Partida

Wagner Artur

Nos primeiros dias foi até fácil. A sua falta era óbvia, incômoda, clara e destacada, mas surpreendentemente, fácil de lidar. Ele não estava lá e pronto. Para ela a dor era grande, mas veio a se tornar pequena diante à penitência imposta pelo futuro dos dias. Sonho louco aquele, o de viajar. Que viaje, então, foi o que disse à ocasião. Não quis ir junto alegando ter coisas a resolver no lar, afazeres domésticos imediatos e perenes que a prendiam como uma âncora à vida na pequena cidade em que nasceu e viveu. Casados a vários anos e sem jamais ter tido filhos, o marido partiu com uma promessa de retorno e um adeus apaixonado. Dizia precisar viajar para conhecer o mundo, encher o coração, e entender uma canção. Esquisitices já tinham se tornado uma constante na sua vida desde que o conhecera, mas esta foi, de longe, a mais curiosa. Era ele um homem formado, mesmo que jovem, conhecido por sua responsabilidade de não ser afeito às loucuras da juventude, suas pequenas manias lhe davam um aspecto excêntrico, porém inofensivo. Partir numa jornada inexplicada certamente não seria de seu feitio. Logo de princípio cogitou, sob os comentários dos vizinhos e amigos da família, que ele possuía uma amante em uma terra distante, ou até uma família escondida. Os boatos eram os mais diversos, e incluíam teses das mais pitorescas, desde a da família oculta, até um império mercantil secreto num país africano com densas conexões com a máfia argentina. Mas como uma gota derramada num oceano, não fazia sentido para ela. Enquanto trocava os lençóis do dois quartos da casa, um quarto de casal, e uma cama para hóspedes, murmurava as velhas canções que ele costumava cantar-lhe. Algumas que falavam de terras distantes com reis e nobres, e outras falando da vida cotidiana, desde tarefas de cozinha até o ato de cortar grama. Tudo para ele era matéria-prima de músicas. E todas falavam de amor, e da alegria de viver. Mas para ela essas melodias converteram-se de instrumento de prazer e relaxamento, em uma tortura doce e sincera, a qual se submetia a cada dia irremediavelmente e sem arrependimento. Enquanto cuidava da casa lembrava de seu sorriso e de seu cuidado. Não que fosse homem perfeito, esse por sinal ainda está por existir, mas todos sabem que na saudade são as qualidades de que primeiro se lembra. Defeitos tinha muitos, mas nenhum que valesse a pena citar ou abrigar entre as memórias. Seu maior defeito era sua ausência. E com o decorrer dos dias, ela se tornava mais angustiante, pois nem os afazeres domésticos, nem as visitas familiares, nem os passatempos, nada eclipsava a realidade do vazio naquela casa. Eram um casal bem-quisto na região, o marido cantor, a esposa dona-de-casa. Viviam tão bem quanto é possivel a um artista se viver. Ele fazia apresentações na praça da cidade, onde recolhia alguns trocados, e às vezes nas cidades circunvizinhas, onde conseguia a maior parte do seu sustento. Amigos de todos, inimigos de ninguém, um casal feliz. Teriam certamente sido fruto de um final feliz, se a vida fosse adepta de finais felizes. Filha de um comerciante rico, saíra de casa para casar com o homem que amava, mesmo a contragosto familiar, e sabendo que este homem teria mais amor que dinheiro pra sustentá-la. Crente que isso bastaria, mergulhou numa aventura que culminou em uma casinha bonita em uma cidade simpática, em uma vida comum. Ao terminar seus afazeres domésticos, recaptulando os acontecimentos, percebeu que estava naturalmente frustrada com a vida que tinha. Tinha uma vidinha pacata, sem atrativos, e isso a enjoava. Afogada no marasmo. Agora percebia que era assim que se comportava quando se deu a partida de seu marido. Por alguns instantes, mais uma vez, os boatos que ele a havia abandonado por outra fizeram sentido. Não era ele que era comum, nem a vida que era monótona, mas ela era tão comum ao ponto de ter conseguido transformar um conto de fadas em uma crônica dramática de pessimismo acentuado. Então lá estava, aos prantos, personagem de uma história clichê, amargurada pela realidade do destino. Quem pode desconfiar que não é imune ao destino? Chorou até não ter mais forças para permanecer acordada. Lágrimas já não tinha também.
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