Tempos Estranhos – 1

Logo que o reforço policial chegou, todo o escarcéu já estava montado. A vizinhança se acotovelava – desesperada – encarando, cochichando e até mesmo filmando o que acontecia. Eram poucos policiais e logo algum repórter curioso certamente iria furar o bloqueio montado e tirar alguma foto comprometedora, do que quer que haja nesse lugar que comprometa alguém importante. Deve haver algo barra pesada, não faz sentido ter tanta gente aqui. Por certo foi crime passional. Com muitas vítimas. E o cachorro. Nossa, quando matam o cachorro a galera vai ao delírio, é linchamento na certa. Pode matar a vovó, mas se matar o totó, fudeu geral, a casa cai. Afinal, um ser humano pode dar razão a um agressor. Um cachorrinho jamais, é sempre inocente. Melhor amigo do homem. Tempos estranhos em que os inocentes são os cães. Me certifico mais uma vez que os oficiais estão atentos ao que se passa, e não simplesmente dormindo sobre aquelas barrigas imensas, em um torpor hiperglicêmico, em pé mesmo, desafiando a física. Minha mãe diz que o trabalho de investigador especial me deixou amargo. Amargo é o mundo, eu sou um docinho, caralho.

Enfim, após algum tempo eu parei de enrolar e fui finalmente ver do que se tratava. Já tinha formulado as possibilidades, o crime passional sempre saía na dianteira, depois o latrocínio, e ao final o ajuste de contas. Talvez tudo junto, seria uma boa. Esqueci de comentar: era uma casa grande, bonitona. Tinha uma varanda larga, plantas baixinhas no jardim e algumas flores que eu sinceramente desconheço. Às vezes penso que eu deveria saber dessas coisas, pra ser mais CSI e menos brucutu. Foda-se, eu sou bom no que faço, não preciso saber do ciclo sexual das minhocas. Investigação é ver coisa que ninguém mais vê, mesmo olhando o que todo mundo enxerga. E nisso eu sou foda. Então, a casa tinha um muro de meia-altura – desses que eu francamente não sei pra que servem, já que a pessoa que passa do lado de fora vê o que quiser de dentro de casa (ou seja, privacidade zero), e até minha vó atropelada e com duas próteses no lugar de pernas consegue pular sem maior esforço (nada de segurança também). Deve servir só pra criar um marco simbólico entre o particular e o público. Fetichismo, eu acho. Se bem que pode ser pros cachorros não comerem as flores. É, é possível. Sim, mas a casa é grande mesmo, tem uma varanda ampla, bonita, e tem um jeito meio austero, de coisa velha. Casa bonita, eu queria uma assim. Bom, de volta ao relatório: entrei na sala e tinham alguns policiais pra lá e pra cá,  no meio da sala estava o Supervisor, sentado, olhando pela janela pra todo o carnaval instalado do lado de fora, provavelmente se perguntando como diabos ia conseguir debandar a turba ensandecida sem virar um hit no Youtube. Cheguei com minha gentileza e cordialidade habitual:

– “Cadê o defunto?”

– “Não há nenhum.”

– “Como assim? Acharam a galera viva ainda?”

– “Não, não teve crime nenhum, imbecil.”

– “E o que diabos estamos fazendo aqui?”

– “É uma pergunta interessante. Eu diria que é o aqui que é o problema. Do diabo.”

– “O que tem aqui?”

– “A casa.”

– “O que tem essa casa?”

– “Bom, segundo toda essa vizinhança, a casa não estava aqui ontem.”

– “HEIN?”

-x-

Chefia me disse que antes, naquele local, existia um terreno baldio. Alguém ligou pra polícia avisando e daí, pela complexidade da coisa, mandaram me chamar. O lance é que eles não tem só testemunhos dos vizinhos, mas fotos de satélite garantindo que até a noite anterior aquele lugar era o canto mais limpo. Na verdade tinha um mato aí, mas você entendeu. E agora há uma casa cheia de coisas. Mas vazia. Sem ninguém. Fiz uma dúzia de perguntas imbecis pra checar que ninguém tinha cometido um erro imbecil, tipo confundir endereços. Mas a vizinhança tinha certeza que o lugar era ali e que aquela casa estava onde não deveria. A arquitetura não era incomum, então meu primeiro passo foi assuntar se alguém já teria visto uma casa parecida na região. A casa não tinha qualquer registro de ninguém, nem fotos nem nada. Quem quer que usasse aquele lugar, não era muito de deixar rastros. De anormal nela, só o batalhão de curiosos do lado de fora. Qualquer pessoa diria que a casa é um paraíso, bonita, organizada, daquelas de revista de arquitetura. Quer dizer, menos a vizinhança, que já estava conjecturando que era coisa do canhoto, tinhoso, capeta, coisa-ruim. Você sabia que diabo é uma das palavras com mais sinônimos na língua portuguesa? Vem da necessidade das pessoas de arranjarem vocativos alternativos pra não invocar, inadvertidamente, presumo, o capeta. Meu favorito é besta-fera. É selvagem, rude, como se o mal que perverte tudo no universo fosse um gatinho superdesenvolvido. Então, já tinha grupinhos de oração, e eu apostava meu (inexistente) distintivo que já já chegaria um exorcista pra exorcizar a porra da casa. Exorcizar uma casa, onde já se viu? Se bem que casas não se materializam, então talvez nossos métodos convencionais não sejam exatamente eficientes aqui.

Em toda carreira chega um ponto em que, após anos de experiência com aquela rotina de sempre, aquele trabalho modorrento pincelado por animação aleatória e esporádica, os inúmeros relatórios preenchidos sem nenhuma razão aparente além de fortalecer uma burocracia caduca, uma casa aparece de outra dimensão num bairro de subúrbio. Acontece nas melhores famílias. O problema é saber o que fazer a seguir. Você, o que faria se uma casa um belo dia aparecesse na sua rua? Antes de sequer começar a meditar no tópico, consultei meu sensei, o Supervisor:

– “E agora?”

– “E agora o quê?”

– “O que a gente faz, porra.”

– “Olha, a gente tem duas opções. Uma é descobrir que merda é essa que essa casa tá fazendo aqui. A outra é deixar por isso mesmo e esperar que a casa suma.”

– “Tá maluco, como diabos torcer pra casa sumir do nada pode ser uma estratégia? Que palhaçada é essa?”

– “Oras, se meu investigador-chefe vem perguntar a MIM, um funcionário de gabinete, o que fazer numa situação bizarra, pode mandar chamar o Bozo.”

– “É, você tem alguma razão…”

– “Sem falar que ela apareceu do nada, com que lei da física você vai provar que ela não vai sumir? Você não entendeu que essa casa revoga a física INTEIRA?”

– “Não, percebi que o carpete é novo.”

– “Ótimo, eu não faço IDÉIA do significado disso, mas é seu trabalho fazer associações esdrúxulas e me trazer uma resposta coerente. Só não me venha com história de histeria coletiva em massa, essa casa é de verdade, se você lamber você vai sentir o sabor dela, ela não é uma ilusão de grupo.”

– “Você tentou lamber a casa?”

– “Bom trabalho, investigador, até logo.”

Pensei em responder com um “Puta, a casa caiu”, mas seria ruim demais até pros meus padrões. Droga.

-x-

Zumbis, com certeza não. Alienígenas estão entre os suspeitos. Falha no fluxo temporal ou espaço-contínuo? Pode ser. A maior distância entre dois pontos é uma curva, já que o espaço é curvo, já diria Einstein, na Teoria da Relatividade. Com a devida aplicação de energia, a matéria poderia saltar de um ponto pro outro do universo, pegando esse “atalho”. É o fundamento de toda a viagem mais veloz que a luz da ficção-científica. O problema é que isso é ciência ainda a séculos (ou décadas?) do nosso conhecimento, não conseguimos transportar nem uma porra de uma maçã, quem dirá teletransportar uma CASA. Não pergunte como eu sei disso, eu sou foda, já disse. Zumbis são irracionais, e a mitologia deles não tem nenhuma conexão com projeção de matéria transdimensional, então acho que posso descartá-los com segurança. Merda, eu sempre quis matar zumbis. Quando eu era criança sempre era coisa de fanstasma ou de zumbis, quando assistia Scooby Doo. Mas ao final nunca era, sempre era um fazendeiro disfarçado querendo afugentar as pessoas do lugar pseudo-assombrado. Mas aqui o lugar tá tranquilo, qualquer um pode chegar na casa sem problemas. A assombração esqueceu de fechar a porra da porta, a galera achou que tava em casa. Enfim, não é. Ou é uma assombração com carência afetiva que projetou dimensionalmente a casa pra ficar numa vizinhança melhor localizada. Enfim, se for gente boa não tem problema. E quando o exorcista chegar a gente faz a prova dos nove. Podem ser aliens. Mas eles abduzem pessoas, não casas, e geralmente entregam as pessoas no mesmo lugar em que as deixaram. Ninguém abduz a porra de uma casa. Pode ser uma raça nova de alienígenas. É, pode. Qual raça, alienígenas arquitetos? Os incas venusianos tão querendo fazer um puxadinho e vieram fazer engenharia reversa? Eles viajam de planetas além do nosso contato visual, dos nossos satélites mais poderosos, e os imbecis não sabem fazer a porra de um bidê? De um pergolado? Pouco provável. De todas as criaturas fantasiosas e místicas desse universo, quem transporta uma casa do dia pra noite?

Falando em criaturas místicas, a essa altura do raciocínio lógico eu estava sentado no jardim mastigando um matinho quando o supervisor se aproximou de mim. Era um homem competente e infinitamente espirituoso. Está na polícia há muitos anos. Eu também, de certo modo, mas ele já estava há muitos anos quando eu cheguei, então ele sempre tem essa aparência de “já vi isso antes”. Por sinal, ele é um homem gordo e visivelmente lento. Ser gordo é normal, eu sou gordo. Mas sou gordo envergonhado, que encolhe a barriga, que faz exercício e ainda preza por uma vida altiva. Ele é, como a maioria dos nossos colegas, do tipo resignado de gordo. Aquele que olha pra picanha e pensa:

– “Meh.”

Há várias formas que um homem pode reagir diante de uma situação. Ele pode ser de vanguarda, e atacar o problema como um esfomeado ataca o almoço. Ele pode ser enxadrista, analisando um desafio e propondo formulações tétricas antes de mover um músculo. Ou ele pode fazer, como meu supervisor, olhar pra porra da casa que se materializou do nada num dia qualquer e dizer:

– “Meh.”

Gênio.

-x-

(continua)

Anúncios

Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
Esse post foi publicado em Persianas. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Tempos Estranhos – 1

  1. Agatha disse:

    Ó, ó! ;DD
    Alguém feliz aqui vendo o texto postado no blog!

  2. Finalmente, meu velho! Um dos textos mais engraçados que já li, destilando o seu senso de humor escrachado e rasteiro. Muito bem escrito e empolgante. Espero que continue a saga desse hilário detetive.
    – Meh.

  3. Pingback: Tempos Estranhos – 2 « Riverside Hotel

  4. Cristiano Imada disse:

    MUITO BOM!
    ou melhor:
    -Meh.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s