever a história da eternidade é um mistério. Mas hoje, um mundo começa e outro termina aqui, e somos todos heróis quando observados no infinito das nossas histórias.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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2 respostas para Proclamação

  1. Agatha disse:

    Nada como aprender a amar o tempo e valorizar cada instante, sem precisar fugir deles, visto que fazem parte da construção do infinito de nossas histórias… http://pequenainfante.blogspot.com/2009/07/o-mundo-e-o-tempo.html

    Que texto e que ideia, http://blog2print.sharedbook.com/blogworld/printmyblog/index.html, haha ;)

    Mas sim, um botão desses seria a perdição para a humanidade…

    E indagações bem relativas ao eterno retorno http://pequenainfante.blogspot.com/2009/08/eterno-retorno.html e sobre leveza x peso ;)

    Gostei, gostei bastante do texto. Curiosa para saber como o email seguiria este padrão, haha.
    E olha que consideração, aposto que fui a única que li o seu texto, atenciosamente, até o final. E valeu a pena ;)

  2. Raisa disse:

    Juntar o Aleph, o mito do eterno retorno e o sétimo selo dá nisso. :D

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