Tempos Estranhos – 5

Para todo homem cujo bom-humor não é exatamente sua melhor qualidade, existe em algum ponto do globo terrestre um clima de simpatia compatível. Existem lugarem em que o granizo é mais comum que o vento, outros em que o vento é mais forte que as corredeiras nos rios, e alguns em que a chuva dói como granizo. E existem lugares em que chove lava. Nesse exato lugar um homem ranzinza lutava pra se esquivar dos respingos amarelo-avermelhados com uma espécie de escudo grego que segurava sobre sua cabeça. Em seu rosto (especialmente as sobrancelhas) um semblante incontestável de: “como raios eu vim parar nessa pocilga de lugar no fim do mundo?”, ao mesmo tempo em que os dentes semicerrados exalavam uma proclamação inconteste de “MERDA MERDA MERDA!”. Seguiu correndo da forma que podia pela planície, que tinha um matagal estranho mais ou menos à altura do joelho. Um certo investigador não poderia deixar de se perguntar: “imagina se o cara tá lá, sofrendo pra salvar o mundo e no meio do caminho pisa numa porcaria de uma cobra, é picado e morre ali mesmo? Tipo, imagina o mundo acabar por causa dos malditos do IBAMA e da proteção dos animais. Imagina só.” O homem seguiu destemido, serpenteando – rá, captou? – entre pequenas colinas e ladeiras, correndo na velocidade em que sua má forma física, suas roupas pouco apropriadas e um IMENSO ESCUDO METÁLICO lhe permitiam. Se isso fosse Hollywood ele provavelmente teria corrido, arremessado o objeto adiante e surfado em cima do escudo, enquanto deslizaria sem qualquer atrito pelo solo da região, se possível ainda passando uma cantada barata na heroína da ocasião. Mas como não é o caso, ele tropeçou numa pedra, e por um breve instante segurou um gemido de dor. Em seus olhos, a dor, o peso da responsabilidade do mundo inteiro. E do maldito escudo. Não tardou muito nessa corrida desvairada até que finalmente aquele homem peculiar encontrasse seu objetivo: um edifício antigo, com uma aura de sacralidade que garantia se tratar de um local de oração. Não dos nossos deuses, mas de deuses que viveram antes dos nossos deuses. Parecia o berço do mundo.

Já dentro do edifício, a escuridão não permitia ver muita coisa. Com alguma habilidade, nosso herói consegue improvisar uma tocha com alguns trapos disponíveis por perto – e com ajuda do fogo que caía, claro. Em meio a corredores e longos com vários símbolos parecidos com runas ou caracteres estranhos, todo o ambiente parece, no mínimo, exótico. Você nota que está escuro. Mas não estava chovendo fogo lá fora? “Esse lugar é mais fechado que prisão” – pensa nosso perspicaz investigador. Muito estranho. Isso porque a arquitetura dos povos pré-colombianos já tinha requintes de conforto ambiental. Vai entender. Enquanto isso, o homem sisudo cruzava vielas, bifurcações, fazia curvas e eventualmente pegava caminhos discretos, escondidos nas sombras. Aquele sujeito parecia ter nascido pra aquilo. Quase destino. Os passos firmes e as mãos fortes e decididas daquele homem imprimiam um senso ímpar de fatalismo: é impossível fugir do destino, é o destino que nos limita, nos forma, nos enquadra, nos revela quem somos de verdade. Determinado, o homem seguiu adiante, até que, inesperadamente, atingiu um grande salão. O salão tinha enormes colunas de pedra dispostas simetricamente ao longo de toda a sala retangular, a uma distância igual entre cada pilar. No meio de todas as colunas, havia uma coluna especial, com uma tonalidade diferenciada, era um azul quase fantasmagórico. Após alcançá-lo, a reação de tocar-lhe com as mãos foi quase intuitiva: algo no azul cheira a revelações divinas, ou herança de sabedoria. Naquele instante aquele homem viu tudo: se viu, viu a razão que o trouxe àquele caminho torto, e percebeu toda a insignificância da existência humana, pelas ranhuras da rocha que sustentava a beleza daquele lugar. Em suas lágrimas era visível a dor, a contemplação. “Nós seres humanos somos venais e vis, poluímos e destruímos nosso planeta por cobiça, servindo a um capitalismo tolo e pueril. Nós não merecemos viver, que venha o apocalipse, meu espírito repousará em ti”, lamentou pesadamente o homem, enquanto finalmente pode, pela primeira vez, ver, através de uma fresta retangular horizontal numa espécie de abóboda no teto, algumas estrelas. E nas estrelas ele viu o infinito, e deitou-se para aguardar o fim de tudo que conhecemos.

– “Que merda de filme é esse?” – Perguntou nosso honesto investigador ao homem que sentava ao seu lado. Não foi bem uma pergunta, do tipo que se faz esperando resposta. Ele sabia a resposta, e inclusive a daria a seguir, como você verá, mas a sensação de ignorância e vergonha da outra pessoa era divertida, então essas perguntas retóricas sempre foram um bom entretenimento.

– “Hein?” – Balbuciou o pobre cidadão, provavelmente desacostumado com perguntas retóricas tão complexas.

– “Nunca, mas NUNCA mande um francês filmar um blockbuster. Não fazem idéia do que é cinema de qualidade. Eles vão querer colocar realismo, sentimentalismo e um pedantismo absurdo. Nada, nada justifica. Nem muitos peitos, e olha que filme francês sem peitos não é filme, e peitos justificam muita coisa.” – Argumentou com uma eloquência obamística.

Após essa curta interlocução uma pesada mão repousou sobre o ombro daquele homem indignado com o cinema contemporâneo, que assistia a uma TV numa das cadeiras do aeroporto.

– “Cheguei já faz meia hora, obrigado por não ter ido me esperar na saída do vôo, imbecil.”

– “Queria ver o final do filme, foi mal.”

– “Imbecil. Bom, agora, vamos salvar o mundo?”

O sujeito ao lado, que só queria dormir em paz pra pegar seu vôo pra Angola oito hora depois, sorri de um jeito meio amarelado. “Isso é realmente mais importante que meu sono?”, cogitou, num pensamento desacompanhado de coragem suficiente para fosse  externado, numa verdadeira digressão retórica. “São tempos estranhos, esses” pensou, olhando os créditos subirem lentamente na TV.

-x-

– “Então, como estava Dortmund?”

– “Na verdade eu apareci em Dresden, numa região histórica muito interessante. Por um acaso peguei uma carona errada e parei em Leipzig, de lá consegui um vôo pra cá, com escala em Dortmund.”

– “Ah, certo.”

Durante alguns segundos o silêncio imperou no carro. O Supervisor estava sentado na cadeira do passageiro, sua pequena maleta caída no banco de trás, enquanto  o Investigador dirigia tranquilamente, cantarolando alguma coisa – sempre no tom errado – pra suprir a falta de som no carro velho caindo aos pedaços. Inclusive certamente havia mais pedaços do que carro, ali. Se houve carro algum dia, ele foi substituído, deve ter até parafuso de tanque naquele amontoado de ferro. Veículos são, em certa análise, um reflexo de seus donos. Eles representam status social, ou mesmo o desprezo por ele. Indicam suas preferências de hobby ou a falta deles. Dizem até seus interesses sexuais, e nesse caso, antes não houvesse nenhum, já que o carro só faria gol contra. “É preciso ser essa metamorfose ambulante”, parafraseava o filósofo baiano em uma interpretação de fazer desesperar até o pai do rock. A vida é essa constante mudança, então é normal que o carro se adapte aos dias. Mas é muito estranho isso já ter acontecido tantas vezes que ele não possuía mais modelo definido. Só quem sabe qual era no começo era seu dono, que disso guarda segredo. Isso chegou a gerar muita encrenca com o Departamento de Trânsito, com MUITAS retificações na documentação do veículo, até que eles simplesmente desistiram e criaram uma nova categoria, “Carros heterodoxos”. Heterodoxia certamente define, a fina ironia de um servidor público com senso de humor corrosivo – e de certa forma eufemista – define também. Mas era um carro sedã com quatro rodas, o que desclassificava os modelos simplesmente estranhos demais – como aquelas bizarrices em forma de donut ou de cachorro quente.

– “Você não acha que deveria trocar de carro?” – Rompeu o silêncio o passageiro ainda se aclimatando à temperatura local, distante do frio alemão.

– “É preciso ser essa metamorfose ambulante” – Retrucou bem do jeito que eu disse que ele faria.

– “Metamorfose ambulante bem que poderia ser refrigerada, não é? Seu salário com certeza te compraria um carro novinho…”

– “Assim dessa maneira, nego, Chicago não aguenta”.

– “O que diabos isso tem a ver?”

– “Jamais deve-se desperdiçar boa filosofia. O sábio baiano já alertava sobre os problemas do excesso de carro nas ruas. Esse carro aqui me basta.”

– “Por deus, esse carro deve poluir mais que Chernobil sem o domo de ferro, não duvido nada que tenha até capacitor de fluxo perdido aqui em algum lugar dessa tranqueira!”

– “Então, quando você vai começar a me explicar como foi parar em outro continente?”

Aquele suspiro pesado preencheu o ambiente como um trecho constrangedor de fala que, após enunciado, subitamente anula todas as fontes de som com seu poder de evocar a repulsa coletiva num ambiente apinhado. O sujeito fala duas horas sem parar sobre sua viagem a Bangcoc e o silêncio cai precisamente na descrição (gráfica) de seu primeiro encontro com o tempero tailandês. Passados alguns segundos o Supervisor abriu um sorriso meio torto e disse:

– “Você sabia que bolas de neve podem ganhar vida?”

-x-

Continuando o relatório:

Eu já ouvi todo tipo de coisa estranha nesse mundo. Coisa escabrosa MESMO. Eu sou até bem pago pra ouvir tudo caladinho e olhar de volta com desdém, naquela careta de “Meh, vi isso quinta-feira passada”. Mas, POXA, aquele dia me surpreendeu. Do aeroporto – ou do ponto em que começamos a de fato falar de trabalho – até a rua da casa que des-apareceu, onde o Supervisor tinha deixado o carro, eu ouvi BASTANTE coisa estranha. Depois até falo mais a respeito. Aparentemente em vários lugares do mundo alguns fenômenos raros ou simplesmente inexplicáveis começaram a pipocar feito… pipoca. Céu verde é pouco, tem mutação genética maluca aparecendo por aí, excentricidades climáticas, até um troço bizarríssimo que aconteceu no interior da Alemanha. Segundo o chefe, existe uma cidade lá que é perto de uma montanha que tem neve durante o final do ano, até fevereiro, por aí. Essa cidade é frequentemente alvo de avalanches. Ela foi recentemente atingida pela neve. Mas a neve não caiu de montanha nenhuma, ela simplesmente se deslocou HORIZONTALMENTE. Parece que com uma espessura específica do gelo e o vento na velocidade e direção adequada uma bola de neve pode se formar até assim, lateralmente, por si só. As bolas simplesmente começaram a se arremessar pra cima da cidade, deixando todos desesperados. E isso não faz sentido algum. Nem destruiu a cidade nem nada, mas mesmo assim. Teria de ser um vento muito mais forte do que qualquer outro já registrado na região. É ABSURDO. Mas aconteceu. E aconteceram muitas outras coisas. O Supervisor disse que simplesmente chegou a um ponto em que ele parou de tomar nota. Até os ônibus estão atrasando por lá, pra você dimensionar a tragédia sistêmica que se abate. O próprio Estado não sabe direito o que fazer, já que as regras sobre as quais está fundamentado aparentemente foram escritas pra outro mundo.

Nosso mundo esquizofrênico de uns tempos pra cá se transformou num circo de horrores no qual nós nem sabemos onde nos encaixamos. Conversamos um pouco ainda sobre como vamos continuar trabalhando, quais são as ordens superiores. Na verdade ainda não há ordens superiores, então vamos simplesmente continuar como estamos até sabermos de alguma coisa pra fazer. É um trabalho bom esse que lhe permite ficar à deriva. Bem que uma piscina me cairia bem. Ou melhor, eu cairia bem numa piscina, não sei porque diabos uma piscina cairia em mim. Será que ia doer?

– “Acorda pro mundo, figura. Meu carro tá aí, pode encostar”.

– “Pera… aquilo é um macaco dentro do seu carro?”

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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