Inanição

Wagner Artur

“Como é sombria a alma humana…” – pensou consigo num instante – “como é sombria a alma humana…” – declamou em tom reticente entre seus pensamentos enevoados. Enquanto olhava as notícias do jornal, um panorama breve do cotidiano se descerrava nas imagens e textos diagramados no papel visando demonstrar de forma coerente uma espécie de retrato da realidade. Durante aquele exercício que apesar de dominical e matinal pouco tinha de religioso, costumava ficar algumas horas entretido perdido nas notícias e nas manchetes. A cidade ficara gradualmente mais distante, ao longo dos anos. Fatores como criminalidade e violência urbana concorriam com quesitos de saneamento e urbanismo pelo destaque em sua mente, embralhada com memórias do passado e do presente, que se perguntava em um grito tão histérico quanto mudo. Perguntava-se “O que fizemos com nossa cidade?”. Questionava-se qual furacão furtivo lhe roubou a beleza do ontem. Se envelheceu e o mundo perdeu as suas cores, ou se em um ato de repúdio ao desprezo recebido no decorrer dos anos, as cores simplesmente cansaram de serem vistas como preto e branco, se refugiando fragilmente nas mentes das crianças, um lugar seguro onde elas não desapareceriam como naqueles fotografias velhas de juventudes perdidas. Ordem e progresso, desenvolvimento é palavra de ordem de uma sociedade que simplesmente não sabe o que fazer. Na falta de algo mais interessante, vamos nos desenvolver. Vamos trabalhar duro, vamos semear o futuro de nossos filhos. E a janela ao seu lado berrou com toda a força nas linhas da pintura de realidade que se encaixava na moldura de suas ombreiras, exemplificando uma rua onde já houvera largos canteiros arborizados, e que hoje foi duplicada para melhorar a fluência do trânsito. E naquele momento uma chuva fina que caia displicentemente aos poucos se desdobrou em um acesso de fúria, ou seria tristeza, do céu, quando aquelas gotas batiam no vidro da janela e choravam copiosamente, gota após gota, lágrima após lágrima.
Sua primeira reação foi emitir um grito gultural, algo que não pode ser descrito de forma diferente do que algo que simplesmente grande demais. Aquelas coisas que se fala mais com um olhar do que com livros e livros. Um grito dilacerante da inocência perdida, que se descobre já perdida, e de certa forma, irrecuperável. Arremessou as folhas de jornal coloridas com suas gravuras e colunas sociais, notícias culturais e súbitamente aquilo tudo era demais, e ao mesmo tempo era tão pouco. Levantou-se da poltrona confortável ainda em seu urro desalmado, e encontrou sua família assombrada na sala. Antes que mais lágrimas pudessem ser derramadas ou que algum olhar deixasse escapar o medo de nós todos, ele começou a falar. E falou muito. Falou dos seus sonhos, falou da sua vida, falou do passado, falou do presente. Falou que era simplesmente intolerável. “Porque as coisas tem de ser assim?” – berrou em seus olhos faiscantes, enquanto dizia que é natural do ser humano se distrair do propósito pela simples razão de não ver um propósito claro nas coisas. O mundo segue sua marcha irredutível, mas jamais para pra se perguntar da necessidade de se dar mais um passo. Como uma canção de cavalaria, em que os antigos cantavam belas histórias distantes, ele cantou com suas palavras gestos e olhares uma história que se repete desde que gente é gente. O maior defeito da vida é a sua inércia. A vida simplesmente caminha, e na falta de razão, caminha da mesma forma. Disse também que não pensassem que ele enlouqueceu, pelo contrário, poucas vezes estivera mais lúcido. Não teve um lampejo de brilhantismo e sua vida mudara. Não queria simplesmente trazer pra si algum mérito outro que a vida, ter gosto de viver. Explicou demoradamente que naquele instante, a revolução não era uma manobra, mas um reflexo involuntário, como alguém que mergulha em uma banheira, e cujo organismo, ao sentir o oxigênio sumir, se rebate de todas as formas possíveis e com uma força jamais imaginada, se move a caçar um pouco mais de oxigênio, um pouco mais de vida. Revolução, essa era a palavra correta. Revolução. É preciso dizer pra as pessoas que a vida é pra ser vivida agora, a cada instante, a cada momento. Não nos fins de semana, no feriadão, no carnaval, ou nas férias. Afinal, assim como a vida, a morte não espera. Simplesmente vem. Portanto é preciso lutar, é preciso viver. É preciso ser humano.
Calçou seus sapatos, e no momento que abriu a porta de casa, se viu novalmente dentro da sala, sentado em sua poltrona, lendo seu jornal. Olhou de um lado para o outro, a chuva ainda caía fina lá fora. Olhou para as mesmas notícias no jornal, e então só teve tempo de balbuciar mais uma vez – “como é sombria a alma humana…” – antes de se render mais uma vez ao domínio dos sonhos, em refúgio de sua própria fraqueza.

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