Migalhas

Wagner Artur

No final daquela tarde de abril o jornaleiro fechou sua banca mais cedo que o habitual.
Guardou primeiro as revistas e jornais pendurados do lado de fora, depois a maquineta de doces e um grande cartaz grudado a um cavalete removível. Do lado de fora um garoto de bermudas, sandálias, uma camisa azul salpicada de farelo de pão e um sanduíche pela metade na mão assistia ao ritual de organização. Em silêncio, o homem desceu a porta corrediça metálica, e a prendeu junto à soleira inferior com um pesado cadeado sem chave, com senha. Pegou um boné e uma pequena caixa que deixara de lado e saiu caminhando lentamente descendo o canteiro e atravessando a rua. Do outro lado caminhou mais alguns metros entre prédios e lojas até uma parada de ônibus, onde sentou e aguardou por alguns minutos, junto a outras pessoas. Quando o ônibus chegou, subiu sem pressa, e tomou um assento na janela, após pagar a passagem e dar bom-dia ao motorista e ao trocador. Desceu no ponto errado, e teve de andar
um pouco mais até chegar a seu destino, uma casa pequena, com portão e janelas brancas. Tirou do bolso um molho de chaves e abriu as fechaduras, uma por vez, até entrar na casa, já escurecida pelo entardecer. Após depositar a caixa que trazia consigo sobre a mesa de centro, caminhou pelo corredor apertado da casa vazia até um dos quartos. Vasculhou o armário até encontrar uma outra caixa branca, desta vez um pouco maior que a anterior, e trouxe-a consigo até a sala. Sentou no sofá e passou alguns minutos olhando para os quatro porta-retratos posicionados na estante à esquerda da televisão. Olhou para a caixa que trouxera consigo da banca e inspecionou seu conteúdo. Um maço de notas e um pequeno caderno, onde ele rabiscou algumas palavras antes de assinar e fechar a caixa, depositando-a mais uma vez na mesinha. Se levantou e foi até o porta-retratos mais afastado, à direita. Ao seu lado também estava um porta-retratos deitado. Retirou a foto da moldura que ainda estava de pé e
deu uma rápida olhada na foto deitada, colocando-a de volta no lugar. Dobrou a foto que acabou de retirar, deixando-a na caixa que acabou de retirar do armário. Calçou os sapatos que tinha deixado ao lado da porta e apagou as luzes da casa, trancou todas as portas e o portão e saiu levando consigo somente a caixa que retirara do armário. Mais uma vez pegou um ônibus, e após alguns minutos chegou em uma parada meio afastada, em uma zona portuária. Ele caminhou por alguns metros até uma espécie de marina particular, que estava vazia, fechada com um portão baixo. Pulou o portão e caminhou até o pier mais próximo. Descalçou os sapatos e colocou seus pés na água, e assim ficou quinze minutos observando o movimento da maré nos barcos ancorados. Puxou para si a caixa que trouxera consigo, que fora retirada do armário, e de dentro dela tirou um revólver. Abriu a arma e colocou cinco balas nos seis espaços disponíveis. Girou o tambor da arma e voltou a fechar o revolver, sem olhar em sua direção. Pegou mais uma vez a foto dobrada que estava dentro da caixa, e enquanto a olhava encostou a arma na sua cabeça e atirou. A arma fez um ruído surdo, mas o silêncio só foi quebrado pelo gemido de susto emitido pelo homem, que tremia muito. Ele engatilhou a arma mais uma vez, e antes que apertasse o gatilho novamente, olhou para a foto. Naquele instante se abateu sobre ele uma chuva torrencial, saída de lugar nenhum. Ele amassou a foto entre os dedos, enquanto as lágrimas se confundiam com as gotas da chuva. Encostou mais uma vez sua arma em sua testa. Então, ele desandou a chorar. E lá ficou por trinta minutos, chorando, antes que levantasse, juntasse suas coisas, se calçasse e fosse embora pra casa. Se alguém tivesse assistido toda a situação, provavelmente saberia dizer se aquela chuva miraculosa lhe lavou migalhas, ou se migalhas foram tudo o que lhe restou.

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