Robert “Hob” Gadling, o homem e o mito

A aposta

Imagine a seguinte situação: alguém se aproxima e te oferece um trato. Mais que isso, um teste. Você conseguiria viver para sempre? Você suportaria o peso das dores e alegrias de viver sem limites?

Essa é a oferta feita por Sonho (e sua irmã Morte) na ed. 13 de Sandman (Men of Good Fortune / Homens de boa fortuna. Se não leu corra atrás, se possível leia a série inteira, Sandman é genial), e o felizardo/amaldiçoado se chama Robert Gadling. Sua única obrigação é comparecer no mesmo local em um século, com a única razão de informar se ainda deseja continuar vivendo. Apesar de tudo.

Sobre isso, acho sublime este trecho de Arthur Schopenhauer:

A lei da motivação se estende de fato, como o expliquei no parágrafo 29 do primeiro volume, somente às ações isoladas, e não ao conjunto, à totalidade do querer. A razão disso é que se nós encararmos de imediato toda a raça humana com suas agitações, no seu conjunto e na sua generalidade, o espetáculo que se oferece a nós é aquele de marionetes sustidas, não por fios exteriores, à maneira das marionetes comuns, como no caso dos atos isolados, mas antes movidas por um mecanismo interno. A comparação da atividade laboriosa dos homens, grave e incessante, com os resultados dela extraídos deixa clara uma absurda desproporção que leva a considerar a explicação dessa agitação sem descanso a partir de uma força motriz. O que é, de fato, um curto atraso da morte, uma ligeira suspensão da necessidade, um distanciamento da dor, ao lado de sua vitória tão frequente, e do triunfo certo da morte? Qual seria a potência de semelhantes vantagens, tomadas como verdadeiros princípios motores da raça humana inumerável e sempre renovada, que não cessa de correr, de se lançar, de se apressar, de se atormentar, de se debater, para representar toda a história tragicômica do mundo, que, ademais, suporta a ironia de tal existência e a tarefa de prolongá-la o mais possível? Evidentemente tudo isso é inexplicável, se procurarmos as causas motrizes das figuras, se nós imaginamos a raça humana impulsionada pelas reflexões da razão, ou por um recurso do mesmo tipo (um fio condutor), a fazer esforço rumo a esses bens que a esperam, e cuja conquista seria uma recompensa proporcionada aos seus labores e sofrimentos de todos os instantes.  Se fosse assim, já há muito tempo alguém teria gritado: ‘essa peça não vale o cachê’, e teria deixado o palco.

Pare, respire e continue.

Mas cada homem, ao contrário, vela a respeito de sua vida e a defende como algo de precioso a ele confiado sob uma pesada responsabilidade, e isso em meio a preocupações e necessidades constantes com as quais justamente a existência se dá. O fim e a razão, o ganho final, na verdade, ele não o vê; mas ele se fiou, sem conferir o valor desse algo, dando a sua palavra, e ignorando em que ele (o ganho) consiste. É por isso que disse que essas marionetes não são manipuladas por fora, mas portam cada uma nelas mesmas a engrenagem que comanda seus movimentos. Essa engrenagem é a Vontade de Viver (Caractére du Vouloir-vivre), manifesta sob a forma de um impulso infatigável, cego, cuja razão suficiente não se encontra no mundo exterior. É ela que mantém os indivíduos presos a essa cena (…) Vemos com frequencia um ser miserável, deformado e estropiado pela idade, pelas privações e pela doença, implorar do fundo do coração nossa ajuda para prolongar uma existência cujo fim deveria parecer digno dos desejos mais ardentes; se fôssemos nisso determinados por um juízo objetivo. Mas em lugar da razão o que age aqui é a Vontade, enquanto instinto de vida, coragem de viver; é a mesma força que faz crescer a planta. Essa coragem de viver pode ser comparada a uma corda que seria estendida sobre o teatro das marionetes constituído pelo mundo dos homens.”

A vida é um absurdo que é capaz de levar a loucura qualquer um que busque nela algum sinal de sentido ou mesmo de justiça. As coisas acontecem por acontecer, pronto. Catástrofes, até os ditos “milagres”. São conjunturas de uma história que não tem uma moral definidora, capaz de resumir tudo numa frase só, de explicar o que se passa e nos oferecer conforto.

Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.
(Macbeth, Act 5, Scene 5. William Shakespeare)

O brilhante é a escolha de seguir vivendo, mesmo quando nada parece fazer sentido. Como diria Kipling:

If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

(…)

If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man, my son!

(Rudyard Kipling, If, texto completo)

Rob Gadling foi desafiado: em seu mito reside a sugestão de que homens deveriam questionar os limites da sua vontade de viver. Dessa força irresistível que faz todo ser vivo buscar instintivamente a autoproteção (mesmo que a razão possa tentar superar e até negar esse desejo biológico). Daqui a cem anos, continuaremos desejando viver para sempre?

(Não vou contar o final da história de Robert Gadling, mas você já deveria imaginar…)

"A morte é uma perda de tempo"

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Sobre Wagner Artur Cabral

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2 respostas para Robert “Hob” Gadling, o homem e o mito

  1. Agatha disse:

    Sandman e Schopenhauer juntos! Assim você conquista sua leitora! ;))

    ps. e só para constar, já tinha lido essa específica e magnífica história que você me indicou :)

  2. Raisa disse:

    O que mais me chamou atenção no personagem Robert Gadling é que ele vive eternamente como se não fosse viver para sempre. Explico: ele aproveita a vida com todos os seus prazeres e misérias. Imagino que se soubéssemos que iríamos viver eternamente, passaríamos a maior parte do tempo em estágio de negação da vida. Esta seria um eterno adiamento. Órfãos de Deus, inevitavelmente, acabaríamos fazendo do futuro a nossa metafísica.

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