Humanos

Wagner Artur

“Eu sou um ser humano, e nada do que é humano me é estranho” – Terêncio

O narrador decide, em um ato completamente independente e arbitrário, abster-se, por hora, da ferramenta da primeira pessoa, de se referir a si mesmo. Através deste método, o narrador busca afastar-se temporáriamente de sua condição humana e tentar uma análise idônea de um, assim chamado, ser humano. Então, com seu projeto iniciado, agora é o momento de escolher o local de observação. Como o alvo é observar e procurar entender o ser humano em sua vida cotidiana, o narrador opta por um lugar que vários seres humanos, especialmente os mais simples, que por sinal, ele considera mais interessantes, frequentam. Um ônibus convencional. Pois bem, lugar escolhido. O narrador, ainda buscando manter uma visão imparcial dos fatos, embarca no ônibus com um pequeno salto. Sobe a pequena escada e encara o motorista. Sólido e tranquilo, observando o horizonte. Aquela parada parece ser mais uma entre milhares de paradas, uma a mais, sem nada de mais. Nenhum atrativo, apenas mais um passo numa grande jornada, que se encerrará ao fim do dia. Será que o ser humano é assim? Ao reconhecer que um caminho é longo, fita seus olhos em seu destino, e ignora todo o trajeto? Ignora os detalhes que tornam o mundo mais rico, e quem sabe belo? O narrador não deseja julgar. Apenas buscar o questionamento. Caminhando adiante, para defronte uma roleta. Sentado um pouco acima e ao lado desta, está outro senhor, de aparência um pouco mais jovem que o motorista, mas com um aspecto de igual desolação. O narrador entrega-lhe em mãos a quantia de sua passagem. Sem um ruído, ou sequer um olhar de confirmação, o cobrador permite ao narrador a sua passagem pela roleta e acesso ao interior do ônibus. Com um solavanco e sobressalto, o narrador passa e divaga sobre a função daquele homem. Será parte do ser humano este princípio de ação e reação? Estará essa idéia, de que o mundo move-se em termos de fazer algo, e só então, receber algo em troca, arraigada dentro da própria alma humana? Ou será que os costumes e o tempo o tornaram assim? Algum poderia argumentar, sim, mas esta é a sua função. Receber, para fornecer. Mas aí o narrador se questiona: Mesmo assim, ele não é apenas um representante físico de outra pessoa que pensa deste modo? O narrador prossegue adiante, pois acredita que sobre o ser humano existe ainda mais a ser vislumbrado. Segue andando entre as fileiras de cadeiras, algumas preenchidas outras não. Muitas pessoas sós, outras acompanhadas. Curiosa essa formação. Nem sempre o ser humano prefere a companhia de seus iguais, as vezes prefere estar absorto em seus pensamentos. Uma cadeira lá perto do final chama sua atenção. Quase na antepenúltima fila, uma pessoa sentada na cadeira esquerda, deixando a janela vazia. Ao se aproximar, o narrador imagina que aquela pessoa não está interessada em companhia. Tampouco em observar o mundo em seu fluxo contínuo… Que buscará ela? Uma verdade em si mesma? Nisto o narrador lembra-se do motivo de sua pesquisa. Buscar entender o ser humano, capaz de fazer coisas tão belas, atualmente rumando cada vez mais só e triste, por sua vida. E ao mesmo tempo, continua capaz de fazes as tais coisas tão belas. Uma força misteriosa parece empurrar esse povo para um abismo, enquanto, com uma mão que ainda tem forças pra lutar, esse povo se agarra nas bordas da vida. Que fio de esperança será esse? O narrador se senta, na última cadeira do canto, na última fileira. Ao sentar, repousa suas mãos à sua frente, e fecha seus olhos. Abre-os, procurando a fonte de um estranho som. Ao seu lado, um homem parece cantar algum tipo de canção, bem baixinho, enquanto marca o tempo com seu pé. Ouve-se uma melodia fraca, mas surpreendentemente alegre. Uma melodia que talvez traga um pouco da memória e da lembrança que é este fio de esperança, a chamada paz. Paz de espírito. Então o narrador levanta-se, sinaliza a parada do ônibus, e faz suas as palavras do grande dramaturgo Terêncio, que na antiguidade já dizia:”Eu sou um ser humano, e nada do que é humano me é estranho”.

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