Meu Avatar

O texto seguinte foi escrito para um amigo, como você pode ver, numa lista de e-mails de amigos, em resposta à ojeriza deste ao filme Avatar que, como vocês vão ver, eu gostei. Já falei tanto desse texto que resolvi postar aqui. Espero que gostem :)

abs,

W.A.

Olá, pessoal.

Gostaria de voltar a fazer algo que eu já fiz com mais frequência – if any – aqui na lista: discutir. Na verdade, pra ser sincero, gostar eu não gostaria não, mas me sinto na obrigação, obrigação mesmo. É dever. Simplesmente porque, nos idos saudosos em que a gente quebrava o pau todo dia através destes e-mails, acho que essa lista era mais útil, e, concomitantemente, Pedro sempre foi sincero na sua vontade de entender a opinião alheia. Ao contrário de mim ou João, por exemplo, que eventualmente podemos defender argumentos por esporte, Pedro sempre foi sincero e honesto em querer compreender. E, por Pedro, sinto-me na obrigação de ajudá-lo a entender melhor meu caso com Avatar.

On a different note, também não me sinto confortável em estar do mesmo lado de João Paulo, especialmente tratando-se de Cinema. E por isso pode parecer que isso tudo é uma grande racionalização pos-facto pra poder comprovar que nós temos as mesmas conclusões por premissas diferentes, mas não sei se é esse o caso. Falo só por mim, e a seguir ele provavelmente vai discordar de mim ou só escrever um e-mail com uma linha glorificando John Connor e deixando meu e-mail mastodôntico ainda mais verborrágico por contraste.

A pergunta a ser respondida é: Avatar é um bom filme? E, se for bom, tão bom ao ponto de ser considerado um dos melhores, ou até O melhor filme do ano?

Se entendi corretamente, a resposta para Pedro seria: “Não, nunca, nem de sacanagem.” Pra mim ela é: “Sim, Talvez, Não saberia dizer.” É o melhor filme já feito? Dificilmente. Mas sustento minha opinião ao sair da sessão quando vi da primeira vez: “É algo diferente”. Creio que Vitor Thiago pode ler o restante do e-mail sem sobressaltos, meu argumento é de que justamente essa não é uma questão de gosto per se, portanto, não é sexo dos anjos. Eu tenho – ao meu ver boas – razões pra gostar de Avatar. Vou tentar explicá-las a seguir.

O que faz de um filme um bom filme? Bom, talvez seja contar uma boa história. Mas não é simplesmente a história pela história. Se fosse só isso, nenhum filme poderia ser melhor que um livro, já que no papel as narrativas podem ser bem melhor construídas e esmiuçadas. Então a gente talvez imagine que não é só a história contada, mas a forma que ela é contada, que faz de um filme um filme bom. É a idéia e a aplicação, de novo. Essa dicotomia não é surpreendente: na história do pensamento humano nós naturalmente “evoluímos” (isso é especialmente discutível) do pensar como conteúdo para o pensar da forma como o conteúdo é apresentado.

Em poucos ambientes isso é tão fácil de notar quanto no cinema – e na cultura pop em geral. Primeiro havia o filme em que o bravo cavaleiro salvava a donzela. Depois, o bravo cavaleiro não podia salvar a donzela simplesmente, era preciso salvar a donzela do vilão. Com seu assistente. De um vilão muito maligno. Superando seus dilemas pessoais. Sendo salvo pela missão de salvar alguém. São todos esses vários níveis de enfoque da mesma história chupada de sempre, o bem triunfando sobre o mal, uma das histórias mais bobas e mais tradicionais da existência humana – de acordo com seu credo você pode julgá-la até necessária.

Todas as histórias são reinterpretações de outras histórias mais velhas. Se você acha que existe algo original entre o céu e a terra eu recomendo que cheque o TV Tropes: http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/HomePage. Não canso de falar desse site, é uma das provas mais concretas de como com originalidade nós não trabalhamos. E isso não é necessariamente ruim. As histórias tem valores intrínsecos que se metamorfosearam ao longo da história da humanidade. No começo era: “o leão comeu Joãozinho”, que quer dizer “mexer com o Leão não é saudável”. Depois foi “o Dragão no além-mar come quem pesca longe demais”, que quer dizer “As correntes marinhas podem ser crueis, veleje com cuidado”. E entre tantas histórias, que, ao final, entre sua história dita e seu significado implícito, todas podem ser traduzidas como: “tema o desconhecido”. Imagine toda a cultura humana rotulada em TAGs, e você vai ver como nós usamos padrões interconexos o tempo todo. Brokeback Mountain é Romeu e Julieta. O Aviador pode ser Cidadão Kane. Avatar, bem como Pocahontas e Dança com Lobos, pra falar nos mais evidentes, são versões tropicais de Lawrence da Arábia. Seria uma verdade de fácil conclusão se a história tivesse começado no século XX. Mas são todos frutos da mesma árvore, que é a necessidade que o homem tem de contar histórias e transmitir valores. Agora é a hora em que João Paulo fala sobre a função social da tragédia grega.

Bom, se o conteúdo é uma imensa e extensa reciclagem, como fazemos coisas novas? Nós reinterpretamos os velhos temas, e contamos as histórias de um jeito diferente, para que, através da forma na qual contamos as histórias, elas recebam um novo valor. Amnésia, por exemplo, do Christopher Nolan, é uma história normal, que usa a linguagem pra colocar, você, espectador, na posição do protagonista, um homem desmemoriado. Você, que normalmente seria um Deus capaz de observar a história de fora enquanto ela se desenrola, é amarrado ao chão da ignorância. Então aquele João qualquer num instante passa a ser um João que nem você, estabelece-se uma conexão. Existe o conteúdo, existe a forma, e a forma trabalha como conteúdo.

Então, o que é um bom filme? Eu arrisco que seria um filme que consiga apresentar, na conjugação de sua forma e conteúdo,  algo com o qual você se relacione. Desde um amor como você gostaria de ter, uma situação que você já vivenciou, gostaria de vivenciar (se eu ficar cego vou aprender a dançar tango e NY que me aguarde), ou até a diversão e cartarse irresponsável (no sentido de que não deve nada a ninguém) dos filmes de pancadaria ou o desejo sexual em ebulição num filme de pornografia. Se você assiste um filme e curte, é pq aquele filme obteve sucesso em conectar-se em algo dentro de você, consciente você ou não disso, esteja você orgulhoso ou não desse fato. (E aí entra o guilty pleasure, coisas que vc não deveria gostar, mas gosta. Eu, por exemplo, não posso me sentir bem numa cena de nazistas chacinados, eu me sinto conectado com os nazistas na medida em que, mesmo nazistas, ele ainda são seres humanos. Algum judeu de Auschwitz talvez chorasse de alegria na mesma cena, como redenção).

Avatar é pra mim um filme muito bom por conseguir me colocar na posição de piloto de um Avatar. Um negócio meio Shinji/Eva 01, meio Billy Bates/Capitão Marvel. Um avatar é uma representação de alguém. Jesus é considerado por algumas religiões como um avatar, uma personificação de uma divindade. Em Avatar vi além da história Pocahontas (que é eminentemente racista, um estrangeiro iluminado chega e salva os pobres incapazes de alcançar a iluminação sozinhos. Mas também é a história de Sociedade dos Poetas Mortos. Ou será a história de Batman?), vi a seguinte história: Uma pessoa perdida e sem perspectivas, desprovida do seu próprio corpo, consegue um novo corpo (a melhor cena do filme pra mim é quando ele usa o Avatar pela primeira vez e sente a areia entre os dedos dos pés), e, nessa conquista desse nova chance se percebe mais próximo espiritualmente à sua representação do que ao mundo real. Uau, colocando assim nem parece tão clichê. Mas é uma idéia recauchutada desde Platão. Originalidade passou longe. Mas creio que originalidade aqui não existe em lugar nenhum, talvez só no olho do observador, que consegue naquilo ver alguma beleza ou significado, além do som e fúria.

Uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria. Shakespeare é genial justamente por ser aplicável sempre, em qualquer discussão. Por entender o mais básico do homem, e assim ser transponível às mais variadas adaptações, versões. Isso não é demérito. É capacidade de reconhecer o universal, os temas universais que nos motivam. Amor, ódio, sede de vingança, solidão, teimosia, medo, coragem irracional. É necessário que essa histórias sejam repetidas mesmo, aquelas em que a persistência triunfa, em que o seguro morreu de velho, em que se você for acampar sozinho no Halloween você vai se dar mal. É como a gente transmite quem somos, cultura. Os Na’vi tem aquele troço bizarro de USB. Nós temos cinema, temos conversa, temos e-mail, pra partilhar e estilhaçar quem nós somos e no que acreditamos. Avatar me fez pensar como cada personagem de filme que me conquista é MEU avatar. Eu sou um pouco do Borden, de The Prestige, de formas que vocês talvez jamais saberão. Também quero ser um Mr. Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, mesmo que, acima de tudo, eu me ache um eterno Edward Bloom, de Peixe Grande, um peixe dourado destinado a ser tão grande quanto o meu aquário. Eles são todos eu, da mesma forma que João se vê no John Connor – estranho, eu sei. A diferença é que aqui nós temos metalinguagem agravada por uma nova linguagem. O 3D faz tanta diferença assim? Não, na verdade o genial dele não é jogar bola em direção à platéia, mas tornar a imersão perfeitamente natural. Como se a idéia fosse ver assim o tempo todo. Eu lembro de ter assistido Beowulf em 3D no IMAX em 2007 e achei que certas interações são mais características de um circo ou de um theme park da Disney do que de uma narrativa. Mas vou além da linguagem do 3D. A linguagem genial de Avatar é a criação de um mundo novo que mescla o digital com o concreto de forma surreal, dando cores e contornos “realistas” a algo que JAMAIS poderia se realidade. É uma realidade maior que o real. É algo diferente.

Se vai ser uma revolução dos sentidos, que vai mudar a forma que vemos os filmes, é cedo pra dizer. Que aproveita do zeitgeist eco-friendly da atualidade, é óbvio. Mas essa é a genialidade da cultura: ela sempre arranja uma máscara nova pra passar uma mensagem: quando olhamos pela primeira vez pra imensidão do espaço através da tecnologia jogamos na ficção científica nossos medos e receios mais cotidianos, da mesma forma que na idade média jogávamos pras zonas do além-mar toda a magia e imensidão do desconhecido. Pra mim, Avatar acaba sendo um chamado para um mundo mitológico que é totalmente dissociado da realidade, em um abstracionismo quase irritante ou talvez doentio. Um outro mundo REALMENTE é possível, e ele será gradualmente mais e mais crível. E nós não sabemos mais qual é o mundo real, aquele que queremos ver nos nossos filmes ou o que queremos fazer do nosso mundo real. Nossa cultura é nosso Avatar. E vendo em quem nos tornamos, nós tentamos descobrir quem somos.

Mas isso tudo pode estar apenas nos olhos do observador. Apenas achei que deveria ser honesto, pois Pedro merece.

Obrigado a quem leu até aqui, não espero que concorde comigo. Se você se identificou ou concordou, que curioso, esse e-mail virou seu avatar.

abs,
W.A.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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Uma resposta para Meu Avatar

  1. suzana disse:

    confesso que não vi avatar e nem foi por birra, mas cultivei certo preconceito sim. lí o texto até o final e agora deu uma vontadezinha de assistir. tás me saindo um campbelliano de promeira, hein?

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