Em um dia qualquer na História Clark Kent tropeçou em Nietzsche

Wagner Artur

Não foi nada planejado, mas com certeza foi deveras oportuno. Desde que decidiu largar a vida de Quelé pra se concentrar naquilo que ele faz de melhor – esbanjar habilidades sobre-humanas – o jovem de Pequenópolis sempre sonhou em conhecer o famoso filósofo alemão, chegando inclusive a conjecturar que ele seria uma mera representação fictícia de um dos conceitos do velho Nietzsche. Ora, a despeito do fato de ter certeza que não era uma obra de ficção (você também teria certeza no lugar dele. Se duvida é porque nunca inverteu o movimento de rotação da terra. Se tivesse feito isso teria absoluta certeza que é real, afinal de contas, ninguém teria uma idéia ridícula dessas assim, de graça) ele queria conhecer seu pretenso idealizador. O encontro aconteceu num acaso mórbido. Clark saiu da redação do Planeta Diário pra comprar uma porção de trufas pra sua amada na Itália. Uma coisa é desafiar deuses, mulher grávida é um troço mais temperamental e destrutivo que uns três panteões juntos. Tanto é verdade que você nunca viu nenhum deus “grávido”. Eles pulam essa parte, melhor esquecer. Vai entender. De qualquer forma, depois de fazer a habitual troca do uniforme pela roupa colante azul-grená (recentemente virou embaixador da UNICEF, desde então usa as cores do Barcelona) partiu em um vôo habitual. Após alguns segundos o inesperado aconteceu. Depois de impedir o choque entre dois transatlânticos e consertar duas turbinas de jumbos avariadas simultaneamente direcionando ar frio das duas narinas em posições opostas (Lois vai adorar isso), Clark teve a brilhante idéia: Vou voltar ao passado! Indiferente que essa podia ser uma idéia tão vagabunda que provavelmente não poderia existir na vida real – o que o colocaria automaticamente na lista de ficção e sua autobiografia na seção de comédia – ele executou seu plano de voltar ao passado, não sem antes entregar as trufas, Deus me livre. Nietzsche estava tomando um café em um dia ensolarado em Turim, mostrando que europeus não tem criatividade, o que de fato corrobora com a tese que o desenvolvimento da sociedade ocidental teve o tédio insuportável como força motriz. Ao ver aquela figura com botas emborrachadas aproximar-se em uma velocidade incrível e se sentar à sua frente sem pedir licença, o notável filósofo pensou duas coisas. Primeiro, isso não existe, é apenas um produto sensorial de um mundo que não pode ser conhecido intrinsecamente. Segundo, pela educação deve ser americano.

“Que queres”, perguntou. “Conversar contigo”. “Pois bem, aqui estou. Quem sois tu?” “Meu nome é Kal-El, mas sou conhecido como o Super-Homem”. “Ahm, sei”. “Venho do futuro à sua procura!” “Sei, tou sabendo”. Depois que disse isso Nietzsche bocejou sem cerimônias. Indignado, o forasteiro perguntou-lhe: “O quê, não acredita em mim?” “Amigo, francamente, você é o oitavo lunático que me aparece dizendo que é o super-homem. Faça-me o favor. Pra começar você entendeu tudo errado. Não é super-homem, é Übermensch.” “E não é a mesma coisa?” “Não, diabos. Über quer dizer além, não super, que vem do latim superior. O Übermensch é o homem que ultrapassa a condição do homem e chega a um novo estágio, uma nova humanidade!” “Feito o Übersexual?” “Hein?” “Übersexual.” “Que é isso?” “Ah, é um negócio do futuro, você vai ver. Primeiro tinham os homens arrumados. Depois apareceram os metrossexuais, que são os homens que não tem vergonha de se arrumarem demais. Aí vieram os übersexuais, que não tem vergonha de não ter vergonha de se arrumarem demais.” “Que sem-vergonhice esse teu futuro”. “Podecrê. Mas é isso, eles vão além da definição”. “De uma forma bem tosca, talvez seja por aí mesmo”. “E porque eu não posso ser um überman? Eu vôo, tenho visão telescópica, com meu fôlego posso congelar, com meus olhos eu incendeio qualquer coisa”. “E como você consegue fazer isso”. “Sei lá, é da minha natureza Kryptoniana”. “Hã?” “Kryptoniana, eu nasci em Krypton, outro planeta.” “Pera, então você não é humano”. “Teeeecnicamente não, não sou”. “Então acho que solucionamos sua questão, meu caro amigo azulado, você não pode ser über-humano se não for humano”. “Mas eu sou praticamente humano, Fred!” “Garoto, ser humano envolve um complexo conjunto de limitações e características com as quais aparentemente você não comunga. Inclusive eu arriscaria que esse cavalo é mais humano que você”. O cavalo não olhou de volta, mas se pudesse teria olhado e feito uma cara de “não me meta nisso” “Como assim?” “Ele está sujeito a mais limitações existenciais que você, um aborto esotérico espacial”. “Eu discordo, tenho certeza que eu sou mais limitado que ele”. “De certa forma sou obrigado a concordar com você, mas é justamente a transposição dessas barreiras que forma o Übermensch, é vencer um olhar que te aprisiona em direção a uma nova concepção existencial”. “Acho que finalmente entendo, Fred. Já sei como vou superar minhas limitações, obrigado!” “Não que isso seja possivel meu jovem, mas como pretende fazê-lo?”

Em centésimos de segundo Clark pegou um pedaço de carvão com uma mão na lareira dentro da casa da vizinha. Com sua visão de calor e a pressão de suas duas mãos comprimiu o pedaço até que formasse um imenso diamante bruto, para a surpresa e choque do filósofo, que a tudo observava atônito. Levantou-se, olhou pro cavalo que comia seu almoço despojadamente, enquanto seu dono descansava em uma carroça maltrapilha. “Amigo condutor, te dou esse diamante se vc der uma surra nesse cavalo estúpido. Quero ver quem é mais humano agora. Adeus, nobre filósofo, levarei sua mensagem de compreensão ao povo do futuro!” E assim partiu.

FIM

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