Pródigo

E o bom filho à casa torna. Pensamentos esvaíam-se em sua mente enquanto imaginava seu retorno ao lar. Seu velho lar, o qual abandonara anos antes, sob a promessa inebriante de poder e diversão que sua herança lhe concedia. Volta então assim como saiu, na calada da noite, tendo o silêncio como amigo conselheiro e um confessionário mais lúgubre e privado que o mais austero mosteiro. Com o silêncio repartia suas memórias de suas aventuras pelo mundo. Viagens a cidades distantes, experimentando a vida em seu momento, em seu ápice, em sua essência. Caminhava então lenta e pausadamente, dialogando com sua consciência a respeito de seus atos, e de suas conseqüências. Sua roupa estava maltrapilha, dentes amarelados e sujos, cabelos desgrenhados demonstravam uma aparência completamente adversa do estado em que iniciou sua jornada. Com vestimentas finas, um sorriso que cativa alma e espírito, cabelos belos e brilhantes, partiu. Mas algo não mudou. Seus olhos negros profundos, que à primeira vista brilhavam no momento de partida, e que a um olhar mais atento demonstravam uma dor e solidão descarada, agora sacramentavam sua situação no mínimo torta. Agora o seu antigo olhar de brilho com dor disfarçada fora substituído por um olhar de extremo cansaço, dor e amargura, porém, numa distância incontável dentro daqueles olhos penetrantes via-se uma alegria singular e comedida, por estar rumo ao lar. Lembrava-se então das noites e dias de festas, em que festejou sua vida, seu dinheiro e seu poder. Naqueles dias ainda subsistiu um certo receio por abandonar sua família e tomar parte de sua herança para viver uma vida ao seu modo etílico, mas após o terceiro copo de vinho este receio já estava bem longe dali, talvez cruzando o caminho que agora ele mesmo persegue. O caminho da volta ao lar, o caminho do retorno ao seguro, da retomada de esperanças. Esperanças que há muito não tinha o prazer de sentir, pois ao fim de suas economias da herança, seus amigos se esvaíram, e não tinha mais dinheiro e poder para se apoiar. Suas esperanças sumiram com a rapidez atordoante com que chega o futuro, pra pegar desprevenido aquele que o ignora. Ignorava então, neste momento a situação de sua família que deixara anos atrás. Ignorava os desígnios da vida e morte sobre aquela casa, o paradeiro e saúde de sua família. Arrastando-se pé após pé numa caminhada de zumbi imaginava a cada passada como estavam seus entes, e se amaldiçoava pelo que havia feito. A chuva que antes caía fina não tardou a tornar-se mais agressiva, e fazê-lo tremer de frio, em meio a uma noite escura. Paulatinamente, seus olhos começavam a se unir à água da chuva, através de um choro contido, soluçante, porém silencioso, como aquela noite escura. Então, como a rapidez de todos os acontecimentos o tinham chocado, tropeçou em uma raiz na lama que o fez tombar de frente num lamaçal corrente pela chuva. Sua memória então recordou do período em que percebeu sua decadência, e em que abdicou de seu orgulho que sempre havia cultivado durante a vida. Estava ele comendo comida dos porcos, em meio aos porcos, constando que a única coisa que o diferenciava daqueles animais imundos era a sua fraqueza. Pois aqueles animais não tinham opção por estar lá, diferente dele, que trilhou o caminho da auto destruição por sua própria vontade. Percebeu então que a sua inteligência e seu conhecimento de nada lhe valiam, pois a natureza, em sua perfeita simplicidade o mostrava o resultado de sua independência. Levantou-se daquele local, e resolveu então que sua única chance seria procurar o caminho que leva ao seu lar. Com passos decididos, e uma determinação tocante, levantou-se daquele lamaçal e prosseguiu sua jornada. Com a mesma determinação que penetrou nos campos em que brincava quando pequeno, as casas de sua vila, e até sua rua, que continuava como que presa num êxtase temporal, idêntica a quando a deixara anos antes. E a cada passo seu fardo tornava-se mais pesado, este fardo da culpa que o consumia. A culpa e a vergonha tinham tomado-lhe o ser, mas o seu instinto sabia que esse era a estrada correta. Avistou sua casa, bela e imutável, como tudo naquela região. Aproximou-se da porta com uma lentidão pensativa, e no momento em que ia bater à porta estancou o braço mais uma vez, na rapidez dos acontecimentos.
Em alguns milésimos de segundos fez reflexões de dias, meses e anos, e então concluiu que sua situação só inspirava pena, e que a isto não se prestaria. Percebeu o quanto seria motivo de humilhações por parte de todos, e reprovações por parte da família, e isso a cada segundo o afastava daquela porta, tornando-a mais inacessível e distante, como se dela estivesse fugindo. Virou-se e lentamente como viera caminhou, decidido que podia se erguer sozinho, não precisando de ninguém exceto si mesmo para assegurar seu destino.
E neste minuto seguinte percebeu a armadilha em que havia caído. Estava destinado a uma valsa sem fim, de movimentos sincronizados, onde lhe era reservado o posto de marionete do mundo, para em uma sequência infindável, repetir seus próprios erros. Lembrou-se deste sentimento de independência que havia sentido e aonde ele o tinha levado. Lavou seu orgulho nas gotas pesadas da chuva, e como um prisioneiro que caminha pra um destino incerto, virou-se, e com o coração inundado pelo arrependimento, caminhou tranquilo em direção à pesada porta de madeira. Parou, respirou fundo e com força bateu prolongadamente na porta. Ao perceber passos se aproximando entendeu que não estava se submetendo novamente à uma dependência insana ao dinheiro, mas a uma liberdade maravilhosa e renovadora, que consistia em uma dependência total a única matéria que não pode ser tocada, a matéria dos sonhos e da realidade divina, o belo e puro, amor.
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Uma resposta para Pródigo

  1. Agatha disse:

    Lindo texto, por demais… Acho incrível esse seu talento para narrativas assim.

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