O pior trabalho do mundo

Wagner Artur

De todas as coisas que eu aprendi aqui na Holanda – sim, eu tou na Europa, não te disse? – e, acredite, foram MUITAS – a benefício da verdade é preciso que se diga que a imensa maioria dessas coisas é completamente inútil e/ou irrelevante, pra variar, mas não deixa de ser algo aprendido – uma das que tem ocupado meu tempo com maior regularidade é a questão inglória d’O Pior Trabalho do Mundo. Afinal, todo mundo em sua quarter-life crisis se pega pensando no futuro, o que fazer da vida e tal. Eu não, mas imagino que a maioria das pessoas o faz, então deve ser mesmo uma questão importante.
Frequentemente assisto à noite no Discovery Channel (com legendas em holandês!) o programa Dirty Jobs, apresentado pelo sempre hilário Mike Rowe. Nesse programa ele sai mundo afora atrás daqueles trabalhos que ninguém gosta mas alguém precisa fazer. Eu já vi todo tipo de bizarrice. Você acha que limpar piscina é ruim? Experimenta limpar manualmente um esgoto de 100 anos que vc tem de caminhar por túneis de menos de um metro e meio de altura se esfregando em mais baratas que as tropas alienígenas de Tropas Estelares. Você acha que dar banho no cachorro pode ser sujo? Que tal trabalhar como coletor de vômito de coruja? Pra quê? Pra procurar ossos de ratos nos dejetos, como vc acha que escolinhas ao redor do globo tem aqueles esqueletinhos em laboratórios de biologia? Coletor de bicho atropelado. Limpador de concreto em basculante. Pesquisador de cobras com direito a mordidas eventuais. Tratador de um centro de reabilitação de macacos. Tosador de alpaca. Não sabe o que é isso? Imagine uma lhama cuja manobra de defesa é simplesmente escarrar em você. Sim, acho que você tem uma imagem do drama. Mas o pior que, mesmo depois disso tudo, eu descobri que existe um trabalho bem pior.
Citando MOODY, Hank, personagem central da série Californication: o pior trabalho do mundo é ser escritor; Não interessa, você está condenado a ter dever de casa pro resto da vida. Você anda na rua pensando no que precisa escrever, você toma banho, dorme, sonha, acorda, e até escreve pensando no que precisa escrever. A frustração de ter uma monografia pra fazer (e mais uma dúzia de projetos pra escrever) é indescritível. É como se você simplesmente não pudesse aproveitar a vista porque tem de ficar tirando foto o tempo todo. Você simplesmente não consegue desligar a cabeça e parar de pensar. Mike Rowe pode tomar um banho, e esquecer seus 150 trabahos sujos. Até o Papa tem seus dias de descanso – graças ao Neto, frise-se. Mas quem resolve escrever – academicamente, profissionalmente ou por puro prazer – se submete a uma espécie de apostolado das palavras. Elas vão, elas vem, você só faz seguir o fluxo.
Compare e você verá que se do lado de cá a sujeira pode ser figurativa, o desconforto pode ser apenas enxaquecas e estresse eterno, do lado de lá eles realizam funções essenciais pra sociedade e realmente contribuem pra economia e pras vidas das pessoas. Eles são o concreto, moldando o cotidiano.

O escritor é o problema egoísta e alienado, que quer um mundo novo só do seu jeito, uma versão muitas vezes surrupiada e deturpada de tudo ao seu redor. Se alimenta da sua megalomania e satisfação advinda do seu ato criativo imperfeito que, apesar de moldar tudo não cria nada, só ilusão.

É o melhor pior trabalho do mundo, suponho.

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