A ilha e eu

You will always be my greatest hit

*Contém spoilers, não leia se você não assistiu a series finale de LOST.*

A primeira vez que eu assisti LOST foi em Belo Horizonte, em 2005. À época eu tinha chegado a menos de um ano dos EUA, mas nunca tinha ouvido falar da série até ir a Minas, quando me foi indicada por uma amiga. Sou péssimo com qualquer coisa com horário fixo, e nem me dignei a tentar assistir. Muito trabalho ter de decorar horário e acompanhar. Um dia peguei, de relance, um episódio passando na AXN. Tinha uma galera com medo de um negócio que fazia barulho estranho. “É um sistema de segurança, é óbvio”. Então os caras caíram de avião numa ilha do Dr. Moreau, que previsível. Perfeitamente claro. Quando voltei a Natal fui assistir a uma maratona de LOST que passou na AXN, junto com alguns amigos. E ali eu comecei a ficar curioso: o que nos espera na ilha?

Eu queria te contar uma história, muito especial. Trata-se de ufrejui que acanfele a tieweter no datejis fafiea. Aí faore greosake, chores gharoe. Afinal, fheqier guahre.

Sensacional, né? O que isso significa? Rigorosamente nada. Mas eu te digo que é uma história belíssima, a mais bela de todas. Aonde mora a estética?

Linguagem funciona de uma forma muito simples, por mais que seja infinitamente complicável. Eu exprimo uma idéia por meio de algo que, coincidentemente, possui um significado aproximado na sua cabeça. É como um passar de bastão, eu te entrego uma informação. Contudo há dúzias de erros possíveis no projeto. Eu posso me expressar mal – tanto na idéia transmitida como a forma de transmitir a idéia -, você pode ter um significado diferente pro termo que eu empreguei, ou mesmo você pode interpretar a minha idéia como análoga a outro termo diametralmente oposto, numa ironia mórbida. Comunicação e diálogo é um eterno jogo de consenso e dissenso, de se fazer compreender em busca de um conteúdo mínimo de convivência. Nós nos falamos não só para comentar do futebol ou da temperatura, mas para sobreviver. É pela comunicação que emparelhamos os bilhões de mundos que coexistem nesse planeta azul.

Um dos conceitos que mais causou impacto na minha vida foi a idéia defendida por Adam Smith (!) de simpatia. Num livro chamado Teoria dos Sentimentos Morais ele diz que os sentimentos são como um espelho que refletimos sobre nós coisas que afligem os outros, para assim podermos entendê-los. Não conseguimos falar objetivamente sobre sensações. “Oi, você me deixa 25% excitado”. “Então, hoje acordei com uma dor de cabeça de 8 kilojoules”. Não é assim que funciona. Eu vejo alguém com dor de cabeça e penso: “como eu me sinto quando estou com dor de cabeça?”, e transponho aquela dor pra mim, pensando: “pobre infeliz, deve estar doendo pra cacete”. Esse “salto” lógico é essencial na experiência humana. Inclusive, a etimologia de simpatia que dizer precisamente isso: sim (mesma) + patia (doença) = simpatia (mesma doença). Compartilhar a dor, compartilhar o sofrimento de alguém. Padecer virtualmente de uma dor que não é sua. Que paradoxal, quem gostaria de sentir uma dor que não precisa?

Mas é para isso que serve a poesia. Transmitir em palavras uma sensação que habita o indescritível de forma a traduzir também o indescritível de alguém. O legal é que a minha poesia nunca vai ser a sua objetivamente: É impossível que nós tenhamos certeza da compreensão mútua, mas mesmo assim chegamos a um comum acordo do que é sentir e partilhar o sentimento. É assim que nos fazemos compreender. E isso não se manifesta só na poesia, evidentemente. Tudo que se comunica serve como meio para transmitir alguma coisa. O artista mais genial é o que consegue ser compreendido de tal forma – ou moldar a compreensão de tanta gente – ao ponto de impactar toda uma linguagem. Se você me perguntar qual é a melhor propaganda que eu já vi eu vou te dizer: É a da Brastemp. Cooptou um significado que não tinha uma boa “bandeira”, um bom “conceito” consolidado e o traduziu como “não é assim uma brastemp”. E isso é menos válido do que Shakespreare fez praticamente inventando da sua cabeça o inglês moderno? Não. É dar voz a uma intuição comunicativa, é dar contornos a uma linguagem.

Um dos livros mais famosos na literatura anglófona é justamente o OPOSTO disso, Finnegans Wake (Ou na misteriosa tradução, Finnicius Revém) de James Joyce. O livro todo é um aglomerado de neologismos numa espécie de para-racionalismo alcunhado como “literatura experimental”. Tá pensando que é brincadeira? Olha um trecho:

“riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, devolve-nos por um commodius vicus de recirculação devolta a Howth Castle Ecercanias.”

Ah, deve ser a tradução que é confusa, eles sempre estragam tudo. Que tal essa outra?

“rolarrioanna e passa por Nossenhora d”Ohmem’s, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por cominhos recorrentes de Vico ao de Howth Castelo Earredores.”

Traduttore, traditore, todo tradutor é um traidor, não há como transpor adequadamente uma língua. Tá bem, então que tal vermos o original?

“riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.”

Joyce não faz sentido pra 90% do planeta. desculpa, 98% do planeta. E olhe lá. Um livro que precisa de um livro pra se fazer compreender (Joseph Campbell é autor de uma das mais comemoradas chaves de compreensão do livro, um guia de como entender a obra) pra mim não funciona como um livro bom, como um bom pedaço de cultura humana. Assim como aqueles filmes intelectuais demais, ou aquele solo de Dream Theater de 20 minutos. A não ser que você tenha doutorado em harpa, virtuose musical experimental excessiva vai te trazer no máximo uma dor de cabeça.

A historinha sensacional que eu contei lá em cima é um exemplo do que poderia ser uma mensagem caduca, de uma história totalmente original, justamente por não se conectar a nada ou a ninguém. Ou quase nada ou ninguém, já que usei conectivos do português normal, que dão idéia de relacionamento, de lugar, etc. Eu poderia, por exemplo, trocar uma das palavras por um nome. Bastando esse simples ato já seria possível reconhecer se tratar de uma história envolvendo mais de uma identidade. Eu poderia colocar uns verbos, aí teríamos ações, e dicas do que afinal, é a história mais fantástica já escrita. De amor? Vingança? São muitas as possibilidades, mas bem menos do que não especificasse absolutamente nada. Quanto mais afastamos do geral mais engessamos a história, chegando ao limiar do jornalismo, narrando um fato único e irrepetível. Se é único e irrepetível, como posso me conectar com ele, como posso com ele estabelecer alguma “simpatia”?

Segundo C.S. Lewis, só existem duas boas histórias. A história de uma pessoa comum em uma situação estranha e a história de uma pessoa estranha numa situação comum. Nós conseguimos nos identificar com os pés enquanto nadamos rumo ao inexplorado com as mãos. Aproveitamos nossa base comum empática entre nós e o personagem/contexto e tentamos entender e depreender daquele elemento que nos traz estranheza. Seguindo essa regra, a estranheza total seria uma catástrofe. Na historieta que propus acima não há nada que o leitor com o mínimo de bom-senso possa se relacionar. Se ele tirou algum significado de lá, na verdade tirou de si, já que o texto falha em comunicar absolutamente qualquer informação. Não é isso que devemos buscar. Devemos desvendar o mistério, dar um jeito, operar um milagre, conseguir fazer histórias que sirvam como convencimento, como educação e, claro, como deleite. Para isso é preciso que tratem de temáticas que sejam pertinentes aos nossos desejos ou pensamentos, é preciso que tragam informações além das que haviam ao começo da própria história e, finalmente, nos proporcionem uma sensação, seja de alegria por ver o mundo se desenrolando de uma forma racional, seja simplesmente nos tornando capazes de comunicar o que antes era sequer impensável.

E eu quero que você pense qual é a melhor forma de comunicar as idéias dispersas no zeitgeist da formação de um novo século, especialmente um século que começou com um estrondo, uma fumaça negra no coração do mundo ocidental – efetivamente o mundo em que vivemos. Imaginem vocês como traduzir a sensação de confusão diante das possibilidades daquele século novo, inteiramente novo, mas tão corroído por velhos vícios, velhos costumes. Se você me dissesse em 2004 que a série mais importante da década teria como um dos personagens principais um membro da guarda iraquiana (que é efetivamente um dos mais cultos e elegantes da história) eu acharia no mínimo curioso. Um grupo de criminosos, mentirosos, drogados, torturadores, fracassados, seriam considerados os “heróis” de uma nova geração?

Histórias de falibilidade são diferente das fábulas de perfeição. Contam uma história totalmente distinta. Não precisamos ser perfeitos, precisamos entender quem somos, e assim nos encontrar e definir um caminho pra ir – mesmo que, como diria Camus, o caminho seja só absurdo incompreensível. LOST, durante seus 6 longos anos de estrada sempre contou duas histórias paralelamente, mesmo que em níveis distintos de paralelismo. Sempre quis contar fábulas de fé e ciência, de bem e mal, de dialética entre opostos muito mais tênues ou arrasadores do que imaginávamos em princípio.

Eu estou exagerando, LOST não foi isso tudo? Sim, é bem provável. Eu mesmo acho que várias coisas poderiam ter sido melhores ao longo da série, melhor respondidas, melhor escritas. Isso importa? Nem tanto. LOST foi sim um fenômeno midiático impactante, e, mais importante, impactou minha vida. Quando comecei eu tinha 20 anos e sem a menor idéia que hoje estaria aqui. Durante cada temporada lidamos com a genuína sensação de estarmos perdidos, conectando pontos em uma grande estrutura de idéias que davam contorno ao sentimento de que não sabemos o que diabos está acontecendo aqui. Me perguntaram se eu recomendaria que alguém começasse a assistir LOST hoje. Não sei dizer. Com certeza a diversão hoje, concentrada, assistindo num DVD no ritmo que se deseja, é bem diferente da nossa que literalmente crescemos junto com a sensação de alienação.

Isso me lembra a sensação que tive ao terminar Harry Potter, de que eu estava no limite da faixa etária pra aquilo fazer sentido. Li os sete livros enquanto ainda estava na escola, mesmo que um pouco mais velho que Harry. A gente cresce junto.  De forma semelhante, nunca uma pessoa que leu Senhor dos Anéis já em sua vida adulta vai ter a mesma sensação de alguém que leu na infância, livre do ceticismo pragmático. E, de certa forma, os questionamentos de LOST foram presença constante no meu crescimento em pleno século XXI. Na formação da minha geração. Nós que vimos tantos personagens misturados num conjunto muli-nacional, multi-étnico, multi-profissional, multi-ético, todos perdidos, absolutamente. Especialmente porque o que interessa mesmo não é a matéria, mas os espaços que ela preenche, as questões sobre bem e mal, existir e morrer, tempo e espaço – isso, filosofia discutida na TV aberta, quem diria. Minha geração baixa programas na internet e comenta em uma gigantesca nuvem de informações que é o Twitter. Nosso mundo é outro do que eu vivi em 2005. E não vejo uma forma melhor de atingir um público tão grande, com tantas camadas, tanta complexidade discreta. Suscitar debates que nos deixam com as mesmas incertezas.

Quando a mãe de Jacob deixou bem claro que perguntas só trariam mais perguntas, acendeu a luzinha clássica dos trabalhos de J. J. Abrams. O MacGuffin (apelido clássico cunhado por Hitchcock para aquilo que é o principal motor da história, o objeto a se recuperar, o final da jornada, etc) não é o objetivo. J. J. Abrams, em tudo que faz, praticamente grita na cara do espectador: PARE DE SE CONCENTRAR NO ESSENCIAL E NOTE QUE OS DETALHES SÃO O QUE NÓS SOMOS. Essas pessoas com quem convivemos, todos os dias, e passamos os melhores dias das nossas vidas, são A nossa vida. Não são as respostas que trazem mais perguntas que interessam, mas a constatação de que nós, que perguntamos, estamos perdidos.

Não é segredo que eu achei o final de LOST mais que simplesmente adequado, sublime. A mensagem final é: É preciso perder cascas. É preciso superar tudo o que passou, retendo aquilo que nos foi essencial, e se preparando para uma nova vida. Longe de mim fazer disso uma proclamação metafísica, é algo concreto mesmo, pra nossa vida cotidiana. Se ampare nos seus melhores amigos, nos seus amores, e você nunca vai estar verdadeiramente perdido, não importa em qual ilha, em qual desastre, não importa se pareça ser o fim do mundo. Sempre vai existir.

Nesse mundo todo novo, em que ninguém sabe direito o que vai ser do futuro, que eu não sei onde vou estar morando daqui a um ano, que não faço idéia alguma de vida e morte, sequer faço idéia se vai chover amanhã, eu gosto de acreditar que é possível viver uma vida boa. Eu reconheço nas alegrias (quem não ficou feliz com o campo de golfe? e a kombi?) e dores dos personagens algumas das minhas alegrias e dores, algumas até que eu nunca tinha compartilhado com ninguém. Não é nada que um bom livro não faria, mas nossa época é assim, ela vai além dos livros, ela busca a sensibilização por imagens, movimentos, música. Não precisavamos de ninguém nos dizendo nosso lugar no mundo, qual é nosso objetivo de vida. Mas talvez fosse necessário lembrar, ao último e solene momento final, da importância da jornada em si. Participar disso tudo me deixou não só menos perdido, como me trouxe a firme convicção que ainda há muito a aprender, that this Island isn’t done with me. Not yet.

My love will always be my constant

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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Uma resposta para A ilha e eu

  1. Mateus disse:

    Caraca! O texto está genial. Creio que você traduziu em palavras o que senti quando terminei de ver Lost.

    Desde que me reuni com minha turma da escola pra assistir o primeiro episódio da série no AXN lá em casa, eu sabia duas coisas: Que acompanharia aquela série até seu último episódio. E que eu gostaria de poder terminar de ver ao lado das pessoas que comecei.

    O chato da vida é que raramente as coisas saem como esperado, e eu não pude terminar de ver a série ao lado dos meus amigos, me perdi de muitos deles, mas fui até o fim com a série. Lost foi uma jornada ‘du caralho’ pra todo mundo que se deixou ir junto, e seu texto consegue recapitular e refletir sobre isso de forma intensa e muito bonita.

    Por estudar roteiro e produção, e querer muito trabalhar com isso depois que me formar, sempre admirei Lost por sua incrível capacidade de conseguir fazer o que as novelas brasileiras já foram tão boas em fazer mas não conseguem mais: Cativar a maior quantidade possível de demográficos (grupos específicos de espectadores) e com características e interesses incrivelmente diferentes. Prova disso é que quando a primeira temporada acabou e eu dei os DVDs pro meu pai, ele viciou instantaneamente, e por incrível que pareça, minha mãe também. Ela não viu até o fim, mas sempre me perguntava como estavam “o moço da cadeira de rodas” e “o iraquiano bonitão”. Fantástico isso. Não só a série era capaz de atrair um público tão diverso, mas foi capaz de nos fazer verdadeiramente se importar com seus personagens e querer saber mais sobre aquele universo, nem que isso nos custasse o debate intenso, e a caça de informações onde fosse possível. Como você mesmo disse trazer em si uma complexidade discreta (ou não tão discreta para fãs mais ardorosos como nós).

    P.S.: Não sabia sobre essa obra do James Joyce que você cita no texto, mas li recentemente uma peça dele chamada: EXILADOS. Você conhece? Estou trabalhando na assessoria de imprensa desse espetáculo que está sendo montado pelo meu professor orientador. O texto é fantástico e mega pertinente para estender muitas das discussões trazidas por Lost. Vale a pena ler!

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