Possibilidades do impossível

A fantasia às ordens de seu mestre

Bom, no último post escrevi um pouco sobre fantasia e ficção. Na verdade eu falei mesmo sobre fantasia. A sua relação com a relidade – e a chamada ficção – é algo que eu gostaria de tratar agora.

Eu já tinha escrito 90% desse post quando tropecei neste artigo, em que o romancista norte-americano Lev Grossman suscita uma importante questão sobre a pertinência da fantasia no mundo contemporâneo. Curiosamente era justamente isso que eu queria tratar nesse post, ao explorar mais os domínios da fantasia. Recomendo a leitura do artigo dele antes, durante, ou depois do meu post, tanto faz. Questão parecida foi suscitado em outro post, esse tratando de Stardust, se é ou não fantasia. Recomendo também, nos mesmos termos do anterior.

Voltando ao bom Todorov, aquele búlgaro serelepe, nosso bom barbudo expõe, na tarefa de delimitar o fantástico, um pouco sobre as condições necessárias para chamar uma narrativa de fantástica:

Estamos agora em condições de precisar e completar nossa definição do fantástico. Este exige o cumprimento de três condições. Em primeiro lugar, é necessário que o texto obrigue ao leitor a considerar o mundo dos personagens como um mundo de pessoas reais, e a vacilar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. Logo, esta vacilação pode ser também sentida por um personagem de tal modo, o papel do leitor está, por assim dizê-lo, crédulo a um personagem e, ao mesmo tempo a vacilação está representada, converte-se em um dos temas da obra; no caso de uma leitura ingênua, o leitor real se identifica com o personagem. Finalmente, é importante que o leitor adote uma determinada atitude frente ao texto: deverá rechaçar tanto a interpretação alegórica como a interpretação “poética”. Estas três exigências não têm o mesmo valor. A primeira e a terceira constituem verdadeiramente o gênero; a segunda pode não cumprir-se. Entretanto, a maioria dos exemplos cumprem com as três.

O principal elemento definidor da fantasia, em especificação da ficção geral (e em contraposição à realidade), é o senso de absurdo, de desconexão com o real. A ficção pode ser integralmente realista, por exemplo, como o é, normalmente, nos dramas. Uma narrativa sobre um casal em crise raramente usa elementos além do cotidiano, justamente para fisgar o leitor por meio da identificação na banalidade. Há descrições de rotina, de trejeitos comuns de personalidade, há coisas que todos vêem o tempo todo e não se questionam. A ficção é uma forma genérica que se especifica tanto nas narrativas mais realistas (que só diferem do nosso mundo real por tratarem-se de personagens e situações que não é de nosso conhecimento) quanto nas mais fantasiosas (como dragões e/ou mortos vivos).

Nós compreendemos o mundo por certas regras lógicas do normal, do esperado. Na ficção (fantástica ou não) eu enuncio uma situação hipotética. Digamos, por exemplo, que eu jogue uma pedra para o alto. Partimos do pressuposto que o mundo hipotético é, de início, similar ao que vivemos, então presumimos que a pedra cairá, derrotada pela gravidade. Se jogar uma pedra mágica e disser que, ao subir, o objeto começou a emitir um guincho estridente e pulsar rapidamente numa luz amarelo-ouro, para depois explodir numa pequena bola de fogo que criou asas, uma fênix majestosa que saiu voando por aí, estarei então fazendo uma fantasia (E dando uma de Saramago, com um período excessivamente longo e confuso). Comecei propondo a situação colocando-a no terreno do mágico, do sobrenatural, dizendo se tratar de uma pedra mágica. Essa é a fantasia mais “pura”, digamos assim, a que se apresenta como um mundo dissociado da realidade, logo de cara. Mas o mais peculiar – e meu objetivo hoje – é o chamado fantástico, o gênero característico pelo vacilo entre essas duas possibilidades, o real e a ficção.

Se eu, por exemplo, jogo a pedra do primeiro exemplo para cima, e no resultado dessa ação ocorre aquilo descrito no exemplo da pedra mágica, aí temos uma quebra de paradigma. A primeira está regida pelas leis da razão prática (não no sentido de Kant), cotidiana, a segunda pelos limites da razão possível, no domínio do imaginável. Lembrando que tudo que pode ser imaginável é, a seu modo, real – mas não vamos entrar nessa questão agora. O leitor (ou o personagem, ou os dois) não entende o que se passa. A seu ver, trata-se de uma situação sobrenatural, no sentido de desviante das regras normais da natureza. E é nesse momento de vacilo (ou na existência dele) que podemos entender melhor o que é uma fantasia, uma ficção realista e uma história de realismo fantástico. Sobre o último eu vou falar mais tarde, depois do pulo. Calma que já chegamos lá.

É óbvio que essa não é uma classificação estanque, é mais um critério de avaliação. A julgar por essa espécie de coerência sistêmica entre o real e o fantasioso – e seu desafio pelo realismo fantástico – podemos entender e diferenciar algumas obras ditas inclusive como parecidas.

Um exemplo interessante para mim é o das obras de J. R. R. Tolkien e G. R. R. Martin, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos, respectivamente. São formas narrativas semelhantes se vistas no gênero da fantasia medieval, seguindo o critério de gênero que eu sugeri no post passado, mas a semelhança para aí. Diferem totalmente em objetivos, temáticas e na linguagem empregada. Alguns exemplos seguem, mas os parágrafos podem ser pulados sem prejuízo pro meu argumento, caso você queira poupar tempo.

PULE DAQUI!

As narrativas da Terramédia se passam num mundo inegavelmente fantasioso. Não é à toa que a inesquecível e icônica primeira frase d’O Hobbit é “Em um buraco no chão vivia um hobbit”. Oras, sabemos o que é um buraco, mas não sabemos o que é um Hobbit. O Hobbit, inclusive, é uma criatura antropomórfica que não existe em nosso mundo. Ou seja, da primeira frase Senhor dos Anéis deixa bem claro que trata de uma fantasia. A obra de Martin, por sua vez, fora seu prólogo dúbio, só se revela como fantasia no ÚLTIMO capítulo. Até então praticamente TUDO no livro poderia acontecer normalmente em nosso mundo, sem nenhuma surpresa. O momento, inclusive, em que acontece essa revelação sobrenatural tem o impacto daquele momento do final de Bastardos Inglórios em que o espectador percebe que é isso mesmo que ele está pensando. Acontecem alguns segundos de vacilo, de incerteza. É isso mesmo que eu estou vendo/lendo? Isso é impossível! Isso é mágico! A admissibilidade dessa dúvida é a marca definidora do realismo fantástico.

E não para por aí. As narrativas tolkenianas detalham grandes mobilizações de tropas e batalhas, mas também cidades suntuosas e diversas criaturas e raças mágicas. Tente não pensar nisso como uma análise pejorativa, mas não há nada que George Martin descreva com maior atenção do que roupas e comida. Só estou tentando evidenciar como são duas obras diferentes desde o princípio. Martin está mais ancorado na concretude das relações sociais (foi, por exemplo, o primeiro livro de fantasia que eu vi trabalhar o conceito de vassalagem) do que Tolkien. As temáticas abordadas também são bem diferentes, com um Tolkien construindo castelos no céu para falar sobre nobreza, caráter e o poder da amizade, enquanto Martin apresenta uma visão pós-moderna e pós-freudiana que tira do homem esse caráter apolíneo, aproximando-o mais de uma besta com ganância e tesão, sendo que o grupo de personagens mais ligado por valores “humanos”, no sentido idealista do termo, como valores excelsos, puros, são, ao longo da série, os que mais apanham impiedosamente. Nesse sentido, Martin escreve uma novela em que os bons apanham, e apanham muito, por viverem no mundo real, em que os bons (tal qual os meus) apanham pra caramba. No mundo de Tolkien, os bons padecem, sofrem, mas há um senso anterior de que há uma profecia a ser cumprida, e todo sofrimento é parte da sina de fazer essa profecia acontecer. Frodo sofre, mas sofre por ter escolhido o “emprego” de portador do Anel. É uma ação positiva, sair em uma jornada. No mundo de Westeros, os Stark são visitados pelo destino, que os intima a assumirem um reino em sua mão. É uma narrativa intrincada, cheia de reviravoltas sim, mas todas fruto de ações humanas (ou quase todas). Os monstros de Martin não são abissais, queimados por milênios no fundo de minas infinitas, são sim internos e imprevisíveis.

O paradigma de Tolkien é pré-nietzscheano, enquanto o de Martin é posterior de um tempo em que a imagem mítica do homem criado à imagem e semelhança do altíssimo, pautado pela razão e pela virtude foi jogada por terra. Numa espécie de contra-reforma iluminista, a concepção científica mais aceita atualmente é a de que somos animais ligeiramente mais habilidosos que a média.

CAIA AQUI.

Em alguns aspectos, a obra de Tolkien se assemelha ao gênero fantástico “puro”, digamos assim. Mas afirmar isso somente seria desonestidade da minha parte. Na verdade, Tolkien não escreve o fantástico “puro”, mas escreveu o fantástico tolkeniano, que virou em si um gênero, facilmente discernível por sua atenção obscena à critérios como formação cultural e linguística, com lendas, canções e poesias, em um mundo persistente e multirracial. Martin, em seu tempo – diferente do de Tolkien, não custa frisar -, não “melhorou” Tolkien, mas sim não seguiu sua herança, mas puxou de outro galho da cultura global. Pode parecer maldade minha, mas pra mim Guerra dos Tronos – até onde eu li – está mais inclinado pra Madame Bovary – se você nunca leu, leia, ou pelo menos vá procurar a respeito na Wikipedia. Até o final do primeiro livro é um livro de ficção realista, que paulatinamente se desprende do chão da razão e ergue seus braços buscando elementos etéreos da fantasia. Mas nunca voa de fato. Nisso eu creio ser razoável chamar a obra de Martin, do segundo livro em diante, de fantasia realista.

Nisso, bate na trave de um gênero particularmente bem-sucedido na América Latina, o realismo fantástico, ou realismo mágico. Trata-se de uma perspectiva bastante explorada por autores como Jorge Luiz Borges e Gabriel Garcia Márquez. Sabe aquela situação vacilante que eu descrevi lá atrás, em que o leitor e o personagem não sabem bem o que é real e o que é verdadeiro? Poisé, essa é a característica definidora da literatura fantástica como exposto por Todorov. O realismo fantástico se coloca numa situação paradoxal em que sua razão de leitor tem absoluta certeza que aquilo não é real, enquanto a personagem tem absoluta certeza que o é. É um sistema com coerência interna. Funes, o memorioso, não esquece de nada. O Aleph é em um ponto todos os pontos, vistos de todos os pontos. José Arcadio Buendía vive mesmo na árvore (se você realmente gosta de Cem Anos de Solidão vai delirar vendo isso aqui). E, ao mesmo tempo, não é uma metáfora, é uma realidade em si absurda para o leitor.

O fantástico é um gênero diferente da fantasia e do realismo fantástico, e são todos variações da ficção. Na minha modesta opinião são todas formas narrativas necessárias hoje, como sempre foram. Se a crueza sanguinolenta do realismo de Martin mexe com suas entranhas, também é bacana ler histórias (ridiculamente fantasiosas) dos mitos gregos, egípcios, judaicos ou cristãos, e apreciar a forma que essas narrativas tiveram um profundo impacto político na formação da nossa sociedade, ou de sociedades que não são exatamente como a nossa. A capacidade humana de aduzir verdade (relativa, óbvio) da metáfora é inerente e inafastável. Está em todas as formas culturais, em todo tempo, sempre. Bons livros, boas músicas e boas obras de arte em geral sempre serão cápsulas de conhecimento concentrado, estético ou não. Todas carregando em si o DNA de várias gerações culturais predecessoras, e possibilitando novas formas através de suas invencionices e desdobramentos particulares. E eu gostaria de falar um pouco, no próximo post, sobre um tipo especial de consequências culturais: o fato político.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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