Paraíso

Wagner Artur

Parte I – Paraíso Perdido?

A grande maioria das culturas e sociedades ao redor do globo parte do princípio que o homem é imperfeito, mesmo que divirjam sobre o momento exato em que ocorreu esta contaminação; se a “civilização” corrompe gradualmente, o nascimento condena com a mesma mão que conduz ao mundo ou simplesmente a raça humana é falha desde o projeto, sendo fadados então ao vício. Uma parcela destes acredita em redenção, ou seja, que de alguma forma esse estado de incompletude será eventualmente superado, e os homens voltarão a ser plenos. Uma das alegorias mais famosas da primeira fase deste raciocínio de decadência e redenção é o jardim do Éden. O homem e a mulher foram criados em um paraíso idílico, com recursos fartos e liberdade plena. Eventualmente o casal primordial violou a única regra até então existente em todo o universo: Não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal. Até aquele instante não existia essa distinção, uma concessão interessante em favor da relativização desses opostos. A lenda conta então que o casal provou do fruto – tradicionalmente representado por uma maçã, sendo então expulso para sempre do jardim, que foi então selado com uma espada de fogo e guardado permanentemente por um anjo, para que os homens jamais voltassem. De pronto já podemos fazer várias perguntas. A primeira é o tempo: não se pode saber ao certo como o tempo se passou nesse evento célebre, desde a criação do mundo até a expulsão do Éden. Tomando por base os relatos das primeiras pessoas na Bíblia, que viviam séculos e séculos, pode-se imaginar que provavelmente esse processo poderia ter durado de séculos a milênios até a expulsão do paraíso. Isso sem mencionar a possibilidade do jardim simplesmente não estar vinculado à nossa linha temporal, e ser uma espécie de dimensão paralela, como definem os autores de ficção científica. Da mesma forma, é curioso imaginar qual seriam as dimensões desse jardim, e é pouco provável que fossem as mesmas de um jardim moderno, desde aquele jardim doméstico que se tem nas apertadas casas no Japão até os imensos jardins de Versailles, provavelmente as dimensões desse jardim sejam algo totalmente diferente disso, podendo chegar ao tamanho de cidades, regiões inteiras ou até países. Um último fator que eu gostaria de comentar é que, como eu já mencionei, só havia uma única restrição ao usufruto do jardim, a de não comer os frutos de uma única árvore. Tudo o que não é proibido, é permitido, logo, basicamente o Jardim do Éden era – teoricamente – uma extensão territorial de fartura, dimensão e validade indeterminada. Segundo o plano, o jardim aparentemente seria um farol para a civilização que surgiria em breve.

Mas uma coisa me incomoda: se você planeja fazer um oásis como esse, um ambiente perfeito de sobrevivência, pra quê colocar um botão de auto-destruição assim, acessível, pra que as crianças possam enfiar o dedo na tomada e estragar tudo ao seu bel-prazer? Temos duas opções: Ou esse perigo visível era parte do teste ou parte do plano. É lógico considerar que o fruto não tinha nenhuma característica especial, como uma super-maçã que conferisse à pessoa que a comesse vida eterna, conhecimento ilimitado ou etc. Provavelmente fosse só uma fruta qualquer, uma goiaba, pêra, um caju. O poder mágico se restringiria a ser a prova cabal que a lei fora violada, ou reprovando-os no pecado original, ou confirmando o plano divindo. Assim, a fruta existiria pra ser conquistada, e após a desobediência a humanidade estaria condenada a pagar o preço por sua teimosia ou simplesmente seguir o curso do seu aprendizado – que teve como primeiro estágio a primeira desobediência como primeiro gesto de independência. Daí temos uma das principais histórias de criação da humanidade da sociedade ocidental dividida em duas possibilidades baseadas nos mesmos eleventos valorados de forma relativamente diferente. Ou seja, juntando os mesmos elementos podemos ter histórias totalmente diferentes?

Mas isso não me interessa tanto. A metáfora do paraíso perdido é certamente interessante, mas não faz sentido pra mim. O que eu me pergunto é: e se o paraíso perdido tivesse sido na verdade… rejeitado?

Falamos sobre isso amanhã.

II Parte – O Paraíso Rejeitado

De todas as conjecturas que eu mencionei anteriormente, nenhuma me parece especialmente irreal ou improvável. São opções que compartilham entre si o fardo do homem – voluntário ou instigado – de ser, através do seu livre-arbítrio, arquiteto de sua própria decadência. É uma interpretação interessante, mas outra hipótese me incomoda mais. E se homem não tiver sido expulso, mas sim voluntariamente abandonado o paraíso?

Após um tempo indeterminado no jardim celestial, o homem teria se deparado com a segunte questão: só há isso no mundo a se conhecer? Só há a ordem – ainda difusa entre o que hoje chamamos de bem e mal, para ele era tudo misturado até então – a obediência (que também não tinha valor algum de certo ou errado)? A questão física (tamanho do local, variedade das espécies de animais e plantas) fica em segundo plano, já que, em tese, o jardim do éden podia ser o mundo inteiro com tudo dentro, o que não quer dizer que não tenha como se sair, mais que pode garantir um tempo muito grande se andando dentro antes de se cogitar o tédio. Mas a questão moral não tem escapatória. E se o homem de fato chegou a um ponto em que se viu frente a um dilema: obedecer à regra de ouro ou não? Se obedecer, permanece no jardim, se não, o que acontece?

O ser humano tem um problema provavelmente estrutural, entranhado em nosso material genético. Às vez, por alguma razão estranha, o ser humano despreza o conforto. Em seu ápice, o homem legitima seu livre-arbítrio quando abandona a inércia, e de certa forma se torna completo, pois consegue finalmente atingir à finalidade da sua existência: ser livre. Você se senta num parque e vê uma criança brincando num parque com um baldinho de areia e uma pá de plástico. Ela está lá, muito entretida naquele quadrado de areia. Mas subitamente, sem motivo aparente, ela resolve sair do canto, se levanta com um jeito lento e trôpego, só pra cair de cara no chão por causa da sua falta de habilidade com essa nova tecnologia chamada perna. Ela poderia ter ficado parada pra começo de conversa? Sim, poderia. Mas ela é uma criança, e crianças são curiosas. Sim, e por ela ser curiosa como o ser humano geralmente é que ela não ficará parada se vir algo novo para explorar. Quantas pessoas não resolvem fazer verdadeiras revoluções decepcionados com a inércia resignada da sociedade? Sem querer discutir o mérito das intenções, mas sair do canto já não é algo positivo?

Será que o primeiro homem comeu deliberadamente da maçã (ou fruta correlata) buscando essa imperfeição? Buscando esse sentido de incompletude que move a humanidade em sua engenhosidade? Mesmo que não tenha muito a ver com a realidade e seja só uma mitologia religiosa, me agrada pensar assim, que a humanidade deu seu primeiro passo no mundo mostrando seu valor. Mostrando ao seu criador que o verdadeiro livre-arbitrio confirma a excelência de sua criação, que rejeita um paraíso estático em troca de algo diferente. Até pior, mas que não seja o vazio.

E nesse dia o homem desejou a morte, para que ao menos um traço da existência faça algum sentido.

 

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