Uma teoria hipotética e irrelevante por um significado possível entre tantos possíveis

Sigam comigo um exercício mental.

De todas as páginas que deram origem ao filme Harry Potter e as Relíquias da Morte (partes um e dois), poucas me interessaram mais do que a história desses tais ítens que servem de título para a película, que de totalmente ignorados no universo potteriano surgiram direto na vitrine. Com sua permissão, vou apresentar de forma bastante resumida a história, e argumentar alguma coisa a seguir. A história é mais ou menos a seguinte: três irmãos, em certo momento, se deparam com um rio caudaloso e bravio, cuja travessia seria perigosa e de sucesso incerto. Seu destino seria catastrófico, se não fossem, na verdade, três poderosos magos. E, como magos, os irmãos juntam-se para conjurar uma ponte sobre o rio. Ocorre que ali, à espreita, já estava a Morte, aguardando o fim destinado daqueles três homens, que deveriam descansar no leito do rio. Suas habilidades mágicas – e sobrenaturais – lhes concedeu uma vantagem sobre a morte, que não se satisfez com o ocorrido. A Morte então revelou-se aos irmãos, rendeu-lhes loas de apreciação, por sua argúcia e poder. Como prêmio por sua grandeza, a morte concederia a cada um um presente de sua escolha. Um dos irmãos pediu uma varinha que fosse entre todas a mais forte, e que o tornasse capaz de subjugar qualquer oponente. Outro, ainda ferido pela morte de sua amada, pediu uma forma de negar os efeitos da morte. O terceiro irmão pediu somente que lhe fosse dada a graça de fugir dos olhos da morte. O resultado é previsível, na toada das histórias medievais, ou mesmo das tragédias gregas: nenhum vício será perdoado, e a busca pelo poder imerecido em algum momento volta para cobrar o seu preço, uma espécie de justiça divina ou diabólica. O primeiro irmão, de posse de sua varinha destruidora finda assassinado durante o sono por outros magos invejosos de seu poder. O segundo, ao receber uma pedra que o permite ver os mortos, se ressente de sua incapacidade de estar em definitivo com sua amada. A pedra não cancela a morte, tão somente possibilita a comunicação com aqueles que permanecerão a uma morte de distância, no hades. Só sobra uma forma de estar para sempre com seu amor, passando pro seu lado, abraçando a morte e despedindo-se da vida. E foi assim que esse irmão suicidou-se. O terceiro, porém, recebeu uma capa que o tornava invisível, e permaneceu incógnito por anos e anos, por mais que a Morte se esforçasse em buscá-lo por todos os lados. Somente após muito tempo, quando já idoso, aquele homem entregou a capa a seu filho, e revelou-se para a Morte, que o recebeu como um amigo.

O fim dos três irmãos foi o mesmo, mas o caminho escolhido por cada um para alcançá-lo é bastante significativo. São histórias que começam na rejeição da morte, e possuem um efeito pedagógico, demonstrando que, afinal, a morte não é um acaso, ela simplesmente é. A morte é muito mais que um evento, é um lugar, um ponto necessário. Mas vamos falar um pouco sobre cada uma. O primeiro irmão, ao pedir uma arma, afirmou, em sua escolha, a supremacia do valor do poder. Esse poder que, em si, é uma satisfação da morte. O primeiro irmão pede uma arma de matar, e assim faz de seu poder instrumento da morte. E a morte vence, tanto na teoria quanto na prática. Na prática, pois o homem morre fruto do ciclo de violência que ele mesmo ensejou. Na teoria, pois o valor final da equação escolhida foi: a morte sempre vencerá. O segundo irmão não seguiu o caminho da destruição, mas foi igualmente macabro. Ao por em prioridade os mortos, o homem definiu: o que vive vale menos que o que não vive. Logo, ele, que vivia, era menos que aquilo que não vivia, já que, sem aquilo, ele não podia viver. Ele negou a morte para negar também a vida. E, ao confirmar que a vida na forma como ela se apresenta naturalmente – limitada pela morte – não lhe apetecia, escolheu o caminho sem limites, a morte. A morte triunfa, na teoria e prática. Mas é na história do terceiro irmão que surge um valor diferente. Após rejeitar a morte, aquele homem insiste em sua rejeição. Ele se esconde, e evita a morte no limite das suas forças. Essa negação só se altera em um ponto, quando surge algo mais importante que a própria vida, um valor superior a ser afirmado que a vida em si. Esse valor não é, como no caso dos dois irmãos anteriores, a morte. O terceiro irmão abdica da vida para proteger seu filho, uma vida que é objeto de seu amor. Ao aceitar a morte, o homem o faz afirmando não só o valor da vida de sua prole, mas como do valor da própria vida como um elemento finito, com começo, meio e fim. Que tudo que começa precisa, um dia, terminar. A morte, aparentemente, vence, pois alcança também o terceiro irmão. Mas trata-se de uma vitória somente aparente. Na prática, o homem viveu uma vida longa, frutífera, escolhendo inclusive quando terminá-la, da forma como achou apropriado. Ele morreu, mas de uma forma totalmente diferenciada. Na teoria também, mesmo aceitando a morte, o faz com evidente afirmação da vida, tanto da própria como daqueles que ama.

Na minha modesta opinião, a equação do terceiro irmão trinca quando ele vai além do egoísmo. E estilhaça de vez quando ele compreende a importância de uma vida com significado. E são essas as duas mensagens principais ao final desse volume da história do menino bruxo que morava embaixo da escada. Pior que a morte é viver uma vida sem amor e sem significado. Quando ao seu redor só há morte e destruição, há ainda um valor a ser defendido com todas as forças: aquele que roga que toda a vida que resta seja, por si e independentemente de qualquer outra coisa, excepcional. O estoicismo proveniente do enfrentamento das adversidades é isso. O menino que sobreviveu perdeu tudo. Mas sobreviveu, protegido por aqueles que o amam, e, nessa vida, protegeu aqueles que ama, e neles sobreviverá, mesmo depois de morrer.

Me parece uma razão suficiente para ler, assistir e até mesmo para viver. Entre tantas possíveis, claro. Quantas mais melhor. Toda arte se justifica assim, não é?

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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7 respostas para Uma teoria hipotética e irrelevante por um significado possível entre tantos possíveis

  1. Eu gostei bastsante do seu texto. Você conseguiu sintetizar a essência da saga de Harry Potter olhando sobre um viés alternativo que, no fim das contas, consegue transpor claramente do que todo os livros e filmes, em especial os últimos, querem transmitir. Ótimo! =)

  2. Matou a pau! Me deixou curioso para ler!

  3. Bruna disse:

    É a virtude platônica-aristotélica – viver bem (valor adverbial) em detrimento de ter uma boa vida (valor adjetivo), como o Dworkin se refere a esse tipo de virtude em seu último livro – transformada em cultura pop. Quer dizer apenas que Harry Potter se alimenta de um posicionamento moral-filosófico bastante comum (como você mesmo reparou ao falar do estoicismo), não que tenha qualquer originalidade nesse sentido. Mas, enfim, ninguém nunca cobrou originalidade da cultura pop, e por que deveria cobrar se nem a autora teve essa proposta, não é mesmo?

  4. Evandro Andrade disse:

    Ótimo texto!

  5. Cristian Valverde disse:

    Excelente texto! Parabéns mesmo!

  6. celio disse:

    muito bom!porem entendo que a morte não é o fim é começo daquilo que nunca terá fim.cristo venceu a morte.

  7. Muito bom o texto, Wagner. Deu saudade de Harry Potter. :)

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