Jair Bolsonaro: homem de seu tempo

 

crédito: jornal O Dia

Se algo não pode ser dito sobre Jair Messias Bolsonaro, é que ele não seja um homem de seu tempo. Militar da reserva, entrou na política determinado a defender os valores da caserna. Deus, Pátria e Família, unidos em prol do crescimento da nação. Quando Bolsonaro, em entrevista ao programa CQC – Em que pese a lástima de ter de ser um programa do nível do CQC o único a se propor a beliscar alguém influente -, chocou a sociedade com seus comentários “intolerantes”, e o fez com tranquilidade e segurança. Nada mais natural.

Uma democracia constitucional é, em tese, composta por opiniões divergentes que convergem sobre uma pequena fração da vida: a vida política. A noção de espaço público, legitimidade do Estado e do Império da Lei, digamos assim. Você pode ser cristão, mas precisa, por exemplo, seguir o Estatuto da Criança e do Adolescente, no que concerne à proibição de castigos violentos, mesmo que em trechos da Bíblia cristã seja aconselhado ao pai que use da força para “corrigir” os filhos. Ressalte-se que há cristianismos e cristianismos, estou somente explicitando um entre tantos, e não é meu objetivo aqui criticar nenhum. Esse pai hipotético seria forçado a limitar sua ação no escopo do convencionado politicamente. Da mesma forma como pais de outros credos, etnias e afins. Essa área de convergência – a qual John Rawls dá o nome de “consenso sobreposto” deve se referir somente ao básico das nossas vidas, bastando que seja resguardado o direito de cada um de desempenhar sua razão e consciência de forma livre, bem como fazer uso de suas faculdades morais para definir o que lhe é justo. Não se espera, mesmo numa democracia constitucional, uma espécie de mistura de todos os credos em uma amálgama ideológica. Não, isso não faria sentido, visto que muitas crenças são inclusive antagônicas, insustentáveis mutuamente. Se há, por exemplo, dois credos monoteístas diferentes, bom, há alguém aí que é ateu e não sabe, dependendo do ponto de vista. O que é desejado, na verdade, que haja uma espécie de bolha protetora na esfera pública que nos permita desenvolver quem nós somos, em nossas paixões e anseios, de forma desimpedida – contanto, claro, que não impeça simultaneamente alguém de desempenhar suas próprias paixões e anseios, caso este em que há formas politicamente asseguradas para solução do conflito, sabendo até onde pode-se ir ou não, mas sempre sob o abrigo do Estado de Direito.

A conduta – para muitos repugnante, eu incluso – do parlamentar Jair Bolsonaro, na verdade não vai longe dos ideais de tolerância da democracia constitucional. No caso, Bolsonaro escolheu seu “conjunto de valores”, extremamente conservadores, e tem ao seu lado a Constituição, nessa escolha. Se eu quiser tomar para mim valores, por exemplo, Amish, e resolver viver numa fazenda longe da civilização moderna, felizmente eu posso. Contanto que eu cumpra com minhas obrigações legais, não há problema algum. Ninguém pode me obrigar a amar cidades ou calças jeans. Não é isso que se pede ao falar de tolerância. No sentido corriqueiro, tolerância implica em impertubabilidade. Assim, juízos morais como o do deputado Bolsonaro podem, constitucionalmente, simplesmente tolerar minorias do seu desagrado. Crime haveria se ele atacasse alguém na rua, como trogloditas volta e meia fazem por aí, açoitando homossexuais, em plena av. Paulista. Esse sim é criminoso, enquanto Bolsonaro não. Ele tolera a divergência, meramente declarando sua opinião contrária. Defender algo além disso seria advogar o crime de consciência, que, esse sim, tem um histórico terrível na experiência política humana. Na inflamada entrevista o deputado alegou que “não voaria num avião pilotado por cotistas”, e, aparentemente, se confundiu quando perguntado se concordaria com o romance de um de seus filhos com uma mulher negra, entendendo, diferentemente, que a pergunta se tratava sobre se seus filhos poderiam namorar uma negra específica, a Preta Gil, possuidora de valores aos quais, surpresa, ele se opõe. De qualquer forma: Jair Bolsonaro desqualificou “cotistas” e uma pessoa “promíscua” – estou dando a ele a presunção de boa-fé que não foi racista. E nem acho, sinceramente, que ele o seja. É preconceito evidente, mas, por si, isso não é crime. É no máximo sinal de mediocridade. Como pode isso ser considerado, em algum ponto de vista – que não o dele – justo?

Talvez o problema esteja exatamente na definição de tolerância. Ao “tolerar”, nós definimos uma linha: tudo bem, não vou me insurgir contra você aí fora, você fica na sua vida, eu na minha. E é isso que Bolsonaro faz: pretende se afastar de tudo e todos que vão contra sua ideologia. Não quer que o seu Estado os beneficie de forma alguma. Isso é a definição mais cruel de tolerância: eu legalmente tolero sua existência. Mas é aí que pretendemos, como Estado Democrático de Direito, ficar? Ou melhor, nós somos legalmente autorizados a manter esse estado de diferença, em que alguns podem tolerar outros, até na medida em que estes podem ou não ter direitos?

A resposta é simples: não, não podemos. Quando mencionei acima sobre o “consenso sobreposto”, temos nesse pequeno espaço de convergência política todas as garantias para que possamos nos desenvolver como pessoas livres. O que eu preciso para me desenvolver não passa pela “autorização”, quem dirá “tolerância” de ninguém. Eu não preciso de tolerância, preciso é de reconhecimento. Ser reconhecido como cidadão, e, portanto, digno de formular meus próprios princípios morais, e escolher o que eu quero. Se eu quero ser hindu ou cristão, é problema meu. Se eu quero ser hétero, homo, bi, pansexual, também não é problema de ninguém. Logo, pelo poder das minhas escolhas, eu devo ser reconhecido como cidadão atuante. E nenhum direito civil, conferido a qualquer cidadão, me pode ser negado. União civil (eu pessoalmente acho que se casamento é religioso então tem de ser removido dos textos legais, passando a ser união civil pra todo mundo), adoção, herança, tudo mais. Isso não tem discussão, é direito fundamental, não precisa passar pela autorização ou sequer tolerância de ninguém. Você não respira porque eu tolero, respira por ser um ser vivo, objeto de direitos que já possuiria antes mesmo (ou a despeito) de ser cidadão. Nós precisamos ir além do meramente tolerar o diferente, precisamos passar a reconhecê-los como iguais em plenitude, pessoas com temores e sonhos como nós, que fizeram escolhas eu simplesmente nasceram diferentes. Todas as concepções éticas e morais de vida precisam se confrontar com o fato de que elas não são únicas, felicidade, mais que fórmula, é um acaso que acontece para mim e para você de jeitos diferentes. Mais importante, precisamos apoiar sim aqueles que, mesmo sob a promessa de que todos os humanos nascem iguais em liberdades e direitos, nascem, e logo que nascem se deparam com tanta diferença e tanta injustiça. Há um famoso spiritual norte-americano que diz: “enquanto um de nós ainda for escravo, nenhum de nós será livre”. Hoje todos nós somos escravos do tempo de Jair Bolsonaro. Que ele fique para trás e possamos um dia viver num Estado de homens e mulheres livres e iguais, em outro tempo.

Anúncios

Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
Esse post foi publicado em Persianas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s