O canto dos fracos

Wagner Artur

Certa vez em uma pequena cidade do oriente aconteceu algo que merece ser contado. Por mais que tudo tenha sua história, e que cada história mereça ser contada de seu jeito especial, essa história é ainda mais singular, e portanto, precisa ser contada de uma forma mais singular ainda. As razões ficarão claras mais tarde. Em uma cidade, como eu já disse, do oriente, vivia um homem muito bom. Ele chegara no local há alguns anos antes, vindo de ninguém sabe onde. Vestindo uma roupa estranha, o forasteiro era naquela paisagem exatamente o que se propunha a ser: um forasteiro. Seu nome um dia alguém já soube, mas com o passar dos dias todos passaram a chamá-lo pela sua ocupação, o ofício que realizava todos os dias, na medida do necessário. O Encantador. O escarcéu com sua chegada, foi grande. Afinal, gente estranha por aquelas paragens não era algo comum, apesar de não ser raro. Chegou em dia de feira, apinhada de gente barulhenta e toda sorte de badulaques coloridos e curiosos. O estranho procurou uma das banquinhas que tinham alguns alimentos, e pediu algo pra comer. O sol impertinente formava um dueto nada agradável com a areia ferina que insistia em incomodar, nas ocasionais rajadas de vento. A vendedora, percebendo o quão alquebrado já estava o rapaz, deu-lhe um copo d’água, mas pediu por algum dinheiro para que pudesse prover alguma comida. Afinal de contas, filhos não se alimentam de bondade e misericórdia. Ao menos não as da sua própria mãe, já que o pai a deixara sem vestígio. O estrangeiro sinalizou tristemente que nada possuia para dar em troca do alimento, ou até da bebida que tomou em alguns segundos. A senhora então fez a grande pergunta que talvez tenha mudado o curso dessa história: “meu jovem, o que você sabe fazer de especial?”, perguntou solenemente. O rapaz deu um sorriso meio tímido, e respondeu inseguro: “eu conheço animais. só isso, sei fazer”. A mulher ficou surpresa, e num misto de descrença e piedade, deu comida e ofereceu abrigo ao jovem homem, que agradeceu prontamente e se comprometeu a um dia retribuir seu favor. No dia seguinte, ele caminhava pela rua, procurando uma forma de empregar seu dom, quando encontrou uma cobra deslizando pacientemente pela rua empoeirada, em uma sombra próxima a um muro bem longo. Em um passo ágil e ao mesmo tempo comedido, ele se aproximou da serpente, que era de uma espécie tão venenosa quanto incomum. Sem cerimônias, sentou ao seu lado, e olhou pra aquele animal, que como num momento de espanto, parou e encarou aquela figura estranha que bloqueava seu caminho. Ambos se olharam por alguns minutos, enquanto alguns transeuntes paravam para observar a cena, sem produzir um ruído. Alguns minutos depois, o rapaz levantou-se, deu meia-volta, enquanto a cobra fazia o mesmo. Surpreendentemente, a cobra simplesmente deu meia-volta e se dirigiu para longe da cidade. Quando perguntado da situação, ele limitou-se a dizer: “apenas nos olhamos, e assim, nos conhecemos”. Todos ficaram ainda mais confusos, e o mistério cercava aquele viajante como uma densa névoa de manhã, impedindo a vista de qualquer raio de sol. Eventos variados, às vezes cômicos, às vezes tensos, se repetiram por vários dias, depois semanas, meses e anos. Certa vez, um circo passava pela região, e um leão escapou. O dono do circo, um homem bom e já grisalho, ficou tão preocupado que chamou seis de seus homens para partir com ele pela cidade buscando em cada canto o feroz animal. Mas o povo não se alarmava, pois já sabia que o leão não faria mal a ninguém. O dono do circo encontrou o animal dormindo do lado desse jovem estrangeiro, que quando questionado do evento, limitou-se a responder: “um olhar feroz esconde um coração frágil”. No virar das ampulhetas, aquele jovem se tornou um homem, e não só sua presença tornou-se um prazer para toda a vila, bem como sua sabedoria era famosa na região. Vinham pessoas importantes, mercadores, perguntar sobre as mais diferentes situações, problemas e questões. Sempre respondia com calma e simplicidade que não sabia de muito, mas era bemquisto por todos. Começou a ajudar a sua senhoria em sua banca, e oportunamente, agradava as crianças com pequenos truques com animais domésticos. A pequena vila cresceu, o fluxo de mercadores intensificou o mercado, e aquele jovem desconhecido cada vez mais tornava-se um senhor reconhecido, sem jamais perder a humildade. Porém, uma grande tragédia se abateu pela região, e uma doença grave dizimou a pequena vila, levando consigo o bom estrangeiro. O encantador, como era chamado, partiu de uma forma suave, assim como chegou, levando consigo o coração de uma pequena vila, e ensinando a todos que não há diferenças que um coração sincero não seja capaz de diminuir.

– E aí?
– E aí que é só.
– Como assim, só? Acabou? Assim, sem nada?
– Assim. Se é sem nada é opinião sua.
– Que história piegas, é podre!
– Juízo de valor seu.
– É um fato. Veja bem: a história não tem moral! É um sujeito autista que chega numa cidadezinha boba, e miraculosamente, está nos lugares certos nas horas certas, e tudo dá certo no final!
– É uma história. Você me pediu uma história, uma história eu te dei.
– Irreal. Surreal. Isso não é digno de ser chamado de história. É uma atmosfera lúdica que traz uma vaga lembrança de algo que em uma perspectiva muito livre venha a ser chamado de realidade.
– E por ter um tom surreal não pode ser reconhecida como uma história?
– Poder pode, mas sem nenhum viés de racionalidade. Existe uma divisória clara entre o que chamamos de mundo real, e o mundo da fantasia. Óbviamente, qualquer história é fantasia, porque afinal, não é verdade concreta. Afinal, se eu digo uma joguei uma pedra na lua, eu não estou jogando uma pedra na lua, estou criando uma ilusão através de minha linguagem, que é reconhecida por sua linguagem como uma imagem de uma pedra sendo arremessada em direção à lua. mas nenhum objeto é deslocado no processo. Mas você não pode encarar uma história verossímil como se fosse ilusão, e o contrário também.
– Eu entendo o seu argumento, mas não entendo o porque não. Qual o problema em ser perder entre a ilusão e a realidade?
– Veja bem, existe diferença entre o concreto e o abstrato? Se existe é por alguma razão. O abstrato existe para nos dizer como as coisas deveriam ou poderiam ser, seja em suas formas boas ou más, e o concreto existe pra dizer como elas de fato são. Qual é a função do contador de histórias? Entreter de forma simples e descompromissada? Então essas historietas fantasiosas são até aceitáveis. Se o objetivo é informar a história, então existe um padrão totalmente diferente a se tomar.
– Mas minha cara, toda história é uma versão contada. Você sabe muito bem que a história pertence aos vencedores, sempre foi assim, e assim será. Eu sinceramente não entendo o que você está defendendo… Você está criticando a história por não ter ligações diretas com a realidade? O que é a realidade?
– Eu e você somos o real. O Encantador é o falso. Nós somos o forte, ele é o fraco.
– E se nós fôssemos meras histórias?
– Como assim?
– E se eu e você, não fôssemos reais? Fôssemos meras criações temporárias, uma existência condicionada em uma história? Seus conceitos de realidade não são intrínsecos demais a uma condição que nem mesmo você tem como ter certeza? Nesse exato momento todo nosso ser pode se resumir a algumas linhas lidas por alguém, ou mesmo poderíamos ser os deuses do universo, sendo nossas vidas o centro de tudo que existe. Tanto um argumento como o outro são igualmente válidos e improváveis… O fato é de que existem dois papéis na vida. Existe aquele que conta a história, e aquele que faz parte da história. Cada ser humano é uma história em si, e enquanto é participante de infinitas histórias dos outros, só conta uma história, a própria história, a história de sua vida. A cada dia escreve suas linhas com seus passos e seus destino com seus sonhos.
– E qual o sentido de tudo?
– E há como se saber isso? O que eu sei é que vivemos um sonho, um sonho em conjunto. Independentemente de realidade ou ficção, nossa vida deve prosseguir, vivendo ao máximo sempre que possível.
– E esse personagem? Você que criou? Se a vida é sempre assim, vivida na cadência de um sonho eterno, como se pode criar uma realidade nova dentro de um sonho? O que sonhamos já está em nossa cabeça, faz parte da flora do nosso subconsciente. Você não pode simplesmente criar sonhos. Sonhos são reflexos pálidos e cálidos da nossa vida acordada… se fôssemos um sonho, qual seria o nosso reflexo, a nossa realidade?

No instante em que o Encantador terminou de me contar aquela história, eu não sabia o que responder. E agora, em vistas de sua lápide fria e singela, eu me perco imaginando o que ele quis dizer, e na verdade, qual era o seu verdadeiro dom, afinal. O que torna a sua história uma grande história em si, não é um ato isolado, uma situação especial, ou um acaso espetacular. Mas simplesmente que uma vida foi vivida em sua forma mais pura, em uma explosão criativa… e ao me demonstrar o duelo do sonho com a realidade talvez ele quisesse me dizer que a realidade em si se perde na confusão entre esses dois debatedores apaixonados… o sonho almeja a realidade como a realidade busca o sonho. E nós, atores dessa peça, entoamos durante todo o decurso de nossa vida uma cantilena lenta e paciente, somos personagens da história, afinal, o canto dos fracos.


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