Tempos Estranhos – 4

(Essa história começa aqui. )

Quando acordei estava com gosto de balcão na boca. Tinham me deitado na porra do balcão do bar. Não sei quem me colocou ali, pra ser sincero, meu único amigo no bar era o barman, e olha que eu ia lá com frequência. Com a maioria das pessoas eu brigava antes de estabelecer algum vínculo de afeição. No caso dele foi parecido também, mas isso não é importante agora. Estava vestido com uma jaqueta muito leve, uma calça jeans e uma camiseta de notável personalidade – que algumas pessoas considerariam como gosto duvidoso, por duvidarem das suas personalidades e não terem coragem de vestir uma bela camiseta tão bem-feita. Enfim, me levantei ainda meio grogue, sentando no balcão em seguida. O bar estava vazio, mas o dia ainda não tinha terminado de amanhecer lá fora. O barman estava sentado numa cadeira assistindo alguma coisa na TV.

– “Quanto tempo fiquei apagado?” – Perguntei com minha gentileza habitual.

– “Trinta minutos. Você é duro na queda, hein?”

– “É. Pode-se dizer assim. O que vocês colocaram na cerveja?”

– “Nada especial. Vá olhar lá fora.”

Levantei desengonçado, mas antes de encostar meus dois pés no chão já tinha um pressentimento do que estava acontecendo. Do lado de fora mais uma vez vi aquela coisa incrível: o céu estava amanhecendo em um tom de verde. É como se Deus tivesse esquecido de limpar a piscina por MUITO tempo. Mas não chegava a ser um verde nojento. Sabe quando você aprende na escola que quando você mistura tinta amarela com tinta azul dá verde? Aí você pega um amarelo BEM bonito, um azul BEM forte e o resultado é um verde nem tão bonito nem tão forte? Mas tá lá. Que coisa.

– “Gostou da vista?” – ouvi a voz lá de dentro do bar.

– “Acho que sim. Não sei ainda o que fazer a respeito.”

– “Há algo a ser feito?”

– “Geralmente sim. Preciso descobrir o que causou isso.”

– “Por qual motivo?”

– “É meu trabalho. A cidade toda já deve estar se perguntando o que causou isso, eu preciso evitar o pânico, eu preciso dar uma resposta.”

– “Pois pode tomar um banho, meu amigo, e ter calma, porque todos os jornais estão descontrolados, esse céu verde aparentemente amanheceu assim no mundo inteiro. E o mundo pode esperar você se livrar desse cheiro de cerveja e dessa cara de nada.”

-x-

Depois do banho tomado – desde aquela outra ocasião eu tenho uma muda de roupa no bar – sentei ao lado do barman para assistir as notícias enquanto meditava na razão daquilo tudo. Obviamente lembrei do incidente da casa que apareceu e depois sumiu, e imaginei se tratar de mais um caso de algo extraordinário. Não sabia nem se seria da minha alçada, provavelmente não, mas isso naquela hora não poderia me impedir. Tinha algo na minha cabeça que me martelava, direto, direto, direto, direto. Não sei se era intuição. Enfim, comecei a conjecturar. Algum cientista maluco? Talvez, mas teria de ser algo muito grande pra ser capaz de afetar o planeta todo. Algo como mudar a composição da camada de ozônio, acrescentando algum material de cor amarela pra fazer que o reflexo da luz nas gotículas de água saísse verde, em vez do tradicional azul. Muito complexo. Alienígenas? Pouco provável. Zumbis? Irrelevante. Fungos…

– “Você tá pensando no que causou isso?” – me interrompeu, sem cerimônias, meu colega de bar e de dor.

– “Err… sim, é assim que eu trabalho. Eu teorizo até achar uma hipótese.”

– “Algo em mente?”

– “Não, na verdade nada factível. Isso simplesmente não faz sentido.”

– “Poderia explicar?”

– “Há dúzias de fenômenos climáticos, mas nenhum deles deixa o céu verde. Pode até ser algo novo, mas por qual motivo algo novo surgiria só agora, com milhares de anos de experiência humana? Sem nenhuma documentação no último milênio? Nenhuma previsão científica?”

– “Boa pergunta. Mas sabe o que diziam quando você estava recobrando sua dignidade de pessoa humana?”

– “O quê?”

– “Você sabia que verde é azul?”

-x-

Vou tentar explicar a complexa aula que ele me deu com base em um punhado de especialistas e seus discursos. Queria muito ser especialista em alguma coisa, mas sou filho do século XXI, mesmo tendo nascido no século anterior. Nunca tive paciência pra ser bom em nada, mas sempre achei escroto dizer que eu era bom em tudo. Enfim, segundo os grandes mestres de qualquer ciência, o fenômeno do céu verde teve uma consequência totalmente inesperada. Nós, em nossa língua, temos uma definição relativamente ampla do que são as cores. Temos um nome para cada cor do arco-íris, e geralmente variamos as cores em relação à sua luminosidade, ou à sensação de calor que ela nos proporciona. É por isso que chamamos de azul claro e azul escuro, como se fossem representações do mesmo azul. Acontece que isso não é comum a todas culturas. Há muitas línguas, até hoje, que não fazem diferenciação entre cores consideradas básicas, como azul e preto. Isso pode parecer um absurdo, mas nós mesmo chamamos de “rosa” o que para outros povos seria somente “vermelho claro”. E, de certa forma, as escolhas que fazemos na nossa linguagem, afetam quem nós somos. Uma das diferenças mais drásticas é, justamente, a de que muitos povos usam o mesmo termo pra se referir às cores verde e azul.

É assim com o japonês, vietnamita e muitas línguas asiáticas. Enquanto me servia um gim pro café-da-manhã o barman foi me explicando como isso provavelmente ia gerar uma mudança significativa já a curto prazo nesses povos. Muitos pesquisadores qualificam pela quantidade de cores reconhecidas a sofisticação da linguagem, e, consequentemente, da capacidade de pensar de um povo. Um povo com um vocabulário de 10 palavras, por exemplo, como o halterofilista padrão, tem um padrão de pensamento bem menos sofisticado do que um rato de biblioteca mediano, pra ficar nos extremos ridículos. Isso não muda o fato que o bombadão moeria o estudante de porrada fácil. Mas simplesmente ele veria o mundo em maior complexidade. “Sentiria a dor em toda sua complexidade”, atalhei, mas só pra não perder a piada, expondo que eu tinha entendido a mensagem. O que quer que seja isso, pode ter forçado um pedaço imenso do globo a dar um upgrade em suas capacidades linguísticas. Isso pode ser útil pra alguma coisa? Talvez. Geraria uma formação de uma nova consciência à medida em que os povos caminhassem rumo a uma linguagem mais integrada, reduzindo diferenças e mitigando conflitos? Nem fodendo. Pode não dar em nada? Sim, é possível.

– “Então, qual a grande importância disso tudo?” – Perguntei, na mais sincera ignorância.

– “Nem sei se tem alguma. Mas sei que é uma forma estranha do planeta dizer: daqui em diante tudo vai ser diferente.”

– “Isso não me ajuda a achar a fonte disso tudo.”

– “Porque você insiste em querer achar a fonte? O que importa é onde tudo vai acabar.”

– “E onde será?”

– “Não faço a menor idéia, se brincar é o fim do mundo.”

-x-

Ficamos ali parados por mais alguns minutos, em silêncio, talvez com medo de continuar o argumento. Talvez pensando que estivéssemos testemunhando os primeiros dias do juízo final. Ou os últimos dia da existência do planeta Terra. Tudo isso porque uma casa apareceu, sumiu, e depois o céu ficou verde. Parece exagero, mas não fomos só eu e ele que ficamos perdidos nessa realidade em que a racionalidade não conseguia dar respostas convincentes. Pouco tempo depois do céu ficar verde começaram a surgir os cultos e as seitas apocalípticas. Quer dizer, elas sempre existiram. Tem seita pra tudo nesse mundo. Às vezes eu acho que existe uma seita pra cada pessoa covarde demais pra segurar sua vida em suas mãos, então elas se juntam pra colocarem a responsabilidade de seus destinos nas mãos de outras pessoas, ou de espíritos, deuses, demônios, ou até mesmo bandeiras nacionais. É tudo covardia, digo mesmo. Enfim, no jornal já noticiava-se passeatas em outros países, no que aquilo tudo ia resultar ainda era cedo pra saber.

Falando em cedo, foi o que achamos quando o telefone do bar tocou, poucos minutos depois. Numa hora daquelas? Quem ligaria pra esse bar bendito no meio de uma rua qualquer a essa hora da manhã? O barman foi atender, meio preguiçoso. Quando a pessoa do outro lado se identificou ele fez uma cara estranha, surpreso mas não muito. Ele olhou pra mim e disse, num tom zombeteiro:

– “Tem um sujeito aqui dizendo que te conhece, está na Alemanha, e que seu vôo chega aqui às 17 horas. Ele quer que você o pegue no aeroporto. Ele diz que é seu supervisor.”

Fim da Parte II

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Sobre Wagner Artur Cabral

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