45 mil 2 mil 10

Se tudo saiu de acordo com o planejado, após eu apertar o botão “Publicar” será publicada na minha conta de Twitter meu post número 45 mil. Em dois anos e pouco de Twitter, é uma bela quantia. Ou uma péssima quantia, se você for do tipo que acha que isso é uma grande perda de tempo. Mas eu não acho que seja, e justamente por essa ser a minha vida – e eu fazer dela o que diabos tou a fim, e não o que fulano ou sicrano acha certo ou bonito – eu posso me dar ao luxo inclusive de comemorar a marca. 45 mil tweets pra mim significa bastante, é uma contagem emblemática de um ano singular. Significa, essencialmente, pra mim, uma coisa: Sal. Vamos com calma, tudo se explica.

45 mil.

Comecemos com Aristóteles. Para o filósofo estagirita (não é estagiário, é estagirita mesmo, natural de Estagira. E você achava que o gentílico natalense era estranho) achava que existem três tipos de amizade. Amizade de prazer, de utilidade e de virtude. Amizade de prazer é aquela baseada no simples e nítido prazer de se estar com alguém. A presença e companhia. Sabe aquele amigo que você gosta de ter por perto. Então. Amizade de utilidade é um pouco diferente, é a convergência de interesses pra alcançar um fim. Companheiros de trabalho, por exemplo. Vocês tem aquela função em comum, e isso gera em vocês alguma similitude e companheirismo. Rola um clima meio Liga da Justiça, por isso também é chamada de amizade de associação. Finalmente, a amizade de virtude, que é fundada na profunda admiração mútua. A contemplação virtuosa gera respeito e aproximação. A amizade perfeita? Aquela estatuída entre homens bons (virtuosos), em uma comunidade de bondade (associação) que está propensa à permanência (prazer, por continuidade). Mas amizade desse tipo são raras, por homens (e mulheres, polícia do politicamente correto) desse tipo serem, igualmente, raros. E mesmo que se encontrem homens e mulheres com essa disposição, ainda assim, demanda tempo e dedicação para se confirmar que ali está uma amizade de verdade, que todas as características descritas anteriormente estão mesmo ali. Que não é só uma ilusão. Isso só acontecerá, segundo o ditado hebreu, quando sal o bastante for compartilhado.

Sal. A origem etimológica da palavra “salário” tem uma raiz meio nebulosa em algum canto entre os soldados romanos e o sal. O termo empregado para denominar o soldo (mais uma palavra aparentada etimologicamente, soldo é o pagamento dos soldados, rá!) era o Salarium. A ideia é que com esse pagamento o soltado poderia fazer suas compras, inclusive o sal, que era amplamente usado na, veja só você, salada. O meu ponto é que o sal é culturalmente importante há milênios. E justamente por sua aplicação gastronômica que surgiu a vinculação entre o sal e os relacionamentos humanos. Para os hebreus, nenhuma amizade existia sem compartilhar sal. Em outras palavras, sem comer junto, sem passar tempo junto, sem compartilhar coisas, não existe amizade que se forme. Elas podem até subsistir sem essa convivência – como é natural das verdadeiras amizades, transcenderem a presença física – mas precisa inicialmente desse processo de aproximação, de certificação. Da desvelação que é descobrir um amigo, que já estava lá, você apenas ainda não tinha se dado conta que é isso que ele é, um amigo.

E essa aproximação é tanta, que, para Cícero, quem está na presença de um amigo encontra-se diante de uma contraparte de sua própria alma. Qualquer vantagem que lhe beneficie, também beneficiará ao outro, e vice-e-versa. E, especialmente, onde quer que um esteja, o outro estará também. Soa extremamente clichê e tosco falar assim, com frases tão profundas quanto um para-choque de caminhão, mas toda essa simploriedade só advém da minha incapacidade de transmitir, adequadamente, a simplicidade. Essas verdades são passadas assim, de um jeito meio tosco, por uma falha do meio, defeito do autor, de descrever apropriadamente qual é essa sensação de pertença. De ter alguém por perto. Mas eu creio que é algo que não precisa ser justificado, é uma verdade auto-evidente. Se você tem capacidade de ler o que estou escrevendo aqui e não sabe o que é ter um amigo, nos termos que já descrevi, está perdendo tempo. Está, mais que tudo, perdendo vida, ao ignorar o fazer de compartilhar essa alegria mediata.

Adam Smith – sim, ele de novo – descreve com a clareza característica dos utilitaristas, o que é essa distribuição de alegria. Eu já falei sobre ele antes aqui, e sobre o conceito de simpatia. Simpatia significa sim + patia, mesma + dor, compartilhar a mesma dor. Em inglês o termo sympathy é mais próximo do significado etimológico original do que o nosso simpatia, em português. Por aqui adquiriu o sentido de jovialidade, sociabilidade. Por lá o sentido é de empatia (uma tradução tosca seria na [no sentido de localização física] + dor, no sentido de se colocar na dor, se posicionar, vindo de fora, como se lá se estivesse), de projeção de reconhecimento. E é precisamente esse o meu ponto, da importância da simpatia. E aqui se resgata o que Cícero falou, reafirmando o caráter reflexivo da amizade, que, numa casa de espelhos, acaba sendo uma espécie de simbiose de almas (se é que isso existe, mas é outra discussão).

Para falar sobre o significado prático dessa conexão, desse intercâmbio de vontades, eu acho melhor chamar o próprio Adam Smith para defender sua opinião. Ou melhor, seus escritos, já que esse negócio de médium não é coisa que me apeteça.

Por intermédio da imaginação podemos nos colocar no lugar do outro, concebemo-nos sofrendo os mesmos tormentos, é como se entrássemos no corpo dele e de certa forma nos tornássemos a mesma pessoa, formando, assim, alguma ideia das suas sensações, e até sentindo algo que, embora em menor grau, não é inteiramente diferente delas. Assim incorporadas em nós mesmos, adotadas e tornadas nossas, suas agonias começam finalmente a nos afetar, e então trememos, e sentimos calafrios, apenas à imagem do que ele está sentindo. (…) Que essa é a fonte de nossa solidariedade para com a desgraça alheia, que é trocando de lugar, na imaginação, com o sofredor, que podemos ou conceber o que ele sente ou ser afetados por isso, poder-se-ia demonstrar por muitas observações óbvias, caso se julgue que não é bastante evidente por si. (…) Nossa alegria pela salvação dos heróis que nos interessam nas tragédias, ou romances é tão sincera quanto nossa dor pela sua aflição e nossa solidariedade para com seu infortúnio não é mais real do que para com sua felicidade.

As personagens que realmente nos encantam são as que conseguem nos arrebatar, trazer-nos para perto de si, ou se projetar sobre nós. Nós que caímos na cachoeira lutando com Moriarty, nós que tivemos a coluna quebrada numa joelhada de Bane, nós que sentimos Sephiroth caindo sobre Aeris, nós que ouvimos o vilão insuspeito dizer “I dit it thirty-five minutes ago”, nós que vimos com Kay Adams a mão de Michael Corleone ser beijada, enquanto a porta era fechada lentamente. Nós que, mais recentemente, torcemos pro pião de Cobb cair. Isso tudo aconteceu conosco. Sensações de dor e prazer são plenamente transmissíveis, com a devida aproximação. E se um herói de um filme de duas horas ou um livro de 300 páginas, o quanto você pode tomar pra si da convivência de anos com alguém? Que você esteve lá no aniversário, na formatura, quando conheceu a namorada, quando brigou com a namorada, quando quebrou o pé jogando futebol, quando passou no concurso, quando não passou no concurso, quando esteve no céu, quando esteve no inferno?

Smith tem mais uma coisa a dizer, ainda sobre esse tema:

A simpatia que meus amigos expressam pela minha alegria pode de fato proporcionar-me prazer, reanimando essa alegria, mas a que expressam com relação à minha dor não pode me causar nenhuma, se serviu apenas para reavivar essa dor. Porém, a simpatia reaviva a alegria e alivia a dor. Reaviva a alegria apresentando outra fonte de satisfação; e alivia a dor insinuando, no coração, quase a única sensação agradável que nesse momento é capaz de receber.

Dois mil e dez.

E aqui que finalmente entra a razão principal de todo esse falatório. Gosto da ideia de celebrar meus 45 mil tweets por tudo que eles me trouxeram. Tem sido uma experiência interessante lidar com tanta gente diferente, fazer tantos amigos, por coisas em comum. Acho que a coisa que eu mais gosto no Twitter é a quantidade de banalidade que podemos reconhecer nos outros. Não estamos tão distantes como imaginávamos em princípio.

2010 foi um ano impressionante, pra mim. Extremamente irregular, desprovido de qualquer tédio. Um ano cheio. Se for analisar com cuidado, talvez tenha sido um ano muito ruim, um dos piores que já tive. De cabeça assim eu lembro de pelo menos duas situações que me fizeram sair do sério, ao ponto de perder a razão e o bom-senso. Talvez haja mais, mas não preciso lembrar. E a razão pela qual eu ainda posso chegar ao final do ano e comemorando o ano que passou – mesmo que, simbolicamente, esteja chutando-o pra longe feito macumba – é por ter reconhecido, na prática, como amigos tem me sido essenciais.

Nesse ano eu descobri o quanto a alegria dos outros pode me trazer alegria, e o quanto a minha tristeza pode se esvair até ficar ralinha, quase invisível, diante do apoio e da compreensão alheia. Descobri que tenho amigos de todas as horas, que me amam antes de me julgar, que me apoiam sem deixar de me criticar. Todos esse clichês, todos, um por um. Descobri que clichês são importantes por serem essenciais, e que partimos deles, dos clássicos, para reinventar novas formas de associação, de prazer, de virtude.

2010 foi um ano longo em que comi muito, mas muito sal. Comi sal com pessoas da FDUFMG, com os amigos de modelos, com minha família, com meus amigos que resistiriam mesmo sem nenhum aposto, sem nenhuma designação, e sempre saberão que são meus amigos. São amigos, porque amigos simplesmente são. Eu vi amigos casando, vi amigos gravemente doentes. Vi amigos se formando, vi amigos sendo aprovados em grandes concursos. Eu vi amigos sofrerem de amor à distância, física ou não. Gente querendo estar junto, gente querendo estar longe. Eu vi tanto, eu participei de tanto, eu aprendi tanto. Eu que fui bobo, que fui tolo, que fui imaturo, que fui tão errado, encontrei alguma paz em meio à turbulência na companhia dos meus pais, da minha irmã e meu quase-cunhado, no cuidado dos meus avós, na amizade incondicional do meu orientador Renato, em amigos como Caroline, Igor, Clara, Marcelo Sarsur, Maria Clara, Lupa, Raisa, Beria (Não rola chamar de Rodrigo, sorry), Marianas (são tantas) e mais tanta gente que me acompanhou, até mesmo os chegados mais recentemente, como Marlos, Atalija e, claro, Laila.

A todos vocês, meus agradecimentos mais sinceros. Tantos outros com quem eu tive menos contato eu gostaria de agradecer nominalmente, mas levaria um ano inteiro. 2010 está de partida, mas eu espero ficar com vocês ainda por um bom tempo. Em 2011 continuarei sendo do mesmo jeito, abarrotado de banalidades e platitudes. Espero que vocês possam contar comigo, pra conversar bobagens essenciais da nossa experiência de vida, seja em casa, na faculdade, no bar ou em mais 45 mil tweets. É por querer estar junto, por ver coisas em comum, e pelo respeito, que se define uma amizade. Obrigado, amigos.

PS: A piada do Estagirita-estagiário foi tosca, eu sei.
PS²: Há outras piadas ruins, quem quiser me zoar o faça pessoalmente.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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