O Deus do Vento

Wagner Artur

há muito tempo, em um reino ancestral
havia um monge que vivia em reclusão
as terras do sol nascente ele trilhava
buscando achar a tal sabedoria

quem quer que fosse essa figura
a todos não passava de um mistério
aos jovens suspirava sem jamais se entregar
aos antigos dava conforto traiçoeiro

caminhava incessante pelas vilas do país
sem jamais romper seu exílio
a ninguém jamais se dirigia
e com um olhar sereno a todos respondia

andou nas copas dos pinheiros, nos campos dos cedros
nas montanhas serenas, nos rios confortantes
em noites serenas questionava o luar
até que desapercebido, espiou a fronteira dos vivos

ao perceber as árvores sem sombras
o som sem limites, em espirais infinitas
percebeu que o tempo ali se perdia
e em uma prece pediu por auxílio

floresta que me guarda! vento que me guia!
a ti dirijo minha prece, cantou com fôlego de titã,
terra que me acolhe! fogo que me consome!
me traga de volta meu caminho, afaste as sombras da lua!

a brisa fria trouxe-lhe de volta um sussurro
como resposta a seu pedido desesperado
segue o vento do tempo, bondoso amigo
é esse o conselho que te digo

o monge sábio logo sabia de quem se tratava
e quem logo soprara em seu ouvido
era o feroz deus do vento que respondia
após ter ouvido sua singela oração

deus do vento, nobre senhor! mas que vento seguir?
que tempo respeitar? como posso eu saber em que direção
sopra o vento do tempo, e ainda mais perdido me torno
ao saber que não tenho opção. sobreviver para viver, é a solução?

me encontro no limiar do não-ser, e com desconfiança olho pra trás
vejo o ser como força viva, mas com a mesma beleza que o não-ser me dá
no desencontro do meu caminho, mais me assusta é saber que vou retornar ao ser
mas viver sem saber o que há a ser vivido, não por opção, mas por castigo

bom deus do vento, não pode haver nisso justiça
de vós deuses se manterem silentes diante de tal convergência
em que nossos medos se unem, nossos sonhos se mesclam
nada sabemos, nada conhecemos, somos incompletos

querido filho do sol, respondeu o vento paciente
ouça com atenção, a brisa balançava as árvores enquanto falava
és meu filho também, e de tua vida participo desde o primeiro suspiro
vivo em você e te digo o que te oferto desde início

o vento pode ser forte como uma tempestade ou singelo como um afago
se manifesta em faces de dor, alegria ou temor
e se quiserdes de fato saber o que fala o vento
ouça o que digo com atenção, e não se assuste

se voltas, voltes como um furacão, não se perca em um segundo indeciso
se partes, o faça por que quer partir, não por ter medo de voltar
qualquer que seja sua escolha, lembre-se que a tempestade arrasa a todos
mas sempre se transforma em calmaria

a força que te consome é a mesma que te motiva
e que te consuma por inteiro, se esse for o preço
siga seu caminho, em qual direção decidir
lembre-se apenas do vento, que segue o tempo

não é seu escravo, não é seu mestre
mas dança todos os dias consigo
sê um e pleno a cada instante
e busque o significado da vida

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