Induções

– Mas eu te amo!
E esse foi o princípio do término, o ocaso da civilização, o ômega, o dia em que percebi ter encontrado meu fim.

– Como assim? (discretamente profundamente desesperada)
– É isso. (pouco discretamente desesperado)
– Mas só nos beijamos duas vezes! (menos discretamente profundamente desesperada)
– Mas, mas, tudo parece tão certo…
– É claro que parece certo, seu energúmeno, ainda não deu tempo de dar errado!
– Quem disse que precisa dar errado?
– Os fatos, a história, a experiência humana!
– A existência é irrepetível, toda generalização é uma simplificação que pode não se confirmar.
– Só o que me faltava, um cético indutivo.
– Você há de convir que esse é um bom argumento.
– Esse é UM argumento, o que já é alguma coisa, mas não é exatamente bom. O que sua própria experiência romântica diz?
– Que as coisas às vezes dão errado, às vezes não.
– Eu sou a primeira garota por quem você se interessou?
– Longe disso.
– Nossa.
– É a verdade.
– Você podia pelo menos cortar da equação os flertes eventuais, aquelas que você foi atrás por causa da carência, os arrependimentos, sei lá, demonstrar que eu sou especial!
– Você é, e por isso eu estou aqui te pedindo pra ficar!
– Mas você, com o perdão do clichê, disse isso pra todas.
– Não, se tivesse dito elas teriam ficado.
– Alguém já te disse que você é muito presunçoso?
– Surpreendentemente sim, dado meu aparente péssimo julgamento para questões afetivas.
– Eis algo que concordamos.
– Ô.
– Então, seu argumento não me convence, da mesma forma que não as convenceu. Sinto muito.
– Quem disse que não as convenceu?
– Você está aqui comigo, não com elas.
– Mas meu argumento deu certo em algum momento, mas o que deu errado é que depois de algum tempo ele deixou de dar certo.
– E o que houve?
– Não sei. Às vezes não foi o suficiente. Outras vezes ele mesmo sumiu.
– Seu argumento não é eterno?
– Sim, enquanto durar.
– Engraçadinho.
– É sério, tanto quanto amor pode ser comparado a um argumento.
– Seu amor acaba?
– O seu já foi eterno?
– O amor pelos meus pais é eterno.
– Você não sabe.
– Como assim? Eu amo meus pais, nunca deixei nem nunca deixarei de amar.
– Olhaí a indução safadinha.
– Ah, mas vá…
– É sério. Amor não se projeta, amor se vive. Ninguém promete amor, amor se oferece e pronto. Ninguém pode ser responsabilizado pelo futuro.
– Mas como diabos você quer que eu acredite no seu amor se ele tem data de validade?
– Quem disse?
– Você disse? Você diz que ele não pode ser confiado que dure. Eu digo que amo meus pais pra sempre e você diz que essa é uma indução proibida. Como posso saber que você vai me amar amanhã?
– Não que eu queira que isso aconteça, mas você pode brigar com seus pais pra sempre. Você pode sofrer amnésia e ser encontrada numa praia na Inglaterra. Você pode se entristecer de um jeito que tudo que remeta a eles te cause dor…
– Mas isso também é uma forma de amor…
– De fato. Mas meu ponto é que não se mede amor assim, por perspectiva de durabilidade. Isso não é anúncio de 4×4, é sua perspectiva de felicidade com alguém!
– Sua ingenuidade só é superada por sua capacidade de evitar ser direto: como você tem a pachorra de dizer assim, na minha cara que me ama?
– Quer dar uma voltinha, eu repito?
– Mas você só me beijou DUAS VEZES.
(pausa para um breve beijo roubado)
– Mas você só me beijou TRÊS VEZES.
(pausa para outro breve beijo roubado)
– Você sabe que essa é uma forma bastante imatura de derrubar um argumento, não é?
– Um homem tem de tentar.
– PARE DE ME ENROLAR. Como você é capaz de dizer, depois de tão pouco tempo, que tem amor por mim? Você é muito irresponsável!
– Desculpa, perdi o memorando que qualifica amor como vínculo indissolúvel só empregado em último caso, mediante grave ameaça de morte horrenda.
– Você entendeu o que eu quis dizer. As convenções sociais mandam que se guarde o amor pro final, pra quando você já conviveu com a pessoa e tem certeza de seus sentimentos. Aí você evita de ser escroto e magoar alguém.
– Não que eu tenha assinado qualquer convenção social, mas eu acho que isso é uma desvirtuação do amor, que deixa de ser conteúdo pra ser finalidade. Amor, na minha época, era afeição, e não promessa de segurança…
– Na sua época?
– Você entendeu. O esquema atual é considerar que amor é afastamento das relações triviais em prol de algo realmente significativo. É abdicar da promiscuidade em troca de uma vida segura. Eu me sinto bastante confortável para dizer que enxergo o amor. Não me comprometo que ele vá durar para sempre, mas isso é impossível. Não digo que ele não tenha dissabores. Não menti. Se cometi um erro foi de ter declarado que te amo, só isso.
– Mas assim você me pressiona, você me assusta, você me deixa sem opção. Entende? Eu não sei como poderia atender às suas expectativas, especialmente assim, tão cedo. Não é por mal, te acho legal e tal. Não é você, sou eu.
– Sempre.
– É sério. Não sei se estou preparada pra essa idéia, sabe? Fui acostumada a evitar até mesmo usar essa palavra, sou cercada por caras de todos os tipos que às vezes só querem me ter para depois constar o registro em seus catálogos como Don Juans, e eu mesmo já procurei diversão em tantos outros…
– Por uma questão de reciprocidade me sinto na posição de reclamar moderadamente seu evidente desprezo por minha participação no seu histórico, banalizando minha presença. Mas só enchendo o saco, eu entendo o seu direito como você deveria entender o meu.
– Eu entendo, mas você sabe como funciona auto-estima, essas coisas.
– E eu não tenho?
– Frágil como a minha?
– Forte e frágil como a sua, em situações diferentes. Não somos integralmente uma coisa ou outra, flutuamos e oscilamos e disso tentamos deduzir uma personalidade.
– Ai meu deus…
– Não sabia que você acreditava em deus, eis algo desmotivante…
– Olha lá, o amor já acabou!
– Eu acho a sua falta de fé em mim perturbadora.
– Porque você faz isso comigo? Não dava para ter me beijado e continuado de acordo com o plano? Ter sido um ficante bem-comportado e ganhado espaço pelas beiradas, me deixando confortável ao ponto de eu não poder mais te rejeitar? Custava?
– Por favor, de todas as coisas, não me rejeite por rejeitar o tédio, o padrão. Me diga não, não me queira, não me suporte, mas não afogue em mim exatamente aquilo que eu tenho de melhor: a alegria que você me causa que me faz ser burro, inconsequente e tentar, por tudo que há de mais sagrado, que dessa vez você saiba, antes que seja tarde demais. Que apesar de todos os meus erros, passados, presentes e futuros, eu não posso te prometer felicidade, mas posso prometer que hoje você me faz querer acertar.
– Você ensaia essas coisas?
– Não, mas confesso que tento causar uma boa impressão. Era ou isso ou solos de guitarra.
– Você toca guitarra?
– Não.
– Ah.
– Poisé.
(silêncio por um período equivalente ao transcorrido entre o Big Bang e o surgimento de vida na Terra)
– E agora?
– Agora eu morro um pouquinho te esperando, mas também me alivio de uma angústia.
– Você tem um dom para complicar as coisas.
– Ao menos eu tenho um dom, quantos podem dizer isso hoje em dia?
– Você fala demais.
(pausa para um breve beijo roubado)
– Percebo uma tentativa de censura?
(pausa para outro breve beijo roubado)
E esse foi o término do princípio, o alvorecer da história, o alfa, o dia em que descobri ter encontrado um novo começo.

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Sobre Wagner Artur Cabral

filosofia política e futebol
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Uma resposta para Induções

  1. Agatha disse:

    Lindo, Artur!

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