Thanksgiven

Não tenho nenhuma convicção religiosa. Mas isso não me impede de ter uma crença de que a reflexão e o agradecimento devem ser parte da vida. Você precisa continuamente reavaliar a vida e reconhecer os momentos de graça, imerecida ou não. Até o final do ano ainda haverá mais um post de agradecimento, então vamos começar o período de repensar o ano que passou nas costas de um jato. 2009 será para mim, um ano sábio, mas eminentemente rápido.  Ano de muitas idas e vindas, pessoas novas na minha vida, algumas despedidas muito tristes.  Vida complicada em todos os aspectos. Mas, olhando agora – faltando um mês pro final do do ano – esse me parece ter sido o ano do Rei Leão. Isso. Tenha paciência e eu te explico o porquê.

A maior promessa do projeto da modernidade é que, nesse mundo pós-iluminista, nós seríamos capazes de nos definir, de ser quem quiséssemos ser, de fazer de nós, nossa imagem e semelhança daquilo que guardamos em nossas consciências. Eu quero ter uma tatuagem do tamanho do meu (pouco desenvolvido) bíceps? Got it. Quero usar lentes pra ter os olhos da cor que eu quero? Jogo rápido. Quero fazer uma cirurgia de mudança de gênero pra fazer que o exterior se adapte melhor à minha concepção sexual que julgo verdadeira, dá pra se fazer.  Mas além do nosso corpo, há nossa participação na sociedade. A democracia tenta dar a todos a opção de participar no processo decisório dos rumos da nossa civilização. A educação nos dá a liberdade de escolha para seguirmos diversas carreiras, cada uma com uma função clara, como uma engrenagem no complexo arranjo econômico social. O mundo inteiro está me (te) perguntando: como você quer viver sua vida? Qual será sua escolha de hoje?

Em 1994, quando a Disney lançou seu musical Rei Leão, eu tinha 10 anos. Duas coisas me marcaram profundamente nesse filme. Uma era que o trailer em inglês falava “in nineteen-ninety-four”, e assim eu aprendi que os anos em inglês não se contam pelos milhares, mas por em dois grupos. A outra foi as palavras que Mufasa disse, das nuvens, para seu filho Simba: “remember who you are”, lembre-se quem você é. Coincidentemente pouco tempo depois eu ganhei um boné com os mesmos dizeres, que guardei por anos com muito carinho. Volta e meia aparece algum serviço de máquina do tempo para e-mails, daqueles que vc envia um e-mail que será entregue num futuro distante e eu sempre programo pra me enviar essa frase em 5, 10, anos. É a máxima da imutabilidade. Forme um conceito a seu respeito, e atenha-se a ele, seja fiel às suas origens. É imensa a diferença de outros ditados, como “Conhece a ti mesmo ” dos oráculos gregos, ou “Torna-te quem tu és”, de Nietzsche. Ser quem você é faz toda a diferença, mas a primeira questão é quem você quer ser, pra começo de conversa.

Lembro bem que uma das maiores decepções da minha vida foi quando uma amiga de escola disse que eu era previsível. Ultraje, absurdo. Óbvio, evidente. Depois que aceitei minha condição, resolvi transformar minha previsibilidade em confiabilidade  e coerência. Sou uma pessoa coerente. Em muitos aspectos tenho os mesmos problemas que tinha há 15 anos, quando assisti Rei Leão. Gosto de manter um padrão de ação. Assim que eu me fiz. Mas me fiz também tendo amor pela liberdade. A liberdade que eu encontro na faculdade da escolha. Mas falar de liberdade de escolha implica em falar de reconhecimento da diversidade e possibilidade de escolha diferente. Aleatoriedade? O poder para jogar o mundo pro alto e pará-lo com as pontas do dedo e assim escolher meu destino? Isso não me parece nada próximo de constância, ou coerência. A saída lógica mais provável seria assumir a constância no aleatório, nunca ser igual, mas essa é uma resposta de pouca utilidade prática. Os valores da liberdade e da coerência precisam então serem aproximados, equiparados, de alguma forma

Viver é aprender, é crescer. É se encontrar e achar a solução para cada problema à medida em que a vida se apresenta. Para isso contamos com ferramentas como nossas mãos, nossos membros e nossa razão. São meios que interagimos e desvendamos o mundo. É muito difícil pensar que nós estamos preparados para enfrentar todas as tribulações típicas de uma vida comum, mesmo tendo ferramentas tão boas (nenhum carro jamais vai ser tão útil quanto teus pés, ou câmera vai ser tão adaptável quanto seus olhos).  Justamente nessa nossa vocação pela adaptabilidade que precisamos nos confiar. Somos capazes de mudar e acrescentar novos caracteres ao nosso caráter.

Neil Gaiman certa vez resumiu Sandman (se você não leu ainda, leia) como “O mestre dos sonhos percebe que na vida ou se muda ou se morre, e faz sua escolha”. Mas a dualidade é falaciosa. Toda mudança é uma morte, e toda morte é uma mudança, são dois lados do mesmo fenômeno, que é se deixar sujeitar pelo tempo. O tempo exige que tudo mude, e que tudo morra. Você precisa saber mudar, precisa saber morrer. Toda vida estanque é um testemunho ao que o ser humano não deve ser.  Se há um ser, não é ser o mesmo ser sempre.

A proposta grega do Conhece a ti mesmo apregoa um ideal de autoconhecimento. Dentro de nós podemos encontrar, mesmo através de sentidos e impressões indizíveis ou inverbalizáveis, os caminhos que desejamos. Saberemos nos encontrar com aquilo que encontrarmos dentro de nós mesmo. Já Nietszche parte pra uma profecia autorealizadora. Torna-te quem tu és. O que tu és não sabes ainda, pois não chegaste lá. Mas, ao final do caminho vai ter cumprido seu destino, tirado forças do seu caráter para ser um homem maior do que si, ao menos maior do que é hoje. Schopenhauer dizia que ao homem só era possível conhecer seu caráter na hora da morte, momento em que, no último suspiro, você se encontra diante de tudo que já passou, e, podendo ver a obra completa da sua vida, dizer: este fui eu. Este sou eu.

Lembra-se de quem você é. Não esqueça seus valores, sua origem, suas influências. Não abandone seu caminho. E a liberdade de se expressar como pessoa? Como alguém se torna o que quiser? (Brunello feelings)

Esse foi um ano que me ensinou muito sobre minhas escolhas e sobre como eu posso executar meu projeto de vida. Como eu posso ser uma pessoa feliz com minhas escolhas, caminhando pros objetivos que quero na vida. Uma companheira divertida a quem eu possa fazer feliz – e que me faça feliz -, com quem possa ter filhos e viver por aí desempenhando uma profissão que me faça ter orgulho de estar construindo um futuro melhor para minha prole, e para a prole deles, e assim sucessivamente até o final a aventura humana na terra.

Eu não preciso beber até a morte, dar em cima de todas as mulheres do Brasil, ou nada disso, mas eu tenho plena consciência que eu POSSO. Se eu quiser, eu faço. Se não quiser, não faço. Isso chama-se liberdade, a faculdade que nos é concedida – não sempre, e não para todos, infelizmente – de poder dizer quem nós somos, poder nos aceitar publicamente como esse apanhado de idéias, sonhos e frustrações que nós somos. Liberdade de assumidamente escrever nossa história com quaisquer traçados que acharmos necessários. Pulando letras ou sublinhando coisas insistentemente, riscando, rabiscando e rasurando o que nos deixar insatisfeitos. Ao fazer isso, deixamos de nos ver como uma verdade absoluta, mas sim como um esboço que jamais vai ser arte-final. Talvez até seja, na morte e na lembrança, mas você não precisa disso hoje. A perfeição pode esperar.

Hoje eu agradeço pela oportunidade que eu tenho de ser livre, e a liberdade que me permite ser quem eu quiser ser, na medida do possível. Eu lembro-me de quem sou, de quem fui, e insisto em continuar mudando. Minha coerência está nos meus anseios e nas coisas que amo e quero proteger. Meus amigos, minha família, minhas idéias.  Não é lá muita coisa, mas isso me basta, mais que isso é supérfluo. Tudo mais pode mudar. E que tudo mais mude. Eu mesmo posso mudar mais, posso querer ser outra coisa. Mas por hora eu agradeço ao universo pela oportunidade de ter a consciência que cada escolha minha é minha, de minha responsabilidade, não fruto de qualquer limitação ideológica ou frustração. Eu agradeço a chance de continuar vivendo e mudando, e morrendo, e vivendo. Eu agradeço por ter a liberdade de ser quem sou, mesmo que ainda seja incapaz de dizer o que isso quer dizer completamente.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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5 respostas para Thanksgiven

  1. eu sou grata por vc quem vc é
    :*

  2. eu sou grata por você ser quem você é :*

  3. Aline disse:

    Eu agradeço você ter paciência de conversar comigo, porque adoro.
    E agradeço você escrever coisas como esse post, pra acordar minhas sinapses.

  4. Mariana disse:

    estava prevendo que em algum momento do texto você revaria os Brunello feelings!

    eu agradeço pelos meus amigos.
    e pelo ano, que me deu demais, mas me tomou também na mesma proporção. O que significa que eu muito aprendi!

  5. cris disse:

    que bonito, wa, gostei do texto. :)

    eu agradeço todos os dia por ter mais um dia. virou mania a muitos anos. mania sincera, mas mania.

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