Repita o processo, se necessário.

Wagner Artur

Recentemente, em um momento de ocupação alucinante – leia-se pasmaceira de férias – me propus a uma tarefa desbravadora. Ler rótulos. Levantei-me de sobressalto, já com meus alvos em mente. Os dois maiores centros confluentes de rótulos em uma residência comum: cozinha e banheiro. Disposto a aniquilar com ferocidade o tédio dos dias, parti em disparada pelo corredor até o banheiro.
Abri a porta com prestreza e corri pra o box. Entre cremes, xampus e condicionadores, encontrei várias destas pequenas pérolas, cheias de informações importantes para alguns, e enfadonhas para outros. E divertidas, pra mim. E entre produtos químicos de nomes curiosos – Hidroxipropiltrimônio, por exemplo, devia batizar alguma rua, para a alegria dos carteiros – salta aos meus olhos uma frase corriqueira, que decora esses produtos de beleza desde que me entendo por gente; “repita o processo, se necessário”. Imaginei logo uma garota em sua adolescência, que entra para o banheiro, usa seu produto favorito, e após o processo, para e reflete: “E aí, deu jeito?”. Não consigo evitar de pensar na força dessa palavra “necessário” e sua conotação. Necessário para quê? Qual a finalidade?
Buscar uma aparência melhor é não mais uma opção, e sim uma necessidade. Recordo-me das considerações de Bertrand Russel sobre a juventude atual. Desde seu cinismo, o próprio modelo de sociedade corrente, segundo ele, produz prioridades insensatas. Houve tempo em que a humanidade florescia em artes e conhecimento. Mesmo as prioridades não sendo o trabalho físico – este inclusive “legado aos nobres escravos” durante boa parte da Antiguidade Clássica e surgimento dos princípios da ciência – eram a busca pelo engrandecimento perene através da busca de uma completude da alma. Uma completude que ia além de uma aparência fútil para uma noite vazia, disfarçando uma incoerência concreta pelos dias despropósitados. O olhar de sonhos da Sociedade dos Poetas Mortos, aquele filme que já está ficando antigo, traduz um Carpe Diem diferente deste, comprovando que os tempos são outros. Julga-se que o mundo está tomado e dominado, a ciência já o conhece, os seus mares já não são sombras bravias, e sim uma piscina grande no quintal. Este mundo paralelo, onde as verdades estão sobre a mesa, e os caminhos estão traçados, esconde um comodismo que conduz a uma vida maçante, distante das bravatas e aventuras da simples observação do cotidiano. Vidas vazias de conteúdo, pois nem o seu próprio conteúdo, os dias, recebem alguma atenção.
Me pergunto se ao futuro, ao vislumbrar que os dias por vir já se contam em menor número que os que já passaram, essas pessoas desejarão viver mais uma vez, para poderem aproveitar desde seu princípio a vida com a serenidade que possuem ao dela se despedir. A ironia se revela através na paciente necessidade, que demonstra seu poder. A estes não será dada a oportunidade que a maioria das pessoas tem, a o realizar qualquer ação. Repensar a vida, a natureza das coisas, buscar a vida ao aprender. É uma questão de lançar-se sem medo nessa direção, a direção da vida, e então, repetir o processo.
Pois é necessário.

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