O lado negro da lua

Wagner Artur

Meu avô me contava sempre, quando eu era ainda pequeno demais pra saber mais sobre a lua do que o que todas as crianças sabiam, que era uma bola no céu que ficava trocando de lugar com a bola-sol, como quem brinca de esconde-esconde, que lá morava um menino, no lado escuro da lua. Esse garoto, mais ou menos da minha idade, apesar de que meu avô admitia que ele tinha uma idade meio duvidosa, era da idade de qualquer criança que olhasse pra a lua. Nunca entendi esse conceito, mas vá lá, eu também não entendia como a tevê funcionava, nem por isso deixava de achar legal. Mas de volta ao menino, meu avô dizia que ele era um garoto feliz. Eu perguntava, sem resposta, como danado aquela criança tinha chegado lá, e por que eu não podia ir. Afinal, que injustiça era essa, eu era um bom garoto, fazia a lição, pedia a benção aos mais velhos, eu merecia ir, e ainda ir na primeira classe com direito a bolachinhas até me empanturrar. Meu vô se limitava a menear a cabeça e dizer que essa pergunta é o tipo de pergunta que não se pode responder. Ele disse que o seu avô o contou a mesma história, e só mais velho que ele descobriu como o menino chegou lá. Fiquei imediatamente indignado. Estavam fazendo um complô contra mim, queriam em impedir de ir pra lua, mas não iam conseguir, aqueles patifes malvados. Meu avô me deixou chiar e espernear à vontade, até que eu, inconscientemente, fosse derrotado pelos poderes malignos de um bolinho mágico que minha vó fez. Golpe baixo. Os dias passaram, eu fiquei mais velho, esqueci do menino da lua. Natural, todos nós somos ensinados a chegar uma certa idade, e renunciar a nossas fantasias infantis. Na minha época recebi protestos severos do Coelhinho da Páscoa e do Papai Noel, que chegou a me ameaçar de ser banido do Pólo Norte. Sempre fui uma criança criativa, você sabe. Mas me disseram que eles não existiam. O Coelho jurava por cima de sua cenoura que existia, mas os protestos familiares eram mais fortes e incansáveis. “Saia desse mundo de sonhos, meu filho” – diziam em coro. Enfim, cresci. Me tornei um sujeito comum, plenamente normal. Me casei, tive um filho, lindo como a mãe. Fofinho e cheiroso, o que mais me apega a ele são seus olhos negros. Quando o vi pela primeira vez, compreendi meu velho avô. Finalmente descobri no reflexo de seus olhos, o menino que mora no lado negro da lua, solitário, dormindo entre as estrelas e fugindo da luz, pra mergulhar na noite dos sonhos.
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Uma resposta para O lado negro da lua

  1. james disse:

    vai toma no teu cu texto ruim

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