Carrossel

Sempre considerei minha vida cíclica, com uma modesta variação dos mesmos temas, repleta de personagens arquetipicamente similares porém discretamente diferentes nas minúcias. Mesmo esses detalhes formavam em si outros padrões circulares, que desapareciam e mais tarde reapareciam na vida de outra pessoa a meu redor. Um carrossel com cavalinhos oscilando, subindo e descendo, girando pacientemente ao redor do meu ego. Nada mais lógico. Todos enxergam tudo mais no universo pelas lentes de sua observação – as suas causas são as mais urgentes, as dores alheias são exagero, as utopias dos outros ridículas, enquanto as nossas são simplesmente lógicas.

O mesmo padrão pode inclusive ser observado mesmo nos tímidos, circunspectos e humildes, que reduzem tanto seu papel e responsabilidade nos arranjos da vida que acabam saindo pela culatra e criando uma categoria de especialidade negativa: se os gabolas querem ser o sol, aqueles anseiam pela singularidade da irrelevância. Eles não negam a existência dos demais, somente relutam em existir naqueles termos. Os termos da especialidade, seja ela de uma ou de outra aparência, são também cíclicos e pouco originais, inclusive alternando entre pessoas e períodos temporais. Aquele operário-padrão na indústria do rock pode, amanhã, sem aviso, se descobrir um contador revolucionário. A roda gira, o tempo desvela e os termos na gramática existencial se recombinam em valsa.

Por toda idade adulta cri que os conceitos acima expostos constituíssem uma proposta filosófica coerente, fruto de uma característica banal da espécie: essa sedução por buscar padrões no aleatório. Enxergar as estrelas e observar animais, deuses, mensagens. Tratar-se-ia então de um tipo de joguete inofensivo, ligar-os-pontos entre as características que nos definem como pessoas únicas, e que diferenciam também os demais. Estabelecendo regras seria possível projetar o porvir, e, de alguma forma, me precaver. Persisti esperançoso até que um dia fui atordoado por uma ocasião (Várias? Muitas? Infinitas?) fantástica que findou por confirmar minha tese, revelando uma realidade que, a despeito de minhas ponderações, se mantinha imperscrutável.

Certo dia, a caminho de algum lugar que não me recordo (o leitor logo perceberá se tratar de uma informação basicamente irrelevante) tive uma visão levemente perturbadora. Vi, meio que de relance, um garoto fisicamente muito parecido comigo durante a infância, com o mesmo porte rechonchudo que eu sofridamente portava algumas décadas antes. Era um dia movimentado, e, entre tantas pessoas, não era exatamente algo miraculoso encontrar alguém com aparência similar à minha. Provavelmente se ignorássemos a parcela oriental do globo (o que implicaria ignorar a maior parte do mundo, é bem verdade) eu poderia ser descrito como o termo médio da humanidade resultante. Sou um produto de razão aristotélica. Minha altura, tez, compleição, são todos atributos físicos que me situam entre os médios, superior aos inferiores mas aquém dos grandes (Tampouco sou algum prodígio intelectual, aliás, confirmando que minha maior excelência é não ser excelente em nada, no máximo remediado). Portanto não seria nada exatamente impressionante encontrar um garoto mediano por aí. Mas, por algum motivo, fiquei com aquele projeto de instantâneo de rosto em minha memória, desbotado, e, de algum modo, zombeteiro. Deveras curioso, ainda que terrivelmente banal.

No dia seguinte passei mais uma vez pelo mesmo trajeto – que é um roteiro comum para mim – e vi, mais uma vez, para minha surpresa, o mesmo garoto rotundo do dia anterior. Pude olhar com mais calma e prestar mais atenção a seus detalhes, bem como pude notar mais cuidado suas roupas. A semelhança com minha versão antiga – ou pelo menos aquela preservada em minha memória – era embasbacante. Aquela camisa, se não me trai a memória, ganhei de presente de uma tia no início de um longo costume de ganhar camisas em vez de brinquedos que eventualmente aprenderia a abominar. Era um pedaço de roupa colorida de um jeito que o bom senso estético desautorizaria mas eu – ou melhor, meu não-eu ou ex-eu – a vestia com a simplicidade despretensiosa das crianças. A peça de vestuário exalava os ferormônios da derrota, e a forma como eu, ou eu-mirim, seja por ignorância ou desinteresse, não me importava, era, em si, uma forma de vitória.

Antes que eu conseguisse me aproximar do meu eu-bizarrinho eis que algo mais chamou minha atenção. Havia, caminhando com alguma dificuldade imediatamente à minha frente um homem idoso que lembrava bastante meu saudoso pai. As roupas eu não conhecia – seus movimentos lentos me davam a oportunidade de avaliá-lo cuidadosamente, ao contrário do pivete exótico. Parecia um pouco mais magro, e talvez um pouco mais altivo que minha memória do meu pai, mas é desse jeito mesmo que as imagens se encastelam em nossa cabeça. Com a velhice meu pai começou a se tornar mais soturno e encurvado, é natural que eu o imaginasse exatamente desse modo, mesmo nesse contexto misterioso, numa ilusão ou sonho em plena luz do dia.

Não entendi em princípio do que se tratava aquilo tudo e limitei-me a seguir aquele senhor pacientemente, enquanto se digladiavam em minha mente as possibilidades de interpelá-lo ou não, sendo contraditas pelas possíveis respostas que eu desejava ou não ouvir. Após algum tempo a rua chegou ao fim em um cruzamento irregular, desses que integram várias vias em uma só malha esquizofrênica, com carros entrando e saindo por todos os lados. Ao chegar na faixa de pedestres o sinal estava vermelho para nós, motivo pelo qual parei atrás dessa figura enigmática. Quando o semáforo dos pedestres acendeu sua luz verde ele seguiu e eu fiquei. Não sei bem o motivo, algo em mim dizia que deveria deixá-lo ir. Despedi-me silenciosamente e segui meu dia com diligência, tendo esquecido completamente do garoto que aguçara minha mente no dia anterior.

Ocorre que, não sei se propositalmente ou por acaso passei mais uma vez, no dia seguinte, na mesma rua. Parece extremamente conveniente relatar assim, como um deus ex machina, que casuísticamente eu atravessasse o mesmo trajeto várias vezes consecutivas. Em minha defesa alego que essa rua me foi banal por anos a fio. Salvo as temporadas em que me ausentei da cidade – por motivos de estudo, trabalho ou mesmo turismo – era um local regular. Não que eu fosse amigo da vizinhança, não interromperia meu passo para tocar nas campainhas e perguntar aos residentes acerca da saúde de suas famílias. Mas me desloquei o suficiente para ver o tempo passando, tanto na arquitetura dos domicílios e empreendimentos locais como nos rostos das pessoas que, assim como eu, são reféns do curso inclemente do tempo, muitos em uma manifestação da Síndrome de Estocolmo.

Na terceira passada pela mesma rua, como já intuía, vi mais uma vez o garoto de roupas espalhafatosas adiantado com seu passo apressado, e vi ainda aquilo que parecia um espectro do meu pai. Questionei-me qual verdade ele me trazia, de qual mistério seria porta-voz, mas julguei que a situação não merecia uma analogia com a história do príncipe dinamarquês. Minha vida não é marcada por tragédias, não sou um lorde escandinavo e dificilmente seria capaz de matar alguém. Mas considerei, todavia, que aquela aparição me deveria ser de alguma forma significativa. Segui o mesmo roteiro da vez anterior, com uma mudança fundamental: determinado a explorar as possibilidades dessa situação insólita apressei um pouco o passo e emparelhei com o velho. Ao ter uma melhor visão de seu semblante com sobrancelhas arqueadas (só uma, a outra não), seu caminhar com pernas ligeiramente abertas e sua constituição física familiar me deparei, para minha surpresa, com o fato de que não se tratava ali do meu pai: aquele velho lento e frágil era eu.

Após alguns segundos de torpor criei coragem e o saudei. Precisava ser rápido. Ele (eu?) me respondeu com um ritmo mais lento que eu esperava – sempre falei rápido demais – mas com a mesma dicção estranha que eu tenho. Foi (fui?) gentil e cortês mas não escondeu a surpresa de ser interpelado por um estranho no meio da rua. Não temos mais espaço para esses encontros aleatórios nas cidades grandes, e, se algum dia houve tal coisa, bem, isso foi antes do seu (meu?) tempo de vida. Ao me fitar demonstrou um olhar penetrante – de um tipo que eu não tenho, ou julgo não ter – que parecia investigar minha alma. Franziu a testa, me avaliando, provavelmente tentando lembrar de mim. Antes que eu resolvesse o que deveria ser dito ele abriu a boca e levantou o dedo indicador com a mão esquerda antes de pronunciar, em uma toada paciente:

“Você também viu o garoto? Que tragédia. Coitadinho dele.”

Passei alguns segundos me decidindo se ele realmente tinha se referido a quem eu pensava que ele tinha se referido. Até cheguei a abrir a boca mas antes de fazê-la soar desisti. Fui cerrando-a aos poucos, enquanto nós dialogávamos com olhares. Quem é você, você. Como viemos parar aqui, sei tanto quanto você. Quem é ele, você, eu. Porquê, também não sei. Como foi a vida, como ela é. Ela muda mas não muda, você sabe. Eadem mutata resurgo. Estávamos ambos confusos, mas de certa forma em paz. Há algum alento oriundo do fato de se estar acompanhado, mesmo em uma situação de esquizofrenia científica.

Nos observamos um pouco mais, ele me lembrando, eu o conhecendo. Após alguns minutos percebemos que não havia mais a ser dito por ora. Era preciso continuar andando, essa história ainda não chegara ao fim. Apertamos as mãos, ele com força, eu com cuidado, e continuamos andando a nosso ritmo. Ele ficou pra trás e eu segui, pensativo. Não foi muito adiante que encontrei mais um elemento desses mistério. Usando uma mochila grande nitidamente carregando mais livros do que seria recomendado por um ortopedista, havia outra das minhas versões. Percebi imediatamente pelo olhar perdido e cabisbaixo, pelas roupas, pelas pisadas. Depois do velho minha mente estava atenta para me enxergar nos outros. Diante de mim encontrava-se um adolescente de cabelos curtos e rebeldes, que chamei pelo nome, mas que não me deu ouvidos e simplesmente seguiu adiante. Insisti, sem sucesso. Ele foi embora, eu fiquei. Eventualmente percebi que precisava ir também.

Quando saí de casa na manhã subsequente era evidente para onde iria, talvez mais do que qualquer outra vez em minha vida, eu sabia por onde, por qual rua ela passava. Não foi minha escolha – por mais que eu prefira crer que sou livre, travestindo meu destino de arbítrio – quando tomei aquele caminho, que mais uma vez fez toda a diferença. Vi o garoto, vi o velho. Com esses não falei, meu interesse era no mais novo integrante do estratagema. Fui direto ao ponto em que o vi cruzar a rua e se trafegar pelo meu lado da calçada no dia anterior, e lá o esperei. Quando o velho passou assentiu a cabeça respeitosamente. Ele sabe. Mas por qual motivo ele não procura qualquer coisa, qualquer vislumbre de verdade, de explicação? Segue sua vida imperturbada, inabalável. Compreendi. Ele não precisa, eu já procurei.

Não tardou para que eu alcançasse o jovem. Todo o processo de contato inicial foi mais complicado do que no trato com o velho, mas não poderia ser qualificado como espinhoso. O diálogo foi descritivo, inquisitivo. Basicamente eu me empenhei em explicar a situação em curso da forma mais detalhada que podia enquanto ele me bombardeava com perguntas que eu não sabia responder. A cada pergunta uma ressonância: eu as repetia dentro de mim, tinha as mesmas dúvidas. Com algum tempo me convenci que não fazia nenhum sentido procurar uma versão mais jovem de mim para me dar qualquer resposta. Se eles soubessem, eu saberia. Também percebi que não lembrava de mim, ao menos daquele eu. Do temperamento arisco, da ingenuidade patente, das perguntas ruins. É extremamente conveniente se imaginar como um Mozart, um enfant terrible cheio de talento bruto a ser burilado – e culpar a falta de extração dessa riqueza por minhas incompletudes. Aquele jovem não era brilhante, era, no máximo, assustado. A cada pergunta minha, a cada tentativa que eu tinha de saber algo sobre ele que pudesse explicar o contexto dessa situação fantástica, mais ele se fechava. Não tardou para que eu percebesse um novo padrão: ali não encontraria qualquer novidade ou esclarecimento. Talvez amanhã, quem sabe.

No dia seguinte estavam todos lá. E outros também. Me encontrei junto ao pipoqueiro, andando de bicicleta, quase atropelando outro que atravessava a rua lendo uma xerox surrada de um livro da Hannah Arendt – que eu obviamente reprimi, mandei comprar um livro de verdade, as xerox não duram e os comentários rabiscados nelas se evaporam com o tempo – eram todas versões diferentes habitando a mesma linha reta, a mesma faixa num mesmo destino. O leitor pode estar se perguntando como eu conseguia manter essa rotina insólita em conjunção com meu cotidiano burocrático. Meu dia-a-dia, trabalho, família. Não tive vontade de contar a alguém o que se passava? Acho que não. Sempre achei que fosse uma cisma minha, algum surto de insanidade temporária que, com o tempo, confirmei ser qualquer coisa, menos temporária. Intuitivamente concluí que sairia dessa encruzilhada exatamente como entrei: só. Só me encontro, aí deve estar a resposta, em algo que eu sou, fui ou serei. Me empenhei solenemente na investigação, mesmo sabendo que poderia simplesmente não haver um mistério afinal. Posso ter morrido, estar no inferno, ter enlouquecido, estar apenas sonhando. Mas a vida é a experiência que se tem, e, se eu estava passando por aquilo, era o mais próximo que eu poderia alegar de estar vivendo. Sonho lúcido ou não, era a única realidade a meu alcance. Dia após dia eu continuava tentando descobrir o que se passava. Certa feita inclusive me achei em meu primeiro dia, espichado tentando observar o gordinho de roupas berrantes. Entre os mais velhos e os mais novos pareceu-me claro que eventualmente aqueles se tornariam mais comuns do que estes. O tempo, se não for misericordioso, é pelo menos justo. Aparentemente terei uma vida longa, encontrei muitos mais velhos que eu.

Todos os demais afazeres do dia foram sendo apequenados diante desse grande mistério egocêntrico que me fazia revisitar, todos os dias, todas as fases da minha vida, como que tateando no escuro, buscando alguma explicação. Às vezes perguntando diretamente, às vezes perseguindo em sigilo, noutras ouvindo meus resmungos, pedaços de exclamações contra qualquer coisa, buscando uma dica. Era preciso encontrar a solução. O padrão. A resposta. Aquilo que a tudo une num único concerto de justificação, que informa o mundo nessa variante estrambólica e reiterada, que o cosmos achou por bem esfregar na minha cara junto com minha incompetência. Que eu precisasse todos os dias me re-observar e analisar, revisando meus erros e reavaliando meus acertos, meus defeitos não tão terríveis e minhas qualidades não tão destacadas. A maldição parecia ser que, a cada dia eu me fosse me esvair mais, aterrado em incertezas, desmontado pela análise forçosa de tudo que eu fiz e sou. Inclusive pela atitude dos demais, que, conscientes da situação instalada começaram a agir por si. Alguns se questionavam, outros buscavam uma versão mais nova ou mais velha para perguntar do passado e do futuro. Parece que um brigou com outro, mas pode ser boato. Combate físico nunca foi meu forte, frequentemente digo que minha especialidade sempre foi apanhar e onde dois apanham ninguém bate. Um dia encontrei alguns articulando um movimento social. Achei divertido e fiquei com dó dos coitados, achando que fazem impacto, com seus atos, nesse grande concerto de uma rua só. Mas e se?

Eis que algo me passou pela cabeça como um raio, uma epifania. Talvez, quem sabe, eu, nesse grande salão de espelhos, não fosse realmente quem penso ser? E se meu lugar fosse bem mais modesto? Se em vez de anfitrião de todos nós eu fosse só mais um, aprisionado como reflexo perdido entre tantos? Se no lugar do Sol estivesse outra pessoa, e me fora reservado o posto de Io ou Ganímedes? Ou mesmo algo menor, bem menor? Talvez em toda minha observação tenha me faltado uma atitude básica: observar o que esteve lá o tempo todo, eu vi, mas jamais cheguei a observar. No dia seguinte eu já sabia o que ia fazer. Acordei uma hora mais cedo que o habitual, assustei minha esposa e as crianças. Disse que precisava chegar mais cedo, tinha problemas a resolver. Quando passei pela rua estava tudo quase deserto, o pipoqueiro ainda não tinha chegado, o dia mal tinha amanhecido. Encostei-me num poste e esperei por algumas horas. Não queria perder a oportunidade, esse seria o dia em que eu encontraria aquele responsável por todo esse mistério. Se não por sua criação, por sua manutenção. E, com aquelas cores berrantes, não foi difícil vê-lo chegando.

Ele era muito baixinho e precisei me ajoelhar para que pudéssemos conversar. Ele perguntou se eu era tio, disse que não. Disse que era uma pessoa muito parecida com ele, mas que já tinha vivido mais. Ele disse que já era adulto, entendia das coisas. Perguntei se ele tinha notado alguma coisa estranha esses dias, ele me disse que não. Perguntei se alguém tinha ido falar com ele nessa rua, ele disse não lembrar. Mas essa rua é tão comum. De repente pode ter acontecido um dia, sei lá. Quem sabe? Passei mais ou menos 5 minutos tentando descobrir qualquer coisa de especial, de extraordinário, que servisse de peça central pro grande enigma que tomou minha vida de assalto nos últimos meses. Mas não encontrei rigorosamente nada, aquele garoto era tão vazio de qualquer complexidade como todas as crianças. Nada de corporificar a sabedoria do universo e me dizer a explicação para tudo, recitando com uma voz grave alguma espécie de mensagem telepaticamente ditada por deus, o diabo ou quem seja. Nada. Talvez o garoto não fosse mesmo o centro de tudo. Talvez nunca tivesse havido um centro, estejamos todos em um experimento anarquista extremo de terapia, sei lá. Ajoelhado estava há alguns minutos, e, vencido pelo cansaço e pela frustração, me sentei no chão. Afundei o rosto entre as mãos e senti aquele choque muscular quando seu corpo todo está implorando para que você desabe no choro, abrindo as comportas do seu estresse e sofrimento acumulado. Mas não, apenas sentei, cocei as têmporas e olhei para o garoto, desolado.

O menino então, observando minha cara de vazio, sentou a meu lado. Passou alguns minutos em silêncio, me observando. Creio que estava tentando, em sua lógica, compreender o que passava ali. Após algum tempo olhando pro céu perguntei a ele: “o que você faria se encontrasse uma versão sua, só que mais velha?”. Não sei exatamente o que eu pretendia obter como resposta. Não lembro. Acho que esperava que ele me perguntasse se vou ser grande quando crescer. Se vou ser forte. Se papai e mamãe ainda vão cuidar de mim. Se vou ser rico, se vou ter um Master System. Se vou saber jogar futebol. Se vou ter uma namorada, se vou ter filhos. Se vou virar juiz, garçom ou um tipo de professor Pardal. Antecipei todas essas perguntas e responderia de forma similar: “o futuro virá, você só precisa saber que vai dar tudo certo, afinal.” Ele poderia também me perguntar se estragou alguma coisa no meu futuro quando fez isso ou aquilo, qualquer dessas coisas que crianças pensam que valem muito mas não valem nada. Eu diria que “acontece, não foi nada demais”, que ele certamente replicaria com um “sinto muito” e talvez, ao contrário de mim, desandasse a chorar.

“Se eu encontrasse uma versão minha mais velha diria a ele que vai dar tudo certo”, sentenciou. “Mas como você poderia saber disso?”, eu perguntei, estupefato. “Não sei. Tem como saber?”. “Acho que não, afinal.” “Então pronto.” Fiquei alguns minutos em silêncio e me levantei um pouco atordoado. Balbuciei alguma coisa antes de me levantar e ir embora, deixando o garoto sem maiores explicações. Lembro-me somente de olhar nos olhos dele e dizer “Sinto muito” e desandar a chorar.

No dia seguinte eu saí de casa disposto a confirmar algo que já habitava minha mente como uma possibilidade. Passando pela rua, vi as mesmas pessoas, e nenhuma era quem eu imaginava. A criança de roupas coloridas era asiática, o velho era bem mais alto que eu. O jovem era um jovem tal qual todos os outros, mas não tinha nada a ver comigo. Ou tinha. Ou todos eles tinham. Ou durante os últimos meses eu me perdi numa busca ensandecida por mim mesmo que me fez encontrar muito em muitos lugares, entre coisas boas e ruins. Me fez entender e me perder. E eu continuei perdido, ainda que tenha descoberto algo. Nos dias subsequentes, toda vez que passava por aquela rua, entre tantas pessoas distintas, em diversos horários e contextos, todas as vezes que lá estive, ao menos em um instante me percebi cogitando uma explicação final. Que afinal eu mesmo nunca existi. Que sou uma ficção inventada. Que sou um símbolo, uma metáfora. Que sou, tal qual todo o mundo, um cavalinho, paciente, colorido, silencioso, rodando para sempre num imenso carrossel.

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Sobre Wagner Artur Cabral

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