A morte necessária

Não é de se surpreender a progressiva laicização da espécie humana. Um dos maiores presentes da vida moderna foi nos trazer a inexorável certeza que a própria, tão atribulada e movimentada vida, um dia acaba.

Faça o teste: procure uma pessoa qualquer e lhe pergunte quais são suas expectativas para depois da morte. Com sorte – e confiando nas estatísticas brasileiras – você vai encontrar uma pessoa religiosa engasgando entre múltiplas respostas-prontas possíveis, todas elas tergiversando sobre o tema “Céu”. Mas insistindo um pouco mais tópico adentro, “mas lá no Céu, como vai ser?”, o riscado fica ainda mais torto.

O que poderia, afinal, um ser físico desempenhar em um ambiente metafísico? Como uma existência temporalmente limitada poderia ser desencaixotada numa dimensão definida por sua eternidade? Os textos bíblicos prometem uma existência devotada a glorificar Deus. Mas como isso seria exatamente? Um longínquo coral dos fiéis exaltando o Altíssimo, o Alfa e o Ômega, o Senhor dos Exércitos, etc etc etc até esgotar todos os títulos de potestades infra, ultra e extra terrestres. Certamente não me parece um bom programa nem para uma segunda à tarde, quem dirá para a eternidade inteira.

Mas presumamos que essa seja uma interpretação equivocada, essa de confundir e mesclar o físico e o metafísico. Vamos tentar de novo. Vamos considerar que, em nossa morte, nos afastaremos da existência material para assumir nosso lugar no imenso Estige, o rio dos mortos, com nossa essência fluindo permeando toda a existência para todo o sempre amém. Uma vez nesse corpo etéreo nós seremos despidos dos limites de nossas particularidades, compondo orquestradamente uma grande totalidade das almas celestiais. Bom, se perdermos tudo, então morremos naquele sentido tedioso dos céticos, e não é o que estamos buscando. Então algo deve persistir.

Algo precisa servir como condão, como arrimo para aquilo que somos. Se eu nunca tivesse tido mãos não sentiria falta delas se fossem tiradas de mim. São as memórias das experiências pretéritas que, junto com a experiência sensorial, apresentam-nos o mundo ao nosso redor. Na ausência de uma dimensão sensorial – já que descartamos a possibilidade de mescla entre o físico e o metafísico – tudo o que nos resta de possibilidade de fundamento para o agir são as memórias, que poderiam depender ou não dos processos químicos e elétricos que, ainda que considerados abstratos, tem origem e funcionamento claramente concretos, como regularmente nosso cérebro funciona.

Suporíamos então, ainda pelo desbravar do argumento, que seja possível que mantenhamos a consciência sem corpo ou mesmo atividade cerebral, somente com uma espécie de presença indistinta, preenchida com informações inverificáveis – já que nossa individualidade física teria sido extirpada. E o que faríamos então? Nós, ilimitados, descobriríamos afinal que é simplesmente impossível se afirmar algo diante do nada. Nós, por mais brilhantes, apaixonados, humildes, belos, perto da luz da eternidade não seríamos ninguém, seríamos como pedras que ainda que ricocheteiem no espaço sideral se fragmentando em poeira estelar, não farão barulho.

Se nossa vida fosse eterna todos nossos atos seriam contrapostos ao vazio. Aqueles breves milésimos de vida na história do universo passariam como um soluço vexatório, dando lugar a um imenso vazio. O vazio do indistinto, da inexistência de características, de possibilidades. A vida eterna seria uma condenação cruel a uma eternidade de reprises e covers após segundos de um relance de música original.

Mas a morte existe para nos oferecer uma medida de compensação. De saber que nosso primeiro beijo durará boa parte de nossa curta vida, impresso entre nossos lábios. Que nossos temores infantis nos seguirão da mesma forma, primeiro como monstros, depois como lições. Nós vivemos vidas curtas, com anos apinhados mas ainda assim tão velozes, para que possamos dar valor a um dia sequer. Aquele dia, aquele do qual muitas vezes você é refém. Aquelas escolhas que você fez. Aquilo que você escolheu ser na sua curta vida.

Nossa vida moderna nos ocupa cada vez mais. Momentos do dia dedicados ao ócio foram “colonizados” pela produtividade, consagrando nossas vidas a serem um eterno (enquanto dure) conjunto de possibilidades. Cada dia é mais valioso. Podemos viajar, conhecer, amar, destruir, conquistar em proporções épicas. E, se não o fazemos fica o som do relógio no estômago do crocodilo, nos perseguindo: sua vida poderia ser melhor aproveitada. Viva mais, nem que essa ansiedade lhe corroa como ácido.

Vivemos pouco para poder viver muito. Se vivêssemos para sempre os segundos seriam inertes e seríamos superiores que o tempo, desvencilhados da apreensão de momentos. Estamos condenados a viver uma vida de nossos significados, e morrer para que ecoem, em sua pequenez ou singular luminosidade. Está valendo a pena?

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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Uma resposta para A morte necessária

  1. Luciana Mesquita disse:

    Adorei! Feliz 2012!

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