Minha professora sempre disse que título se escreve no final

Wagner Artur

Um dia qualquer desses dei uma topada e decidi odiar o método. Desde então tenho tido muita dor de cabeça. Fordismo, Toyotismo, o escambal, a eficiência me revolta. Com o desenvolvimento, a lógica da eficácia pede que se gaste o mínimo de esforço pra se alcançar o melhor resultado, o que traz uma solução econômicamente aprazível mas socialmente irritante. A despeito da necessidade visceral do trabalho e da produção pra a sustentação da humanidade em seu devaneio blasé, o método – mais básico pressuposto científico – enche a todos gradualmente de meias-verdades, e sem que percebamos, eventualmente nos tira a alma, e já não podemos mais pensar em nada. Me aterroriza o jeito que o método tende a estar certo. Ele diz que se uma ação qualquer produz uma reação específica sempre que iniciada, há um padrão, logo é previsível que aquela ação produza sempre aquela reação. Também fala que toda vez que pular na água vou ficar molhado. Não nos deixa esquecer que se por a mão no fogo, vou me queimar. A experiência dedutiva logo estabelece padrões de segurança, me limitando, mas me deixando livre e com novos ares para trabalhar. Pois é, isso me dá nos nervos. O problema resida na assunção de uma rua sem saída. Vemos uma situação, consolidamos um pressuposto e passamos adiante na lógica. Mas e se esse pressuposto for falso? Nosso castelo de cartas cai. Sempre fui curioso pra saber o que aconteceria se um dia eu deixasse um objeto escorregar de minha mão e ele simplesmente não caísse. Ficasse por lá mesmo, estirando o dedo médio pra a gravidade. Provavelmente isso não vai acontecer, você me diria. Aí que está a beleza da coisa: não é impossível, mas improvável. O mesmo método é falho em si, e pode ser quebrado a qualquer instante, bastando um resultado anômalo em pesquisa ou uma mente determinada a por o método em seu devido lugar, o de ferramenta tão confiável quanto uma régua ou uma caneta. Confiar que um mais um sempre será dois é às vezes necessário, ou jamais avançaríamos. Mas precisamos ter a perene tarefa de duvidar, ver o mundo por diversos pontos de vistas. A industrialização do pensamento faz que sejamos mais eficientes, e nos leva mais além. Mas é um avanço frágil, que pode cair na cadência de uma mente com boas idéias. Para alcançar os resultados satisfatórios seguimos o manual, a cartilha, as regras à risca. Andamos por caminhos já traçados, aprendemos com os melhores, os mais sábios, os mais experientes. Ficamos tão metódicos, racionais e coerentes que dentro de pouco tempo qualquer criança de cinco anos sabe lidar melhor com o desconhecido do que nós. Pra eles é possibilidade, pra nós é ceticismo. Nós seguimos regras pra tudo, seja por ser o certo, seja por ser o costumeiro, seja por ser o ideal. Já disseram por aí que só homens excepcionais são capazes de ir contra as regras pelo que acreditam. Não sei se isso é de todo verdade, mas sei que temos tanto medo de não nos reconhecermos sem nossos costumes que não ousamos mais, não buscamos mais, e andaremos sempre pelo zoológico à beira da floresta. Sempre na margem, jamais no rio. Devagar se fica ao longe?
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Uma resposta para Minha professora sempre disse que título se escreve no final

  1. Marcelo disse:

    Muito bom, seu agitador. :)

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