Quisera eu ter podido dizer adeus

Wagner Artur

Quisera eu ter podido dizer adeus. Quem dera…

É curioso pensar que esse seja meu desejo mais coerente e mais presente, um mero adeus. Não importa se com palavras frágeis ou imperativas, realmente não interessa tanto. Tudo o que importa é poder se falar o que há a ser falado mesmo que no silêncio, e por isso eu só queria um adeus. Não tive essa oportunidade. Ou tive e não aproveitei? Adeus. Adeus. Simples assim, mas tão distante e intangível.

Como seria se desde o início eu soubesse que não haveria de fato uma despedida? Eu me prepararia talvez pra a cada instante, a cada olhar, a cada toque, a cada sorriso descuidado estampar em toda a extensão da minha capacidade de me comunicar a verdade tão sublime disso que hoje eu poderia muito bem ter dito em um adeus. Isso não tornaria o adeus inútil. Quem sabe opcional. Daqueles que tão lá só pra enfatizar, sabe? Passava bem sem, agora melhor ainda. A cerejinha na sobremesa deliciosa da vovó.

É ainda mais curioso pensar que verdades sublimes são tão concretas quanto aqueles momentos perfeitos. A ocasião apropriada. São obras da nossa poesia, aquela mesma que nos circunda do momento em que nascemos até o momento que cessamos, a mesma poesia que às vezes parece nos afogar em escárnio, que parece nos preparar pra cada momento de alegria intensa, daqueles que desejamos no íntimo do nosso ser – talvez tão íntimo que nós sequer damos conta – que durasse para sempre, nos trouxesse a tal felicidade que insistimos em esperar em um momento perfeito. Isso sim, uma verdade sublime.

Arrependimento é mesmo um sentimento covarde. Perdoe-me pela sinceridade, mas passei da idade de creditar ao arrependimento alguma fagulha de nobreza. Acredito sim, que existam dois tipos de erro. O primeiro tipo, aquele que tem conserto, traz consigo uma solução óbvia. Conserte-o. Muito mais eficiente que a lamentação. O segundo tipo esconde uma pergunta. Aquele que não tem conserto. Será que esse erro é realmente final? Não há alternativa? Não há escapatória? Tudo acabou?

Enforquem-me no tribunal dos proscritos, mas não vejo razão em um coração que adianta o seu fim ao ponto de conferir a um segundo qualquer de sua existência uma irredutibilidade que só a morte pode realmente trazer.

Se estiver vivo, mudará. Se seu coração estiver vivo ele vai acreditar que poderá corrigir o que há de ser corrigido. Porém é irrelevante se vai alcançar ou não sua redenção. A vida é uma estrada montanhosa, na qual seus acidentes se juntam em poesia, e o traçado de sua tapeçaria é um desenho que se completa em seu esplendor.

Quem sonha precisa acreditar no presente. Assim como eu acredito no meu adeus. Acreditar que o futuro deve ficar no futuro, e só vir quando for chamado. Então virá o fim da história. Virá meu adeus, e aí sim, nada mais poderei fazer. E finalmente conhecerei a liberdade com a intimidade de um amante. Até lá, sem despedidas. O silêncio apenas começou.

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